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A ambiguidade sexual do presidente da República

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Manuel Texeira-Gomes, presidente da República entre 1923 e 1925, fotografado por volta de 1910 (foto: Museu da Presidência da República/CC)

Escreveu sobre a sensualidade do corpo masculino e no fim da vida exilou-se na Argélia, destino erótico de intelectuais franceses do século XIX. Manuel Teixeira-Gomes era homossexual?


Por que razão escreveu Manuel Teixeira-Gomes sobre a “deliciosa” nudez e a “rija musculatura” dos adolescentes?

Sobre a “exuberante beleza” de um amigo e a “lânguida expressão amorosa” de um prostituto?

Sobre um marujo que o “provoca e acaricia” com o olhar e um amigo que mete garrafas de cerveja “pelas bocas escancaradas” de marinheiros?

Empresário e diplomata, escritor e viajante, Teixeira-Gomes (1860-1941) viveu com uma mulher e teve duas filhas. Chegou a Presidente da República em 1923.

As biografias falam de um homem brilhante, cosmopolita e de pensamento avançado. E registam ao mesmo tempo, em letras mais pequenas, a sua alegada homossexualidade.

A hipótese chegou a circular por Lisboa nos anos 20, sob a forma de boato, e há hoje quem diga que se trata apenas de uma lenda.


Urbano Tavares Rodrigues, professor jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa e autor da tese de doutoramento O Discurso do Desejo (1982), sobre a literatura de Teixeira-Gomes, entende que ele “nunca foi um homossexual”. E explica porquê: “Tinha pulsões, mas não fez um investimento no desejo homossexual. Como escrevi na minha tese, há nele uma pulsão homossexual integrada, que faz parte da sua personalidade heterossexual, mas não é dominante.”

O historiador Vasco Pulido Valente discorda. Vai para além da homossexualidade. Fala em pedofilia. “Por pura inferência, sou levado a dizer que Teixeira-Gomes era pedófilo, homo e heterossexual. Quem ler a obra e conhecer a biografia concluirá o mesmo.”

O bisneto de Teixeira-Gomes, Miguel Callapez, de 43 anos, reconhece “o direito a questionar” a sexualidade do escritor, mas recusa-se entrar em polémicas: “Ser homossexual não o diminuiria em nada, mas não sei dizer se era ou se não era, não acho o tema interessante, são coisas de novela.” De uma coisa está seguro: “A partir da sua obra não se pode extrair nenhuma conclusão.”

As mulheres são uma constante nos contos e romances de Manuel Teixeira-Gomes. Descreve ao pormenor o corpo feminino, refere-se muitas vezes aos seios e aos cabelos, inunda a prosa com erotismo heterossexual. Mas, em simultâneo, deixa-se prender pelos corpos masculinos e cede ao homoerotismo. “Há o medo de que, no aspecto homossexual, a obra reflicta e exprima a própria vida, o que não só diminuiria a obra como poria a nu comportamentos tidos por degradantes”, analisa António Fernando Cascais, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova e investigador da temática LGBT (lésbica, gay, bissexual e transgénero).

Mesmo quem nega categoricamente a homossexualidade de Teixeira-Gomes reconhece que a criação literária está colada à vida do escritor. “Há um lado romanceado mas a componente autobiográfica é fortíssima”, assegura Urbano. David Mourão-Ferreira, outro dos intelectuais que estudaram os textos do antigo chefe do Estado, vai no mesmo sentido: “Nem a biografia explica a obra, nem dela inteiramente podemos prescindir”, escreveu no ensaio Aspectos da Obra de Teixeira-Gomes (1961).

Homem “refinado, mundano, literato e cosmopolita”, pertencia à alta-burguesia, mas cultivava um estar próximo do do povo no que respeitava ao “desprezo pelos costumes, hierarquias e pudores tradicionais”, nota o historiador Rui Ramos num dos volumes da História de Portugal dirigida por José Mattoso (2001).

Nasce a 27 de Maio de 1860 em Vila Nova de Portimão, filho de Maria da Glória Teixeira e José Libânio Gomes – um riquíssimo comerciante de frutos secos. Tem três irmãos: José, Ana e Maria da Glória.

Aos dez anos, vai estudar para o seminário de Coimbra, experiência que o converte em ateu militante. Segue-se uma desastrosa vida académica. Tenta medicina, mas a boémia é mais forte que ele. Às longas noitadas de whisky, charutos e prostitutas junta as tertúlias com a fina-flor da intelectualidade lisboeta e portuense: Fialho de Almeida, António Nobre, Sampaio Bruno, Basílio Teles, Soares dos Reis. Os estudos ficam por concluir.

Aproveitando os privilégios de classe, viaja longamente pela Europa e pelo Norte de África. Alarga os horizontes, prepara o futuro como delegado comercial dos negócios familiares e inicia uma criteriosa colecção de pintura e objectos de decoração – que pertence hoje na quase totalidade ao Museu do Chiado, em Lisboa. É fluente em espanhol, francês e inglês. Um autodidacta estrangeirado, o boémio fin-de-siècle.

Por volta dos 25 anos regressa a Portimão para trabalhar com o pai e passa a viver com Belmira das Neves, uma adolescente de modesta origem. Têm duas filhas e nunca se casam, porque, segundo a interpretação consensual, um homem da classe dele nunca poderia desposar uma mulher do povo.

O argumento de que a existência de mulher e filhas, por si só, excluiria a homossexualidade tem sido apresentado várias vezes. Há quem contraponha o exemplo do contemporâneo britânico Oscar Wilde, condenado por atentado ao pudor em consequência da sua relação com lorde Alfred Doulgas. Também Wilde se casou, em 1884, com Constance Lloyd, e teve filhos.

“Até mais ou menos aos anos 60 do século XX, as pessoas a quem hoje chamamos homossexuais não excluíam a possibilidade de casar e depois tinham ‘aquela coisa’, o sexo ocasional fora do casamento com pessoas do mesmo sexo”, explica António Fernando Cascais. “Para encontrarmos em Portugal personalidades com um modo de vida e uma legitimação intelectual da homossexualidade seria preciso chegarmos aos Surrealistas [anos 40]. É o caso de Mário Cesariny. Ele é o primeiro que o diz, com elaboração intelectual. Não se limita a praticar actos, há uma identidade.”

Antes disso, só António Botto (1897-1959), que acabou em desgraça por se ter assumido. E também Botto era casado.

Por coincidência, Teixeira-Gomes acabaria por escrever um curto ensaio para a edição de 1941 de As Canções de António Botto, livro de poesia homoerótica, mandado apreender pelo Governo Civil de Lisboa em 1923 e originalmente publicado em 1922 pela editora Olisipo, de Fernando Pessoa. Nesse ensaio, Teixeira-Gomes sai em defesa da homossexualidade de Botto, de forma velada: “Uma das formas singulares do poeta António Botto consiste em exprimir alguns sentimentos requintados, despindo-os do convencionalismo burguês ou mesmo de toda a classe de convencionalismo.”


“A forma como se tem vindo a interpretar a obra de Teixeira-Gomes é baseada em grelhas de inteligibilidade literária e social próprias do século XIX”, analisa o investigador António Fernando Cascais.


Mas voltemos ao enredo biográfico. Quando a monarquia cai, em 1910, Teixeira-Gomes é um republicado convicto e de excelentes relações com os homens do poder. O governo provisório de Teófilo Braga convida-o para ministro de Portugal em Londres. Aí vive durante sete anos, nas altas esferas da diplomacia, tornando-se até amigo do rei Jorge V. A seguir, o primeiro-ministro José Relvas nomeia-o para Madrid, experiência que dura apenas alguns meses. Volta a Londres em 1919 como representante de Portugal na Sociedade das Nações (futura Organização das Nações Unidas).

Em Agosto de 1923, é eleito Presidente da República, por força e sugestão de Afonso Costa, figura central da I República. O sufrágio directo não existia, era a Câmara de Deputados e o Senado que escolhiam o inquilino de Belém. “Não vem num momento de tranquilidade, de boa ordem, paz e serenidade nos espíritos e nas ruas”, escreve o diário republicano A Capital, dias antes da tomada de posse, que se dá a 5 de Outubro. “Espinhoso é o cargo”, vaticina Teixeira-Gomes no discurso de investidura.

Nessa altura tem 63 anos, já escreveu toda a sorte de impudências que a moral da época não perdoa. Os livros Inventário de Junho (1899), Cartas Sem Moral Nenhuma (1903), Agosto Azul (1904) e Gente Singular (1909) são os mais controversos. “É um provocador, mas com grande capacidade literária”, sintetiza Urbano. “O Eros é dominante na obra.”

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Capa do livro “Aspectos da Obra de M. Teixeira-Gomes”, que David Mourão-Ferreira publicou em 1961 pela Portugália Editora

David Mourão-Ferreira, no ensaio já referido, fala em “arte voluptuosa” e deixa cair uma insinuação: “Por curiosa inclinação do seu espírito, se não também do seu corpo, Teixeira-Gomes revela impressionantes afinidades com o pensamento grego dos séculos IV e II antes de Cristo”. Miguel Callapez, o bisneto, relativiza: “Era um esteta, seria castrador que olhasse a beleza feminina e a masculina e não as pudesse descrever da mesma forma.”

Os adversários políticos de Teixeira-Gomes são os primeiros a bradar perante faces imberbes e músculos cinzelados. Escreve o historiador Rui Ramos que “na política republicana a exibição de bons costumes era de regra e a melhor maneira de ferir um adversário era sugerir ou dizer que o outro não era tão casto e puro como um bom republicano devia ser”. Não perde por esperar.

“No Congresso do Partido Nacionalista de Março de 1925, Cunha Leal [ex-deputado, ex-ministro das Finanças] não hesitou em acusar o presidente de ter escrito Cartas Sem Moral Nenhuma e em repetidas ocasiões referia a admiração que ao presidente era atribuída por corpos nus de rapazes”, garante Rui Ramos. O boato, acrescenta,  andava nas bocas de “muita gente”, o que obrigou o visado a vir a público “com um desmentido formal”.

Urbano Tavares Rodrigues entende que, neste caso, Teixeira-Gomes foi vítima de “verrina política”. E adianta que “não há nas cartas dele para os amigos quaisquer referências a práticas homossexuais, pelo contrário, refere-se aos rumores que circulavam e desmente-os sempre”.

Por que motivo, então, teria escrito tantas vezes sobre a sensualidade masculina? “Seguia um certo modismo da literatura francesa da época. Não diria que imitasse, mas aceitava sugestões da obra de André Gide, e de outros autores, e sofreu influências do simbolismo decadentista e do naturalismo”, explica Urbano.

António Fernando Cascais sustenta que “a forma como se tem vindo a interpretar a obra de Teixeira-Gomes é baseada em grelhas de inteligibilidade literária e social próprias do século XIX”. Concretizando: “A identidade homossexual no fim do século XIX é considerada uma doença, não um estilo de vida. Os homossexuais naquela época são os degenerados que engatam na rua, que não podem progredir socialmente, que são alcoólicos, que vão parar ao hospital psiquiátrico. Teixeira-Gomes não faz outra coisa que não seja defender-se dessa condição imposta pela medicina. Ele é um intelectual, não pode ser um degenerado, o que faz e o que escreve não pode ter nada a ver com homossexualidade.”

Quanto às alegações de pedofilia, baseiam-se sobretudo no facto de a mulher de Teixeira-Gomes ter 13 ou 14 anos quando se juntaram. Algumas passagens dos seus textos revelam também um desejo pré-púbere homo e heterossexual: mulher “miudinha e perfeita”, “faces imberbes”, “corpo insexuado” e “corações vilmente desflorados” são algumas das expressões que usa. Urbano contextualiza: “Ele tinha um fraco pelas adolescentes, hoje poderíamos falar em pedofilia, mas a moral da época entendia que uma rapariga de 13 anos era uma mulher feita.”

Pulido Valente coincide: “Um adulto do sexo masculino que fosse pedófilo de rapazes ou raparigas não era malvisto nas sociedades mediterrânicas do século XIX e inícios do XX. Veja-se o caso do Duque de Palmela, que se casou com D. Eugénia Teles da Gama, descendente de Vasco da Gama, quando ela tinha apenas 13 ou 14 anos.

Ao escrever ao amigo António Patrício, a 8 de Novembro de 1926, Teixeira-Gomes disserta sobre a atracção sexual por crianças. Defende que muitas vezes são as vítimas de violação que têm culpa de serem violadas. A carta é publicada em 1937, na compilação Miscelânea [ver excertos abaixo]. Mais tarde, em 1942, no livro O Exilado de Bougie, do jornalista Norberto Lopes, é atribuída ao antigo chefe de Estado a seguinte frase: “Essa calúnia ignóbil, que correu os cafés de Lisboa a meu respeito… Pederasta, eu, que toda a minha vida gostei de mulheres!”.

Pulido Valente levanta uma hipótese quanto a esta última frase: “Isso pode ser o Teixeira-Gomes a tratar já da sua imagem para a História, na certeza de que a pederastia passara a ser mal vista. A partir dos anos 40, por via do fascismo italiano e do nazismo, Portugal adere à imagem do homem fardado e viril, autoritário e austero, o que evidentemente já não deixava espaço para práticas pedófilas.”

Perante excertos eróticos da obra de Manuel Teixeira-Gomes, a psicóloga Gabriela Moita afirma que “nada permite concluir sobre a orientação sexual” do autor/narrador, seja ela hetero, homo ou bissexual. Doutorada pela Universidade do Porto em 2001, com a tese Discursos Sobre a Homossexualidade no Contexto Clínico, Gabriela Moita acrescenta, no entanto, que Teixeira-Gomes é um voyeurista corajoso: “Se eu não tiver em conta nem o género do narrador nem o género do corpo exaltado, o que digo é que o corpo é observado e exaltado pelo narrador com sensualidade e erotismo. Tendo em conta o género de ambos, e a norma heterossexista, diria que é interessante e corajoso que um homem, e sobretudo na época a que nos referimos, seja capaz de criar um narrador que observa e descreve a sensualidade e o erotismo de um corpo. Diferente seria dizer que é com sexualidade e erotismo que ele observa os corpos. Isso já seria uma interpretação.”

No fim da vida, o criador de Cartas Sem Moral Nenhuma exila-se voluntariamente no Norte de África, no que constitui o único facto biográfico concreto que poderá sustentar a tese de homossexualidade.

O curto mandato presidencial terminara em Dezembro de 1925 com a sua demissão. “Artista por índole, natureza de uma extrema sensibilidade, vivendo há muitos anos num meio afastado, cheio de requintes e hábitos de civilização muito diversos dos nossos, era natural que se sentisse em profundo desânimo e desalento”, lê-se no Diário de Notícias a 9 de Dezembro de 1925.

Diz a lenda que o presidente demissionário apanha o primeiro barco que lhe aparece no Tejo, um vapor holandês de nome Zeus. Faz escala em Setúbal e em Tânger, atraca em Oram. Durante seis anos deambula de cidade em cidade, até que em 1931 vem a assentar em Bougie (actual Béjaïa), na Argélia. Quarto número 13 do Hôtel de l’Étoile. “Completamente isolado, sem relações, sem visitas, sem amigos próximos, fazendo uma vida de asceta”, relata o jornalista Norberto Lopes.

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“Retrato de Teixeira Gomes” (1911), de Columbano Bordalo Pinheiro – óleo sobre tela, 55 × 43 cm, assinado e datado (foto: Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado)

“A veneranda figura que se refugiou em Bougie (e não, por exemplo, em Nice) tinha razões de um peso particular”, escreveu Pulido Valente em 2006 no blogue O Espectro. “O Norte de África, como Gide amorosamente descreveu, era o paraíso dos pedófilos. Teixeira Gomes queria rapazinhos. E, de quando em quando, virgens de onze, doze anos, para, como ele disse, lhes ‘colher as primícias’” – expressão que Teixeira-Gomes emprega no romance Maria Adelaide (1938).

O sociólogo francês Didier Eribon, no livro Réflexions Sur la Question Gay (1999), confirma o Norte de África como destino fetiche dos intelectuais franceses homossexuais, embora não fale em pedofilia, e diz que “um dos princípios estruturantes das subjectividades gays e lésbicas consiste em encontrar formas de fugir ao insulto e à violência, seja através da dissimulação, seja através do êxodo para zonas geográficas mais acolhedoras”.

Do fim do século XIX em diante, é isto que explica o aparecimento, no imaginário colectivo homossexual, de uma verdadeira mitologia da cidade, diz Eribon. E conclui: “Juntamente com a mitologia da grande cidade existiu durante muito tempo uma outra mitologia da viagem e do exílio, já não para a cidade, mas para um país estrangeiro, para outro continente. Existia, e ainda existe, sem dúvida, um fantasmático ‘algures’ para os gays, um ‘algures’ que se oferece à realização de sonhos, impossíveis na terra de origem”. Exemplos? Norte de África para o francês André Gide, a Itália para o alemão August von Platen e a Alemanha para o americano Christopher Isherwood.

Dois anos depois de sair de Portugal, Teixeira-Gomes envia uma carta ao médico e jornalista José Pontes, com data 14 de Fevereiro de 1927, e revela: “Eu, por meu lado, regressei à vagabundagem internacional, que fez as delícias do meu passado, e à qual me convencera de que nunca mais voltaria. Há ano e meses que nela ando (ninguém já mos tira) e oxalá os que ainda tenho para viver (se alguns me restam) decorressem de igual modo.”

A 18 de Outubro de 1941, morre em Bougie. Sozinho, deprimido e quase cego. Os restos mortais só serão transladados para Portugal em 1950, numa cerimónia que onde esteve presente um único representante do Estado: o ministro do Interior Trigo de Negreiros.

Bruno Horta

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Excertos da obra de Manuel Teixeira-Gomes:

“Dei com uma aluvião de rapazes que se banhavam no mar, justamente pela tremulina do sol. […] Alguns, já rendidos, agarravam-se e ficavam pelas escabrosidades das rochas; outros estiravam-se, embalados à tona de água, com as mãos cruzadas debaixo da cabeça; outros subiam ao molhe para secar o corpo ao calor das lajes e era deliciosa de observar a variedade de tons delicados, desde o rosa-pálido até ao bistre-carminado, por que passava a carne daquela multidão de formas nuas.”
Inventário de Junho (1899)

“Os ágeis marroquinos depressa largaram as túnicas para saltarem, nus, em cima dos cavalos e atirar-se ao mar. […] Figuravam entre eles criaturas de raças muito diferentes: o ruivo cabila, de arcabouço abaulado, cheio de relevos e como que batido a martelo; o negro, de mal entroncados membros, com os vergões da rija musculatura a ondearem sob a pele acetinada; e alguns árabes de formas delicadas, indecisas até ao feminino grácil.”
Inventário de Junho (1899)

“Era o meu amigo Tomás que me aparecia nas tardes festivas de Verão, quando se alargam as horas de recreio, correndo pelos terraços do seminário […]. Nunca a mocidade atingira tão exuberante beleza como naquele adolescente de compleição quase divina; nunca existira criatura mais perfeita, mais forte, mais alegre.”
Inventário de Junho (1899)

“Assoma às grades e, desenvolto, as transpõe, indo bater à porta da sacristia, um forte rapaz dos seus dezoito anos, muito elegante no traje de chulo que lhe realçava a ambígua plástica apolínea, escandalosamente. É, nas feições, o tipo dos arcanjos que os grandes pintores sevilhanos puseram nos quadros da Anunciação: imberbe, tez mate, cabelo negro e anelado, grandes olhos aveludados, de lânguida expressão amorosa. […] O rapaz atravessa a capela sem nenhuma hesitação, lançando-me, na passagem, um incitante olhar profissional, e desaparece.”
Cartas Sem Moral Nenhuma (1903)

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Frontispício da primeira edição de “Agosto Azul”, tal como aparece no site da Biblioteca Municipal de Santarém

“É hora do banho para a marinhagem que se apinha nos castelos da proa ou já se balouça em cachos de baralhadas formas nuas nas cordas suspensas dos paus de surriola. Jogam-se à água, muitos deles com saltos de acrobatas, e uma chusma deles cerca-nos o bote lançando-lhe as mãos à borda como se o quisessem tomar de assalto. […] A um marujo ruivo, com o torneado arcabouço de pião, que assomara ao bote e ficou debruçado, a meio corpo, damos-lhe vinho pela borracha. Bebe sôfrego e sem jeito, com dois fios de púrpura a fugirem-lhe das comissuras dos lábios até encherem as conchas em que se lhe ajeita a carne no vão das clavículas. Outros querem também beber. Para despachar, o meu companheiro [de viagem] abre garrafas de cerveja e vai-os servindo a dois e dois, metendo-lhes os gargalos pelas bocas escancaradas.”
Agosto Azul (1904)

“São marujos malteses, de pele baça e modelados como Hércules: os mesmo corpos de possantíssimos escravos que as gravuras antigas punham a remar nas galés do Grão-Turco. Era placidamente heróico o espectáculo dos seus trigueiros corpos atléticos.”
Agosto Azul (1904)

“A atmosfera de sensualidade intensifica-se com a presença de um marujo que, eu já notara de dia, adolescente de expressão felina, imberbe, com a boca de delicado recorte (cujas comissuras comprime sem descanso) se cruza comigo centenas de vezes, na estreita passagem entre a amurada e a parede do salão. O seu olhar fosforece, provoca-me, persegue-me, acaricia-me…”
Novelas Eróticas (1935)

“Dias há, mesmo épocas, em que os nossos olhos carregados de desejos de tal forma penetram na alma das mulheres que cruzamos na rua, que ali levantam súbitas labaredas de sensualidade. […] Não sabemos, ou não podemos [aproveitar o momento], à falta de lugar próprio, e com receio da polícia. […] Essa força de atracção sexual desenvolvem-na, com frequência, certos velhos sobretudo na presença da mocidade ainda impúbere, e assim se dão tantos casos, levados à conta de violência, que foram consentidos e até provocados pelas pseudovítimas.”
Carta de 1926 a António Patrício, Miscelânea (1937)

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Versão actualizada e aumentada de um artigo originalmente publicado no Diário de Notícias de 14 de Agosto de 2010.

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