É pouco rigoroso usar categorias actuais de classificação do comportamento ou da identidade para descrever quem viveu numa época em que essas categorias não eram reconhecidas. Por isso, não, Sergei Eisenstein (1898-1948) não era homossexual, no sentido que hoje damos à palavra. E, no entanto, tudo indica que a vida e o  trabalho do realizador reflectem interesse e atracção por pessoas do mesmo sexo.

A tese já tem algumas décadas e reaparece agora no documentário Sergei/Sir Gay (2017) que será exibido a 13 de Maio no Indie Lisboa, festival internacional de cinema independente (teve estreia internacional em Janeiro, no Festival de Roterdão).

O realizador, Mark Rappaport, um independente americano radicado em Paris, profissional da exumação de factos e respectiva reinterpretação, tem no currículo o famoso The Silver Screen: Color Me Lavender (1997), documentário sobre a representação da homossexualidade em Hollywood até aos anos 60; e Rock Hudson’s Home Movies (1992), uma visão homoerótica sobre a vida de Rock Hudson.

Quando Eisenstein nasceu, em 1898, a palavra “homossexual” já existia. Não se sabe a data precisa em que apareceu, nem a autoria certa. Há várias versões.

  • Karoly Maria Benkert (ou Kertbeny, noutra versão) usa pela primeira vez os termos ‘homossexual’ e ‘heterossexual’, em Maio de 1868, em correspondência trocada com o advogado e jornalista alemão Karl Heinrich Ülrichs (Gabriela Moita, Discursos Sobre a Homossexualidade no Contexto Clínico, 2001);
  • no ano seguinte, 1869, Karoly Maria Kertbeny divulga o termo em público através de dois panfletos escritos anónimos distribuídos no território da então Confederação Germânica (Encyclopedia of Homosexuality, de Wayne R. Dynes);
  • a palavra “homossexual” será utilizada pela primeira vez em língua inglesa em 1891 por John Addington Symonds (Gabriela Moita, Discursos Sobre a Homossexualidade no Contexto Clínico, 2001);
  • John Addington Symonds usou a palavra em 1892 (não em 91) numa carta particular (William Naphy, Born to be Gay: Uma História da Homossexualidade, 2006);
  • em 1906, no segundo volume de A Vida Sexual, o médico português Egas Moniz utiliza a designação de “homossexualidade” para o capítulo em que refere a existência de “sensações femininas em homens providos de orgãos genitaes normalmente conformados” e “sensações masculinas em mulheres com órgãos sexuaes normalmente desenvolvidos” (Gabriela Moita, Discursos Sobre a Homossexualidade no Contexto Clínico, 2001);

Ainda segundo William Naphy, no fim do século XIX, início do XX, “a opinião científica, médica e psiquiátrica vigente era a de que a homossexualidade constituía uma doença congénita”. Portanto, quando Eisenstein vem ao mundo, em Riga, a 23 de Janeiro de 1898, a palavra “homossexual” já circula e não é boa. O documentário dá nota disso, mesmo se aplica a visão gay da segunda metade do século XX a uma realidade que lhe é anterior.

Não há depoimentos, ao estilo dos documentários televisivos, nem uma narração cronológica da vida do realizador. Uma voz off em inglêscom sotaque eslavo (pertence a Mihailo Stanisavac), simula ser o próprio Eisenstein a dirigir-se hoje ao “caro espectador”, muitas vezes em tom irónico. O realizador chama-lhe “autobiografia fictícia”. Se os dados que apresenta são todos rigorosos, os biógrafos dirão.

“Criar autobiografias fictícias permite incorporar um ponto de vista pouco habitual sobre uma personagem ou um filme”, disse Mark Rappaport, em entrevista recente à publicação espanhola Shangay.com. “É mais apelativo do que uma simples sucessão de dados. Os ensaios que fiz sobre pessoas já desaparecidas sempre foram os que maior êxito, ainda hoje é assim.”

A voz off principia:

“Penso que tudo começou por volta de 1958, dez anos anos depois da minha morte, quando a segunda parte de Ivan, O Terrível finalmente se estreou. O príncipe Vladimir, que tinha tido um pequeno papel na primeira parte, é agora uma das personagens principais. É muito efeminado, é o menino da mamã. Foi essa questão que fez soar todos os alarmes”, começa por dizer o narrador. Assim, “começaram as perguntas indiscretas sobre as minhas preferências sexuais, embora não entenda por que se deram ao trabalho.”

 

Imagens dos filmes de Eisenstein e dos desenhos eróticos que deixou cruzam-se em defesa da tese de Rappaport. Esses desenhos, Eisenstein começou a fazê-los em adolescente e, ironicamente, assinava-os como “Sir Gay”, talvez para dar uma grafia inglesa ao seu primeiro nome, Sergei.

Os marinheiros de O Couraçado Potemkin (1925) são apresentados por Rappaport sob um olhar homoerótico, chegando a ser comparados aos marinheiros de Querelle (1982), de Fassbinder.

Cineasta comprometido com a Revolução Bolchevique, Eisenstein casou-se por duas vezes, alegadamente para servir a imagem pública de bom revolucionário, o que não concorre para desmentir o ponto de vista do documentário, que explora as relações do realizador com vários actores, desde logo Grigori Alexandrov, que também teve funções de assistente de realização.

Os diários que deixou, publicados em livro no início da década de 1980 sob o título Memórias Imorais (traduzidas no Brasil, mas não em Portugal), já o tinham mostrado apaixonado por jovens do sexo masculino, de acordo com o crítico de arte Daryl Chin. “Muitas vezes, essas paixões tinham como objecto rapazes heterossexuais, que ele ensinou e ajudou profissionalmente”, acrescenta.

Em anos recentes, o tema da sexualidade de Eisenstein originou um outro filme de ficção: Eisenstein em Guanajuato (2015), de Peter Greenaway, onde se mostra a genialidade do realizador russo levada ao extremo durante a estância no México para a rodagem, nunca terminada, da longa Que Viva Mexico!, em 1931.

 

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