Chegou esta semana às lojas uma reedição de Nos Mares do Fim do Mundo, de Bernardo Santareno (1920-1980), com chancela da E-Primatur. O livro inclui textos e fotografias inéditos, o que acrescenta valor a uma obra que hoje se encontra em fragmentos de acesso livre na internet.

nos mares do fim do mundo

Dado à estampa pela Ática em 1959, Nos Mares do Fim do Mundo está esgotado há décadas, constituindo o único livro em prosa de Santareno. A nova edição, informa a E-Primatur, tem dois textos inéditos e mais de uma dezena de fotografias inéditas.

O prefácio é assinado por Álvaro Garrido, professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e director do Museu Marítimo de Ílhavo, instituição que participa nesta reedição e vai inaugurar a 2 de Abril a exposição Bernardo Santareno, um Médico na Frota Bacalhoeira.

Registou Santareno, sobre as circunstâncias da escrita:

“Foi, em grande parte, escrito a bordo do arrastão David Melgueiro, na primeira campanha de 1957, a primeira também em que eu servi na frota bacalhoeira portuguesa, como médico. Mas depois desta, tomei parte numa segunda, em 1958, agora a bordo do Senhora do Mar e do navio-hospital Gil Eannes, em que assisti sobretudo aos barcos de pesca à linha: Assim pude de facto conhecer, por vezes intimamente, todos os aspectos da vida dos pescadores bacalhoeiros portugueses, em mares da Terra Nova e da Gronelândia, e completar este livro.”

Nos Mares do Fim do Mundo é um conjunto de pequenas narrativas, provavelmente crónicas, através das quais se fica a conhecer um quotidiano marcado por medos, audácias e superstições.

bernardo santareno
Bernardo Santareno

Testemunho realista de uma epopeia portuguesa, no que teve de grandeza e miséria, a obra evidencia atenção ao detalhe erótico, talvez evocando Manuel Teixeira Gomes, o que permitirá dizer, em linguagem actual, que estamos perante temática queer.

Neste sentido aponta também uma passagem do prefácio de Álvaro Garrido:

“Embarcar juntamente com “os pescadores mais bravos do mundo”, como lhes chamara o repórter australiano Alan Villiers, na célebre Campanha do Argus – livro que Santareno leu e citou nas suas obras –, permitir-lhe-ia trabalhar e viver, suspenso do mundo, num universo esmagadoramente masculino, cheio de pulsões instintivas, muito próprias da vida a bordo durante longos meses, num ambiente quotidiano marcado pela violência do trabalho e inflamado pela rudeza dos homens.”

Conhecido como dramaturgo, um dos mais representados no século XX português, Bernardo Santareno (pseudónimo de António Martinho do Rosário) assinou em 1961 O Pecado de João Agonia, história pungente sobre a perseguição aos homossexuais no mundo rural português.

Nos Mares do Fim do Mundo está à venda no site da E-Primatur e nas lojas Almedina e Bertrand, e nos próximos dias chegará às lojas FNAC e El Corte Inglès, informa o editor Hugo Xavier.

Bruno Horta

 

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