A história do artista plástico finlandês Touko Laaksonen (1920-1991), que passou à história como Tom of Finland, tornando-se um dos nomes maiores da arte pornográfica gay, através de desenhos hipermasculinizados, é agora contada num filme do realizador Dome Karukoski.
Toda a biografia é uma versão de acontecimentos e “Tom of Finland”, o filme, não foge à regra, o que não significa que contenha mais ficção do que a estritamente necessária para a encenação no grande ecrã, defende o realizador nesta entrevista.
O filme estreou-se a 6 de Julho nas salas portuguesas, depois de uma primeira apresentação a 19 de Junho em Espinho, na abertura do FEST – Festival Novos Realizadores, Novo Cinema.
Dome Karukoski, de 40 anos, tem tido uma relação próxima com Portugal: naquele mesmo festival de Espinho ganhou o prémio de Melhor Longa-Metragem em 2009, com “The Home of Dark Butterflies”; também em 2009, no Festróia – Festival Internacional de Cinema de Setúbal, viu “Fruto Proibido” ser considerado o Melhor Filme; e nesse certame, em 2014, seria  multipremiado com “Coração de Leão”.

Porquê Tom of Finland como tema?
Não há só uma razão. Quando, em 2011, me sugeriram que fizesse o filme comecei a ler sobre ele e achei a história muito cinematográfica. É uma história sobre liberdade de expressão, o que me diz muito. É uma história sobre se podemos, ou se nos permitem, ser quem somos e construir a arte que queremos.

Ou seja, a relação com a personagem é abrangente, não ficou fascinado apenas com o lado gay de Tom of Finland.
Esse lado queer, isolado, não foi o que me fascinou. Claro, há aspectos queer nesta história, mas também, como comecei por dizer, não há só uma razão. Penso que aquilo que Tom of Finland fez, ao revolucionar a maneira como os homens vivem a sua sexualidade, também foi muito importante para a minha escolha. A razão principal, diria, foi sentir que ele lutou pela liberdade. O que nos deixou, enquanto criador, não aponta apenas num sentido: há a liberdade sexual, a liberdade para além da vergonha, há uma enorme alegria de viver. E há muitos trabalhos que ele fez apenas para se divertir, para gozo próprio. O que me fez sentir próximo dele foi a declaração política que a arte dele contém. No fundo, quisemos fazer um filme sobre a alegria de viver. Nos desenhos dele toda a gente se diverte, não há ali qualquer vergonha.

Disse que lhe sugeriram que fizesse o filme. Quer explicar?
Faço parte de uma produtora que se chama Helsinki-filmi, e um dos responsáveis, Aleksi Bardy, que acabou por ser co-autor do argumento, sugeriu-me.l o tema. É habitual trocarmos ideias sobre os filmes que queremos fazer.

O que é que sabia de Tom of Finland antes de começar a escrever o filme?
Conhecia a arte dele de uma forma superficial. Toda a gente na Finlândia sabe alguma coisa sobre ele. Na altura em que comecei, em 2011, digitei “Tom of Finland” no Google e devo ter obtido 50 milhões de entradas, ou algo parecido, mas quando digitei “Touko Laaksonen” apareceram apenas uns milhares. Hoje há mais, de certeza. Isto é, tal como muita gente, eu não conhecia a história de vida por detrás da arte que todos identificam. É curioso: a arte dele teve um efeito explosivo, mas a história dele é desconhecida.

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Dome Karukoski, de 40 anos, diz que o mais importante no filme é a mensagem de que não devemos envergonhar-nos de ser quem somos


O título, “Tom of Finland”, parece remeter mais para o artista do que para o homem.
O filme começa quando ele tem uns 20 anos e começou a desenhar com mais frequência, é o período da guerra e dos pós-guerra, da nossa guerra contra a Rússia, a União Soviética. A história vai até ao clímax da obra dele, nos anos 1980, quando o trabalho ganha efeitos revolucionários. Ao mesmo tempo, queríamos mostrar as mudanças sociais, um pouco da história da Europa do século XX, e de como isso também o mudou. Se tivéssemos dado ao filme o título “Touko Laaksonen”, ninguém saberia pronunciar. “Tom of Finland” resulta melhor. O filme mostra como ele se tornou Tom of Finland. Há dois lados. Quando entrevistámos os amigos dele nos EUA, referiam-se-lhe como Tom, mas os amigos da Finlândia diziam Touko. É como a história de Clark Kent, o Super-Homem. Na Finlândia, ele vestia fato, ia trabalhar para uma agência de publicidade e fazia desenhos de famílias a beber Coca-Cola. Depois, na América, vestiu o fato de super-homem e tornou-se Tom of Finland.

Fizeram muitas entrevistas de preparação?
Muita gente, sim. Falámos com amigos dele, com fãs, pessoas que o conheceram. Acho que fizemos uma pesquisa exaustiva, mesmo durante a rodagem continuámos a fazer entrevistas a amigos da irmã dele e pessoas que estavam fora dos círculos mais próximos. Ele morreu em 1991, nunca o conheci. Quando se está a pintar ou a desenhar uma pessoa é preciso tirar um traço daqui, outro dali. Para mim, o retrato de uma personagem compõe-se a partir de entrevistas. Também lemos as cartas que ele enviava. Como artista, o que me interessa é saber como é que alguém tira uma fotografia ou como posa para uma fotografia. Tudo isso muda de pessoa para pessoa. Ao longo dos cinco anos de preparação do filme fomos acrescentando traços, formando a nossa personagem. Para mim, o momento mais fantástico foi numa das primeiras apresentações na Finlândia, quando a família estava lá. Conhecemos a família dele, as irmãs, os filhos delas… E depois de verem o filme, choraram, disseram que o tio estava ali, conseguiam reconhecê-lo.

A opinião que a família e as pessoas que o conheceram têm hoje é muito diferente da que tinham quando Tom of Finland era vivo?
Penso que ele sempre foi muito admirado. É preciso ver que no período a seguir à guerra ninguém sabia que ele era homossexual, a única pessoa que sabia era a irmã com quem viveu durante quase 15 anos. Isto na fase adulta, claro, sem contar com a infância, durante a qual viveram em família. Na idade adulta partilhavam um apartamento. Na Finlândia, nos pós-guerra, não se sabia. Ele chegou a ter uma namorada na adolescência. No pós-guerra as pessoas estavam tão traumatizadas que não se sentiam muito próximas umas das outras, pelo menos na Finlândia. Tinham medo de reviver os traumas. Por isso, como ele tinha tido uma namorada, as pessoas pensavam que depois de regressar da guerra ele simplesmente não tinha encontrado a mulher certa ou preferia focar-se na carreira. Não se procurava pela homossexualidade. Hoje facilmente podemos pensar que um amigo nosso que não tem namorada pode ser gay, naquela época essa questão nem se punha. Além disso, ele mudou-se para Helsínquia, onde não tinha outros familiares além da irmã, só via o resto da família no Verão e no Natal. É curioso que em 1971, na agência de publicidade, ele foi eleito pelas mulheres como o homem mais bonito da equipa. Era um homem muito masculino, com voz grave, e naquela época pensava-se que um homossexual seria alguém feminino, com uma voz fina. Falei com um colega dele da agência que me disse que agora, sim, nos dias de hoje, teria percebido que Tom era homossexual, mas nunca naquela época.

[trailer de “Tom of Finland”]

Há muitos aspectos ficcionais no filme?
Não é um documentário, é uma longa-metragem biográfica, e como todo o biopic inclui aspectos de dramatização, mas a personagem é muito rigorosa. Há muitos momentos inesperados no filme e quem vê pode até imaginar que são ficcionais, mas não. Tudo aquilo aconteceu daquela maneira, ele teve mesmo uma vida inacreditável.

Quer dar um exemplo?
Não posso adiantar muito, corro o risco de falar demais para quem ainda não viu o filme. Mas no início da era da sida, quando ninguém queria publicar os desenhos dele, houve uma pessoa muito ligada à religião que aceitou publicá-lo e nós mostramos isso. Há pessoas a quem tudo acontece, são personagens enormes, todos os dias vivem uma aventura. De certa forma, a vida dele foi assim. Durante alguns anos, viveu como se fosse um espião, no sentido em que tinha de esconder os desenhos e arranjar maneira de os fazer sair da Finlândia às escondidas. Vidas secretas são muitas vezes vidas aventurosas.

Teve de pedir autorização à família ou à Fundação Tom of Finland para poder fazer o filme?
Tivemos de pagar direitos sobre os desenhos que mostramos, e quem gere isso é a Fundação Tom of Finland, em Los Angeles. De resto, sendo uma figura pública, não foi preciso autorização para se fazer um filme sobre a vida dele. Quisemos entrevistar as pessoas para sermos o mais honestos possível, para não termos uma versão pirata da vida dele.  Em teoria, poderíamos ter feito o filme sem mostrar os desenhos, mas o filme serve também o propósito de divulgar a arte dele. Vejo o filme da seguinte forma: mesmo quem não adore os desenhos dele estará interessado na história de vida.

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Desenho de Tom of Finland, 1972, lápis sobre papel (Fundação Tom of Finland)

 

Há quem critique a ausência de cenas de sexo explícitas. Fê-lo de propósito, para que o filme chegue ao grande público?
Talvez por os desenhos serem tão explícitos algumas pessoas esperavam ver sexo explícito. Acho que os fãs da obra de Tom of Finland não estavam à espera disso. Se o filme fosse sobre sexualidade, poderia conter sexo. Nós não quisemos um filme sobre sexualidade, mas sobre o artista. A vida dele nos anos 40, 50 e 60, na Finlândia, não era assim tão activa do ponto de vista do sexo. Claro que teve várias experiências… Mas acho que sexo explícito no filme poderia ter sido interpretado como uma provocação, por isso preferimos focar-nos na história de vida. A ideia de que quisemos chegar a um maior número de pessoas não sei se faz sentido. Há elementos no filme suficientes para impossibilitar a distribuição em 50 países. A simples exibição de nudez leva a essa impossibilidade.

Como explica que só recentemente a vida Tom of Finland tenha sido transformada em filme [houve uma tentativa de outro realizador, em 2015]?
Por um lado, acho que a história dele não era assim tão conhecida que levasse os autores a pensarem numa adaptação. Por outro, acho que os desenhos ainda assustam as pessoas. Não se vê para lá da superfície. Há quem prefira ver fantasias relacionadas com violência sexual, o que é muito limitado, na minha opinião. Ele desenhou pessoas que adoram sexo. O que ele diz nos desenhos é que qualquer fantasia faz sentido desde que quem participa esteja a tirar partido e não se sinta ofendido. É isso que faz de desenhos pornográficos uma forma de arte, há ali um ponto de vista.

A rodagem foi feita apenas nos EUA e na Finlândia?
Em cinco países, na verdade. Finlândia, Suécia, Alemanha, Espanha e Los Angeles, nos EUA. Para os padrões europeus é um filme com um bom orçamento, visitámos estes países todos e procurámos bem onde queríamos filmar.

Qual foi o orçamento?
Cinco milhões de dólares.

O filme teve estreia mundial em Janeiro no Festival de Cinema de Gotemburgo, onde foi premiado. Esteve em Abril no Festival de Cinema de Tribeca, em Nova Iorque. E já teve estreia comercial na Finlândia. Que reacções tem recebido?
A maior parte da críticas é positiva, tem corrido muito bem. Na Finlândia, para que um filme seja considerado um êxito comercial, deve ter pelo menos 100 mil espectadores e atingimos esse número em Junho. Estamos muito orgulhosos, porque é o primeiro filme com uma personagem gay a ter tamanha repercussão na Finlândia, mais até do que “Brokeback Mountain”.

Já disse que o filme celebra a alegria de viver, porque é essa a interpretação que faz dos desenhos de Tom of Finland. Diria que a personagem Tom of Finland que criou para este filme também surge com alegria de viver?
Ele era muito finlandês no comportamento, o que quer dizer, naquela época, que era um pouco reprimido. Ao mesmo tempo, nunca se envergonhou de ser quem era, esse elemento é extraordinário. Nós, seres humanos, somos muitas vezes assombrados pela vergonha da nossa sexualidade, dos nossos pensamentos, da nossa maneira de ser… Penso que Tom of Finland tornou a própria vida mais fácil porque aproveitou cada momento, tirou partido das suas circunstâncias. Espero que o público saia da sala a pensar isso mesmo, que é possível viver com alegria e estar no mundo de alma cheia.

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