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Chelsea Manning não é o que parece

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Retrato “How Chelsea Manning sees herself”, desenhado por Alicia Neal em colaboração com Chelsea Manning (segundo a Chelsea Manning Support Network,, 2014)

Quase todos os dias, ouvimos falar da militar americana que passou mais de 700 mil documentos secretos à Wikileaks.
Chelsea Manning está numa prisão de alta segurança.
E sabe o segredo para não cair no esquecimento


Nas redes sociais, na imprensa e através de porta-vozes. Eis a luta pela liberdade da militar americana responsável pela maior fuga de informação na história dos EUA. Condenada a 35 anos de prisão, ela agita-se para criar uma vaga de fundo que leve a justiça a alterar a pena.


O mundo descobriu-a há cinco anos. Era um homem: Bradley Manning, o tolhido, com porte de criança e olhar esgazeado, dentro de um fato militar maior que ele. Um desenquadrado, um traidor, um homossexual complexado. Agora, é uma mulher, heroína dos activistas pró-transparência, agitadora da América esquerdista, capaz de mover legiões de apoiantes a partir de uma cadeia de alta segurança no Kansas. Chama-se Chelsea Manning e tem apenas 27 anos.
Mal a condenaram a três décadas e meia de prisão, por ter vertido para a WikiLeaks centenas de milhares de documentos secretos, iniciou uma campanha de relações públicas em larga escala. Foi a 20 de Agosto de 2013. No dia seguinte, soube-se que ia mudar de nome e de sexo. Escreveu uma carta aberta e fê-la chegar ao principal programa da NBC News, o Today Show: “Chamo-me Chelsea Manning e sou uma mulher.”

[Chelsea Manning anuncia que vai mudar de sexo, no Today Show]

Decidiu tornar o assunto público só depois do julgamento por não querer perturbar o curso da justiça, justificou na NBC o então advogado de Chelsea Manning, David Coombs. “Foi uma decisão apenas dela”, acrescenta agora, em entrevista, Chase Strangio, representante legal de Manning para o tema da identidade de género.
Desde a sentença, até agora, deu apenas duas entrevistas: em Abril, à Cosmpolitan americana, e em Setembro, à Paper Mag (a revista alternativa que o grande público descobriu quando nela apareceu nua a modelo Kim Kardashian, enteada de Caitlyn Jenner, transgénero recém-assumida). Ambas as entrevistas foram dadas por escrito, já que os militares não autorizam a detida a falar pessoalmente ou por telefone com jornalistas. Acontece que só esta constante visibilidade lhe dá garantias de que o caso não será esquecido. É por isso que Manning mantém a chama acesa em todo o lado, a qualquer momento, em luta contra o apagamento.
O jornal The Guardian tem sido uma das plataformas principais dessa luta, tal como o perfil na rede social Twitter, alimentado quase todos os dias por uma empresa de relações públicas. “Precisamos de manter o caso na consciência colectiva para assim escrutinarmos o tratamento que lhe dão na cadeia”, admite Chase Strangio, também ele transgénero, activista da American Civil Liberties Union (UCLU), de Nova Iorque, uma das maiores associações americanas de direitos humanos. “Isto é também uma forma de defender as pessoas transgénero”, sustenta.
A estratégia é robusta, tem revelado eficácia. Chelsea Manning pode até parecer irresponsável, impulsiva, desenquadrada – tudo o que os detractores lhe têm apontado. Mas ela não é o que parece.
Em meados de Agosto, a advogada Nancy Hollander fez saber que Manning arriscava ser enviada para uma cela solitária, dentro do estabelecimento prisional militar do Fort Leavenworth, no Kansas, por alegado mau comportamento e posse de material proibido: pasta de dentes fora do prazo e literatura política. Gerou-se uma onda de solidariedade via Internet. A organização Figth for the Future lançou uma petição a pedir aos responsáveis pela cadeia que recuassem. Conseguiu 100 mil subscritores em poucos dias. A petição foi entregue no departamento militar do Congresso e o facto é que a sanção aplicada acabou por não ser a solitária, antes 21 dias de restrições no acesso ao ginásio, à biblioteca e ao recreio do estabelecimento prisional – restrições que entraram em vigor a 18 de Setembro e só terminaram esta semana. Logo Chase Strangio reagiu no Guardian: “Não tenho dúvidas de que o apoio demonstrado é que evitou que Chelsea fosse colocada em solitária.”
Em Julho último, outra campanha: angariação de fundos, presumivelmente destinados ao pagamento dos advogados que estão a preparar o recurso. A campanha prossegue. Foi criada pela ONG Freedom of the Press e pela First Look Media, empresa detida pelo milionário franco-iraniano Pierre Omidyar, fundador do site eBay.
A First Look Media é editora do site de notícias The Intercept, dirigido por Glenn Greenwald, jornalista-activista que recebeu um Prémio Pulitzer pelas notícias no Guardian baseadas no material roubado aos serviços secretos americanos pelo informador Edward Snowden, em 2013 (é costume dizer-se que Greenwald está para Snowden como Julian Assange, fundador da WikiLeaks, esteve para Manning, ambos megafones das suas fontes). A campanha angariou 125 mil dólares nas primeiras 48 horas. Até onde quer Chelsea Manning chegar?

A 21 de Maio de 2010 comete um erro clamoroso.  Começa a falar pela Internet com Adrian Lamo, pirata informático que vive na Califórnia e estivera detido anos antes por furar sistemas informáticos.


No fim dos anos 70, Brian Manning é analista de informações secretas na Marinha Americana e está em missão no país de Gales quando conhece Susan Fox, futura mulher. Apaixonam-se e vão viver para a cidade rural de Crescent, estado do Oklahoma, nos EUA. A 17 de Dezembro de 1987 nasce Bradley Edward Manning, que vem fazer companhia à irmã Casey, dez anos mais velha. A mãe tinha-se tornado dependente do álcool, tal como o pai, e acabam por ser divorciar em 2000.
O adolescente Manning, que crescera nos EUA, muda-se então para Gales com a mãe e a irmã. No liceu, consideram-no um rapaz complexado, mas “muito obstinado, muito politizado, muito esperto”, descreve um ex-colega numa reportagem do Guardian.
Aos 16, regressa aos EUA para viver com o pai, com promessa de emprego numa empresa de informática. É um crânio dos computadores e neles se refugia à falta de vigor para uma vida social. Não atura no posto de trabalho, tem um período de vida errante e sem estrutura, até que em 2007 entra para o Exército na esperança de fazer estudos superiores. Assume-se como homossexual na família e inicia um namoro.

 

Em Outubro de 2009, é enviado para o Iraque, onde as forças americanas estão estacionadas desde 2003 – numa intervenção justificada pela alegada existência de armas de destruição maciça em posse de Saddam Hussein, na sequência do 11 de Setembro de 2001 e da “Guerra ao Terrorismo” decretada pelo presidente americano George W. Bush.
Tem 22 anos, é primeiro cabo do Exército (private first class) e vai ter mesma a função que o pai tivera na Marinha: analista de informações secretas de nível básico. É colocado na base militar de Hammer, a 64 quilómetros de Bagdad. A 21 de Maio de 2010 comete um erro clamoroso.
Começa a falar pela Internet com Adrian Lamo, pirata informático que vive na Califórnia e estivera detido anos antes por furar os sistemas informáticos da Microsoft, do Yahoo e do New York Times. Lamo é bissexual e tem síndrome de Asperger, uma condição do espectro do autismo.
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Bradley Manning em 2012 (fotografia divulgada pelo advogado David Coombs)
Manning para Lamo: “Uma pessoa que conheço muito bem [está a falar dele mesmo] teve acesso a dados nas redes informáticas dos EUA, é importante divulgar esta informação.”
Está sozinho no meio do Iraque, passa as noites ao computador, a beber Coca-Cola, sente-se isolado e não tem com quem falar. Com o passar dos dias, as conversas ganham uma dimensão íntima. Diz a Lamo que, alguns meses atrás, passou à WikiLeaks 250 mil telegramas diplomáticos secretos e não sabe sequer o teor dos documentos, tal a quantidade. “Nem acredito que te estou a dizer isto”, escreve. “Quero que as pessoas conheçam a verdade, porque sem informação não conseguimos tomar decisões enquanto cidadãos.”
Acumula pormenores: durante uma licença, de regresso aos EUA, em Janeiro de 2010, tinha contactado o New York Times e o Washington Post para lhes entregar alguns dos documentos, mas os jornais não se mostraram interessados.
Lamo torna-se um súbito confidente. Protegido pelo anonimato online, o primeiro cabo confessa-lhe que na escola era gozado por ser efeminado, que sempre se sentiu homossexual e gosta de vestir roupas de mulher às escondidas.
Com acesso livre a servidores do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa dos EUA, usando CDs regraváveis em cuja face escrevia “Lady Gaga”, para não dar nas vistas, Manning descarregou 700 mil documentos secretos, entre os quais 250 mil telegramas diplomáticos com revelações de embaixadores; dossiers sobre detidos em Guantánamo; provas da existência de milhares de vítimas civis no Iraque e no Afeganistão; e ainda um vídeo de 2007 em que um helicóptero americano dispara propositadamente contra civis numa rua de Bagdad, matando 12 pessoas, duas delas jornalistas da Reuters. É a maior fuga de informação na história dos EUA.
A 26 de Maio de 2010, Manning é preso pelo Exército e enviado para uma cela no Kuwait. O traidor é Lamo, que o denuncia ao Exército e ao FBI e envia as conversas entre ambos para a revista Wired, onde trabalha como jornalista o ex-pirata informático Kevin Poulsen, amigo de Lamo. “Quebrei a confiança que ele depositou em mim, porque a atitude dele pôs em causa a segurança das pessoas [militares]”, justificou Lamo, em lágrimas, no documentário We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks (2013), de Alex Gibney. É o argumento, também hoje utilizado pelas autoridades americanas no caso Snowden: a publicação de documentos secretos dá armas aos inimigos e compromete a vida dos militares no terreno.

[documentário We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks na íntegra]
https://youtu.be/xLTtglztgik

Nesta altura, já o efeito Manning tinha atingido uma escala global. A WikiLeaks, plataforma fundada pelo pirata informático Julian Assange com o objectivo de tornar públicos documentos secretos remetidos por pessoas em todo o mundo, o que obrigaria os governos a fazer “reformas positivas” e a alterar políticas, assim dizia Assange, tinha divulgado o vídeo do helicóptero, em Abril de 2010. Em Julho, serão publicadas notícias no Guardian, no New York Times e na revista alemã Der Spiegel com base nos documentos da guerra no Afeganistão. A partir de Novembro daquele ano, juntar-se-ão os jornais El País e Le Monde na divulgação dos telegramas diplomáticos.
O miúdo de Crescent tornara-se o “soldado WikiLeaks”, o informador, ou denunciante (whistleblower, em inglês), que choca governantes e diplomatas e deixa incrédulos o Exército e o Pentágono.
Transferido para os EUA, o cabo Manning fica confinado a uma cela com pouco mais de dois metros quadrados, durante 11 meses, em Quantico, estado da Virgínia, onde o obrigam a estar nu durante a noite. Em Abril de 2011, é transferido para o Fort Leavenworth. No mês seguinte, o presidente americano diz em conferência de imprensa que as condições da detenção de Manning são adequadas e cumprem os padrões mínimos. A juíza militar que o irá condenar a 35 anos sentencia que o cabo sofreu maus tratos em Quantico e desconta-lhe aqueles meses no tempo da pena. Conclusão semelhante é apresentada em Março de 2012 pelo relator especial das Nações Unidas contra a tortura, Juan Méndez: em Quantico, Manning sofreu um tratamento “cruel, desumano e degradante que viola da Convenção Contra a Tortura”.
O julgamento de instrução do processo decorre no Fort Meade, uma base militar em Maryland, a partir de Novembro de 2012, e a cobertura jornalística é praticamente impedida pelas autoridades militares. Apenas um em cada cinco pedidos de acreditação de imprensa são aceites pelo Pentágono, de acordo com a Al Jazeera English.
A defesa, entregue ao advogado militar David Coombs, é paga através de um fundo de solidariedade que recebeu doações de 14 mil pessoas, incluindo Daniel Ellsberg, o informador no caso Pentagon Papers, relacionado com a Guerra do Vietname.
Manning admite ter sido fonte da WikiLeaks e assume a posse não autorizada de informação. Mas justifica-se. “Se o público tivesse acesso a estas informações poderíamos iniciar um debate sobre o papel das forças armadas e da nossa política externa, especialmente em relação ao Iraque e ao Afeganistão”, declara em tribunal. “Ao revelar informação classificada, fi-lo por amor ao meu país e com o sentido de serviço à comunidade”, reforçou no ano passado, num artigo de opinião publicado pelo New York Times.
“Na leitura da sentença, que dura apenas dois minutos, a juíza Denise R. Lind, coronel do Exército, condena-o por 21 crimes, incluindo sete de espionagem, dando-lhe a possibilidade de requerer liberdade condicional em 2020. É absolvido da acusação de auxílio ao inimigo, que lhe poderia ter valido prisão perpétua, e igualmente absolvido, por falta de provas, da acusação de que forneceu à WikiLeaks o vídeo do helicóptero de Bagdad. Perde a patente e passa a soldado. A mãe assiste às notícias em casa, no país de Gales, através da Sky News – sentada no sofá, geme agarrada a um lenço, como mostra a NBC.
O tema da transparência e dos direitos dos informadores foi o que levou a HCLU a interessar-se pelo caso de Chelsea Manning, logo em 2010. Actualmente, é a questão transgénero que está na agenda. A pasta foi entregue ao advogado Chase Strangio, que nunca visitou Manning na prisão, mas fala várias vezes com ela por telefone, pelo menos uma vez por semana. “A HCLU é uma instituição sem fins lucrativos, não cobramos pelos serviços que estamos a prestar”, afiança o advogado.
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As mais recentes fotografias de Chelsea Manning, divulgadas pela própria através do Twitter, datam de Fevereiro de 2015.
“Chelsea é uma pessoa forte e faz os possíveis para sobreviver dentro das condições que a prisão oferece, mas por vezes sente-se deprimida e ansiosa”, relata Chase Strangio. “A família tem-lhe dado apoio, apesar da relação complicada que têm”, precisa.
Desde Fevereiro, e depois de uma batalha jurídica, o Exército autorizou Manning a fazer tratamentos hormonais com vista à transição de género, mas não permite que ela deixe crescer o cabelo. “Continuam a querer regular a aparência dela a ponto de isso lhe prejudicar a saúde mental de forma grave”, acusa o advogado.
A HCLU faz lobby por Manning. Tal como o Guardian. A colaboração da detida com o diário britânico começou em Fevereiro último e teve direito a anúncio no Twitter por parte de Katharine Viner, chefe de redacção da edição norte-americana do jornal. Desde então, Manning escreve artigos de opinião sobre “guerra, género e liberdade de informação”.

[Katharine Viner anuncia no Twitter que Manning será colunista]

Se o New York Times foi acusado de falhar à informadora, com duras críticas da provedora do leitor, Margaret Sullivan, por falta de cobertura do julgamento de instrução, já o título britânico, que beneficiou igualmente dos documentos que Manning deu à WikiLeaks, nunca a deixou cair.
Até agora, assinou cinco textos:
  • um em Março (sobre actos de tortura da CIA);
  • dois em Maio (liberdade de informação e cinco anos desde a primeira detenção);
  • um em Junho (aprovação do casamento gay como lei federal nos EUA);
  • e outro em Julho (presença de transexuais nas forças armadas).
Escritos na primeira pessoa, os artigos revelam um pensamento estruturado sobre cada tema, mas sem nota de originalidade. Nas entrelinhas, dois temas permanentes: reivindicação de direitos para os transgénero e defesa de uma sociedade mais transparente e livre. A advogada Nancy Hollander garante que os textos são mesmo escritos por Manning.
No Twitter, a conta @xychelsea foi activada a 3 de Abril e tinha até há poucos dias quase 60 mil seguidores. O número está sempre a aumentar. Chelsea Manning não tem acesso à Internet dentro da prisão, mas dita por telefone as frases e comentários que deseja ver publicados. Quem faz a manutenção da conta é a Fitzgibbon Media, uma empresa de relações públicas e lobbying com sede em Washington, DC, e em cuja lista pública de clientes se inclui a WikiLeaks, o Guardian e o Intercept.
O presidente da Fitzgibbon Media, Trevor Fitzgibbon, foi director de comunicação da campanha eleitoral de Barack Obama em 2008. “Eles fazem um trabalho excelente no sentido de manter o caso vivo”, comenta Nancy Hollander.

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Até hoje, nos EUA, apenas dez pessoas foram acusadas de espionagem à luz da lei de 1917 conhecida como The Espionage Act. Sete dessas acusações tiveram lugar na era Obama.


Através das curtas mensagens na rede social, o mundo tem conhecido o quotidiano na prisão: Manning acorda às 4h30 da manhã durante a semana, trabalha na carpintaria da prisão, faz ginástica depois do jantar, gosta de ver séries na televisão, lê muito e tenta fazer cursos por correspondência. A 9 de Junho, assinalou os quatro meses desde o início do tratamento hormonal, dizendo “estar numa fase difícil em termos emocionais”. Nas últimas semanas, a conta tem sido utilizada para partilhar ligações, agradecer o apoio público e anunciar informações frescas, como a da ameaça de solitária. É como o Twitter de uma estrela pop: dá novidades a conta-gotas, sabe cruzar informações factuais com dados da vida privada e mantém o público preso à espera de emoções novas.
Numa mensagem publicada em Abril, Chelsea Manning fez saber que a Fitzgibbon Media a estava a ajudar “a custo zero”, mas isso “poderia mudar nos próximos meses”. O objectivo parece ser o de criar uma vaga de fundo que pressione a justiça quando o recurso for apresentado. Nesse particular, trabalha Nancy Hollander.
“Não sei como é que ela ouviu falar de mim”, esclarece a jurista, cujo escritório fica em Albuquerque, no Novo México, a 1300 quilómetros da prisão de Manning. “Penso que ela já tinha colocado a hipótese de me contratar logo no início do julgamento, mas na altura acabou por preferir um advogado militar e depois da sentença escreveu-me uma carta a pedir que a representasse.”
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Nancy Hollander, advogada de Manning (foto: CMSN)
Hollander é uma penalista da velha-guarda, em cujo currículo consta a defesa de dois detidos de Guantánamo. No caso Manning é coadjuvada por Vince Ward, antigo advogado da Marinha.
Além das dificuldades jurídicas do caso, também a logística é pesada, conta a advogada. Ir até à prisão no Kansas demora dois dias, com viagem de avião e de carro, mais uma noite de hotel. Além disso, várias partes do processo só podem ser consultados pessoalmente numa “localização secreta” no estado da Virgínia, a mais de três mil quilómetros do Novo México.
O recurso deverá basear-se na ausência de um julgamento justo e rápido e a audição de peritos que a defesa não reconheceu como credíveis. “Entre muitas outras razões”, atalha Hollander. O caminho será longo. “Primeiro, vamos escrever um documento jurídico com a nossa posição e enviá-lo ao tribunal militar de recurso. Talvez no fim deste ano. Depois, temos de esperar pela resposta, que pode demorar vários meses. Teremos ainda de responder com um outro documento. Só então terá lugar uma audiência em tribunal e a seguir é que o tribunal se pronuncia.”
Três desfechos são possíveis: o tribunal ordena a repetição do julgamento, reduz a pena ou comuta-a. “É impossível saber quanto tempo tudo isto demora”, desabafa a advogada. Mas é no recurso que Manning joga o tudo por tudo. O pedido de indulto para que o presidente Obama a deixe sair em liberdade tem, à partida, poucas hipóteses de vingar. Foi apresentado em Setembro de 2013 e por enquanto não obteve resposta.
De resto, o caso é apresentado pelos críticos de Obama como uma prova de que o presidente americano tem movido uma perseguição sem precedentes contra os informadores. Até hoje, nos EUA, apenas dez pessoas foram acusadas de espionagem à luz da lei de 1917 conhecida como The Espionage Act. Sete dessas acusações tiveram lugar na era Obama, recordava no Guardian o informador e ex-agente da CIA John Kiriakou, precisamente um dos sete acusados.
Obama ratificou há três anos o Whistleblower Protection Enchacement Act, nova versão de uma lei de 1989 segundo a qual os funcionários públicos não poderiam sofrer consequências se divulgassem casos de abusos de poder, má gestão ou corrupção na estrutura do estado. Na versão de Obama, tudo isso continua a ser permitido desde que as informações não estejam classificadas – e a administração americana tem vindo a classificar cada vez mais documentos. O secretismo é a obsessão de Obama, acusam os críticos.
Para já, Chelsea continua no Fort Leavenworth, um estabelecimento exclusivamente para homens construído no início do século XIX e actualmente com cerca de 700 militares detidos. Hollander acredita que “é necessário manter o caso vivo para conseguir apoio da opinião pública e recordar constantemente o sacrifício que ela fez em nome de todos”. A batalha do “soldado WikiLeaks” segue dentro de momentos.
Bruno Horta

Versão de um artigo que escrevi para o Expresso, originalmente publicado em 10 de Outubro de 2015.

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