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O mistério do padre Alberto


As circunstâncias da morte de Alberto Neto nunca foram conhecidas. O caso tem motivado especulações sobre a orientação sexual do padre e a sua história de vida ganhou foros de mito. Breve viagem a um crime sem castigo. Uma personagem que a história ameaça esquecer.


Na noite anterior ao homicídio, Alberto Neto terá sido visto na estação de comboios de Faro. A zona era um conhecido ponto de encontro de homens à procura de sexo. É viável a hipótese de o padre ser homossexual e de ter morrido às mãos de um companheiro de ocasião.


 

A macabra descoberta é feita na Nacional 5, junto Águas de Moura, a três quilómetros de Setúbal. Um casal de veraneantes pára o carro para usar o mato como casa de banho e sob um sol abrasador descobre um cadáver a cem metros da berma, já em decomposição. Avisam os bombeiros e estes chamam a Polícia Judiciária (PJ). É segunda-feira, dia 6 de Julho de 1987.
Ilídio Neves decide acompanhar a brigada de homicídios ao local. O então director da PJ de Setúbal encontra um cenário enigmático. O cadáver está de bruços no meio de um matagal pouco denso, apresenta ferimentos de bala na nuca, está vestido com um fato de treino colorido, puxado para baixo, com o rabo à mostra. No mesmo sítio há restos de papel higiénico e uns óculos, que se percebe pertencerem à vítima.
Entre os agentes da PJ a hipótese de o cadáver ser o de Alberto Neto é a primeira a surgir. O padre que dava aulas de Religião e Moral no Liceu de Queluz tinha ido passar uns dias a Armação de Pêra, no Algarve, e deveria ter regressado na sexta-feira, 3 de Julho, para celebrar um casamento em Rio de Mouro, Sintra. A ausência injustificada ao casamento, mais o silêncio de dias, já tinham levado a família dos noivos a avisar a polícia.
A 8 de Julho, na morgue do cemitério de Setúbal, o padre Armindo Garcia, então professor da Universidade Católica, e José Alberto Oliveira, sobrinho de Alberto Neto, confirmam o que era mais que certo: o cadáver encontrado é mesmo o do padre desaparecido.
No mesmo dia, o corpo é trasladado para o Instituto de Medicina Legal, em Lisboa. A autópsia demonstra “sem margem para equívocos” que Alberto Neto ingerira uma refeição frugal nos sessenta minutos que antecederam a sua morte e apura que a causa da morte é a bala de 6,35 milímetros que o cadáver apresenta no interior do crânio. E mais não se sabe.
A urna com os restos mortais fica em câmara ardente na igreja de Rio de Mouro, onde Alberto Neto era pároco desde há três anos. “Durante toda a noite o templo manteve-se repleto de gente permanentemente em vigília de oração”, escrevem os jornais. A cerimónia fúnebre é presidida pelo então cardeal-patriarca de Lisboa, que termina mais cedo que o previsto uma visita oficial ao Vaticano. “O regresso a Portugal de D. António Ribeiro é justificado oficialmente como uma simples atitude de solidariedade humana, mas o facto não deixa de ser associado, em certos meios eclesiásticos, a uma homenagem da hierarquia católica ao trabalho pastoral do padre Alberto”, dizia o Expresso.
Durante as exéquias, António Ribeiro diz “esperar confiadamente que as autoridades competentes consigam apurar toda a verdade dos factos”, e o presidente da República, Mário Soares, num telegrama de condolências à família, diz que a vida e a acção do presbítero são um exemplo de “fraternidade e coragem que não será esquecido”. O funeral termina em Souto da Casa, Fundão, onde o padre nascera havia 56 anos.
O país ficou em estado de choque. Tinha sido assassinado o homem insubmisso que enfrentara o Estado Novo, clamara a vida toda por liberdade e justiça e ganhara um lugar na vida pública portuguesa. A conhecida Vigília da Capela do Rato, em Lisboa, em Dezembro de 1972 – acontecimento importante na oposição à Guerra Colonial e ao salazarismo – terá tido em Alberto Neto um líder espiritual.
Até hoje, nunca as circunstâncias da morte foram conhecidas. O caso tem motivado especulações sobre a orientação sexual de Alberto Neto. A história de vida do padre vai ganhando foros de mito.
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“Diário de Notícias” relatou o funeral de Alberto Neto (imagem compósita)
Uma onda de boatos atingiu os jornais naquele Verão de 1987. Que  o padre foi morto por traficantes de automóveis pertencentes a uma rede desmantelada dois meses antes. Que se deslocou a Armação de Pêra para acompanhar toxicodependentes em recuperação. Que foi vítima de um ajuste de contas de barões da droga. Toda a gente pensava ter a chave do mistério.
Os boatos ajudaram a redireccionar as investigações. A princípio, a PJ tinha-se concentrado na região de Palmela e depois numa área 60 Km para Sul. Rapidamente percebeu era para o Algarve que se deveria dirigir-se.
Em Portimão, a 11 de Julho, foi encontrado o carro do padre, um Peugeot 205 cinzento, matrícula JZ-29-34, fechado à chave e sem danos aparentes. No interior, um maço de tabaco, um isqueiro e um boné pertencentes a desconhecidos. O criminoso teria pedido boleia ao padre Alberto, ainda no Algarve. Ter-se-ia sentado a seu lado até Águas de Moura e depois de o matar teria regressado ao Algarve na mesma viatura.
A reconstituição que a PJ fez das últimas horas de vida de Alberto Neto deixaramm Ilídio Neves convicto de que “o eventual acordo do padre em dar boleia a alguém e a discussão que podem ter levado ao homicídio, aconteceu tudo a partir do Algarve”. Mas o crime foi praticado no local onde o corpo foi encontrado, garante o antigo agente da PJ.
Era na sala de canto coral do Liceu de Queluz que Alberto Neto dava aulas de Moral e Religião. Assim foi entre 1977 e a data da morte. O liceu chama-se agora Escola Secundária Padre Alberto Neto. Ainda hoje, há funcionários e professores que guardam memórias. José Carvalho, professor de filosofia e ex-presidente do conselho directivo, diz que o padre “era uma referência para todos, não por ser professor de Moral, mas porque era uma pessoa dinâmica, que se envolvia nas actividades da escola”. Tinha as turmas cheias. “Era caso único, pelo menos aqui na linha de Sintra”, garante o professor.
Nas aulas, falava de “amor, liberdade, sexo, droga, paz, deus, Cristo, Igreja”, disse numa entrevista ao jornal da escola, em 1983. Ficou célebre o seu estilo franco e desassombrado. Considerava urgente criar uma escola nova, “aquela onde a professora fez o ponto de filosofia pelo Diário Popular”, dizia.
Alberto Neto tinha sido professor muito antes de chegar a Queluz. Dois anos depois de ordenado sacerdote, em 1957, já dava aulas no Liceu Padre António Vieira, em Lisboa. Mais tarde, no Pedro Nunes. Como alunos tivera os jovens Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Louçã e Guilherme de Oliveira Martins, que viriam a tornar-se líderes políticos.
No ano da morte, Oliveira Martins recordou no Diário Popular as conversas que mantinha com o padre nos corredores do Pedro Nunes. Alberto Neto tinha a “capacidade de fixar as balizas da responsabilidade”, sublinhava o ex-aluno.
Numa homilia em Janeiro de 1971, o padre confessara: “Quando estava no seminário, todos os meus professores diziam que eu não seria nem um bom pregador nem um bom professor. Comecei a dar aulas e verifiquei que era ali a minha vocação”.
Em 1972 dá cobertura a um dos polémicos episódios da oposição ao Estado Novo. A Capela do Rato, em Lisboa, na qual era sacerdote desde 1961, é ocupada a 30 de Dezembro de 1972, véspera do Dia Mundial de Oração pela Paz decretado pelo Papa Paulo VI. Um grupo de católicos reclama o fim da Guerra Colonial e aproveita a data para fazer uma vigília de jejum na Capela. A polícia política prende muitos dos “desordeiros”.
Alberto Neto, que adoecera depois do Natal, não está presente na vigília. No entanto, sem ele “nunca alguns dos organizadores da vigília teriam sentido a urgência da sua realização nem teriam tido a coragem de correr riscos”, recorda o jornalista Jorge Wemans no livro Padre Alberto, Testemunhos de uma voz Incómoda, organizado em 1989 pelo padre Peter Stilwell.
A rebeldia sai-lhe cara. É transferido para uma paróquia mais discreta, a de São João de Brito, em Lisboa. A 6 de Outubro de 1973, anuncia na missa: “O senhor patriarca garantiu-me que eu não saía por razões políticas e eu tenho o dever de acreditar. Acredito até que a minha saída seja uma tentativa dos meus superiores de me livrarem de apuros”. Ainda assim, confessa-se “apanhado de surpresa pela demissão a que chamaram transferência”.
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O padre de Rio de Mouro pode ter sido assassinado depois de um “engate de ocasião”
É no início da década de 70 que Alberto Neto, fervoroso adepto do Sporting, é convidado pelo clube para dirigente do departamento juvenil de futebol, sendo promovido ao departamento sénior quando João Rocha se torna presidente do clube. No livro de Peter Stilwell, o histórico guarda-redes do Sporting Vítor Damas, amigo próximo do padre, refere que ele “era mais um entre os desportistas, ser ou não da igreja não tinha influência”.
Não raras vezes, terminado um desafio, o padre acorria ao acesso aos balneários para saudar os jogadores do seu clube. Dessa relação próxima com o futebol conservava a amizade com o massagista Mário Belo, mais tarde funcionário do Sporting Club Farense.
Na noite anterior ao assassinato, Alberto Neto terá sido visto na estação de comboios de Faro por um familiar do já então falecido massagista. Esse testemunho, recolhido pela PJ, e o facto de aquela estação de comboios ser um conhecido ponto de encontro de homens à procura de sexo colocou a hipótese de o padre ser homossexual e de uma discussão com motivos sexuais ter desencadeado o crime. A imprensa da época notou a hipótese, de forma quase velada.
Ilídio Neves fala num possível “engate de ocasião”, mas logo sublinha que “não há nada que permita afirmá-lo”. Adianta, porém, que os sinais evidentes de luta que havia em redor do cadáver, com a terra revolvida, o levaram “desde logo a pensar que se tratava de um roubo ou até que havia outro móbil, eventualmente de natureza sexual”. A hipótese do mero assalto que redunda em violência não colhe perante o relógio que o padre conservava no pulso esquerdo e os três mil escudos que tinha bolso no dia em que foi encontrado em Águas de Moura.
José Carvalho tem dúvidas. “Nunca o padre Alberto teve qualquer comportamento homossexual. Nunca insinuou o que quer que fosse, enquanto o conheci”, afirma.
Passados 27 anos, a hipótese continua em aberto. Parece certo que houve apenas um assassino – dois ou mais criminosos acabariam por se desentender e por se denunciarem, acredita Ilídio Neves, lamentando que a PJ de Setúbal nunca tenha conseguido deslindar o mistério. “A brigada era altamente eficiente, 90 e tal por cento dos casos eram resolvidos”, assegura.
A 26 de Outubro de 1987, o historiador e jornalista Fernando Piteira Santos escreve no Diário de Lisboa: “A projecção pública que o caso assumiu coloca a PJ numa situação delicada. Alberto Neto era uma figura prestigiada e respeitadíssima no mundo católico e cultural e dificilmente o curso das investigações deixará de ser lembrado. Não é possível deixar de dar uma satisfação à opinião pública. A cortina de silêncio é desprestigiante e é inaceitável”.
Bruno Horta

[artigo publicado pela primeira vez neste blogue a 8 de Março de 2015, com alterações de estilo e pontuação em 11 de Janeiro de 2017]

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