A história de Valentim de Barros (1916-1986) é abordada num ensaio de António Fernando Cascais, recentemente publicado, que constitui uma primeira interpretação de fundo sobre o bailarino que viveu preso no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, em Lisboa, entre 1949 e 1986. Professor universitário e estudioso de minorias sexuais, António Fernando Cascais afirma que Valentim é um “embaraço inultrapassável” para o activismo português e deve ser estudado sem “paixão política militante”.

Recuperada nos últimos anos, a biografia do bailarino tem fascinado muitos portugueses, pelo que contém de perturbante e improvável. Valentim de Barros nasceu em Lisboa, filho da doméstica Ana da Encarnação Monteiro Figueiredo e do professor Joaquim José de Barros, cedo despertando para a dança. Teve aulas no Teatro Nacional D. Maria II, foi estrela fugaz em palcos de Barcelona, assistiu à ascensão do nazismo na Alemanha e integrou o corpo de baile do Teatro da Ópera de Estugarda. No regresso a Portugal, a vida diletante, o incerto fetiche pelo travestismo, a homossexualidade e os excessos da sua personalidade tornam-no incómodo e inaceitável para os cânones da época.

No texto “Onde eu não dance, a solidão fá-lo por mim: Valentim de Barros”, incluído no livro Hospital Miguel Bombarda 1968 – editado pela Documenta em Outubro do ano passado e organizado por António Fernando Cascais e Margarida Medeiros, com fotografias de época da autoria de José Fontes –, Cascais regressa à figura de Valentim.

Quanto se sabe hoje, através do processo clínico pessoal, o diagnóstico atribuído a Valentim de Barros pelos médicos, e motivo do internamento compulsivo, é o de  “psicopatia homossexual e pederastia passiva”. No entanto, em 1948, ele foi sujeito a tratamentos médicos para a psicose, nomeadamente uma leucotomia praticada por Egas Moniz. A leucotomia tinhas apenas “valor terapêutico em certas psicoses”, descreveu o comité que atribuiu a Egas Moniz o Prémio Nobel da Medicina de 1949. No processo clínico de Valentim nunca é referida a palavra “psicose”.

Cascais sublinha um dado pouco conhecido: Valentim foi tornado personagem secundária do romance Conhecimento do Inferno (1980), de António Lobo Antunes. O romancista fê-lo num tom “não isento de crueldade”, nota.

O organizador deixa duas outras novidades:

  • Valentim de Barros é referido no livro No Mundo do Delírio e da Alucinação (1955), de João Leal de Zêzere, pseudónimo literário de João Leal Pires dos Santos, nascido em 1919. Foi um jornalista “entusiasta do regime salazarista e homem de arreigadas convicções católicas”, escreve Cascais, tendo estado internado no Miguel Bombarda por 120 dias para curar os efeitos psiquiátricos de uma sífilis avançada, assim se cruzando com Valentim;
  • além de fotografado por José Fontes em 1968, Valentim de Barros foi igualmente retratado em 1974 e 1986, integrando essas imagens o espólio do Miguel Bombarda, cuja conservação e guarda não estão actualmente definidas.
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Capa de “Hospital Miguel Bombarda 1968”, ensaio organizado por António Fernando Cascais e Margarida Medeiros

Cascais coteja várias fontes e refere, entre outros, o artigo “Valentim de Barros, o bailarino a quem roubaram a vida” (que este blogue publicou em Março de 2015), considerando-o um “documento sumariamente informativo e detalhado”. Afirma, porém, que “continua a faltar uma abordagem de fundo que restitua quanto a vários títulos há de relevante” na biografia de Valentim.

Cascais ensaia essa primeira abordagem de fundo. Tenta criar um sentido e um enquadramento. Vê Valentim como cobaia da ciência médica e alvo da cultura anti-homossexual do século XX e do atraso mental do Estado Novo. Mas vai além. Apresenta-o como “embaraço inultrapassável” para o activismo LGBT português actual (que Cascais descreve como “LGBTQ”, acrescentando a palavra queer à sigla que inclui lésbicas, gays, bissexuais e transgénero).

Algumas passagens:

“A tradução da experiência de Valentim numa narrativa emancipatória nos termos que nos são familiares hoje teria sido completamente ininteligível para o próprio. Paralelamente, a restituição historiográfica dessa experiência convoca obrigatoriamente precauções de método e uma filigrana de exigências epistemológicas que são incompatíveis com os pruridos de correcção política que costumam sustentar os discursos emancipatórios, facto que afecta directamente a relação entre academia e activismo.”

“[E]ncontramo-nos perante alguém cuja história pessoal o coloca, de maneira que é óbvia do ponto de vista político emancipatório, na posição de vítima histórica – de uma história de opressão, exclusão e perseguição homofóbica. Em contrapartida, Valentim apresenta características profundamente indesejáveis daquele mesmo ponto de vista, quanto mais não seja porque, além do seu posicionamento pessoal, por mais afectivo e mitómano e menos verdadeiramente político que possa ter sido, de fascínio por um nazismo que para ele teve incomparavelmente mais de cenário do que de convicção, também é destituído de qualquer consciência crítica quanto à sua própria vitimização. […] Encontra-se desprovido da capacidade de converter essa consciência da vitimização […] num discurso político consequente. […] Tanto explica o embaraço inultrapassável que a sua figura representa para o movimento LGBTQ português contemporâneo.”

“Valentim é completamente refractário a que lhe ponham na boca uma acusação susceptível de autorizar a formulação de uma culpa, pelo que uma abordagem verdadeiramente crítica e reflexiva da história de Valentim só pode obedecer à irrenunciável exigência de vocação intelectual, decisivamente demarcada de todo o serviço à paixão política militante.”

O essencial de Hospital Miguel Bombarda 1968 baseia-se na reprodução de fotos tiradas por José Fontes em 1968 no Miguel Bombarda, também conhecido como Manicómio Bombarda ou Hospital de Rilhafoles (do nome do convento que ali tinha funcionado até 1834). As imagens não mostram apenas Valentim de Barros, mas tantos outros anónimos internados, e são classificadas na introdução do volume como um “património absolutamente precioso” e um “marco na história do documentalismo português”.

José Fontes, médico radiologista apaixonada por fotografia, fez internato naquele hospital em 1968 e foi incentivado pela terapeuta ocupacional Maria Etelvina de Brito, que ali trabalhava, a registar o quotidiano da instituição, lê-se. (Foi ele quem cedeu alguns retratos de Valentim de Barros para o artigo de 2015 deste blogue).

As imagens do livro são apenas uma selecção das centenas de fotos, mais de 500, feitas por Fontes em 1968. Nelas se percebe a “violência e entropia” que marcavam a vida dos pacientes, acrescenta a introdução. As fotos chegaram ao conhecimento de António Fernando Cascais e de Margarida Medeiros quando estes fizeram uma pesquisa académica, em 2009, no âmbito de um projecto designado História da Cultura Visual da Medicina em Portugal, de que o volume em causa é produto.

Não são, contudo, imagens inéditas. Deram origem à exposição “Neurose Institucional”, que terá sido exibida em fins da década de 60 no átrio dos hospital, e algumas têm surgido em livro: por exemplo, em Memórias dos Hospital Miguel Bombarda (2004), de Ana Catarino e Isabel Castro Tavares; e Miguel Bombarda – Preservar a Memória (2012), de Pedro Cintra.

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