O poeta que dizia nunca ter escrito um verso em casa, apenas nas ruas ou nos cafés de Lisboa, vai ver imortalizada a ligação que sempre manteve com a cidade. A data e o local já estão escolhidos. A 9 de Agosto será descerrada uma lápide no Largo da Oliveirinha, entre o miradouro de São Pedro de Alcântara e o Elevador da Glória, a dois passos da Avenida da Liberdade.

A novidade foi divulgada a 7 de Março no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, durante a apresentação à imprensa do programa cultural que assinala os dez anos da morte de Mário Cesariny.

O programa inicia-se com a exposição “Mário Cesariny – de Cor e Salteado”, no Centro de Congressos do CCB, e prolonga-se até Novembro, com concertos, leitura de poesia, debates e edição de livros, alguns com documentos inéditos. A iniciativa partiu de José Manuel dos Santos, programador cultural e amigo de Cesariny.

“Ele dizia que quando um dia morresse não queria uma rua com o seu nome, mas uma placa, com um verso seu, no Largo da Oliveirinha, de que ele gostava muito”, explicou José Manuel dos Santos. “Não se safou da rua, a rua já existe [na zona de Entre Campos], mas para além disso podemos acrescentar esta placa e cumprir o desejo dele.”

A vereadora da Cultura da Câmara de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, já se mostrou interessada na ideia, referiu José Manuel dos Santos – que exerceu funções de assessor cultural dos presidentes da República Mário Soares e Jorge Sampaio e actualmente trabalha na administração da Fundação EDP.

“O largo ainda precisa de umas obras, que estarão prontas até 9 de agosto, penso eu, e para esse dia vamos imaginar uma festa simpática, com poemas ou música. O que é fundamental é pormos lá uma placa com um poema ou um verso dele e a dizer que Mário Cesariny gostava muito daquele largo”, acrescentou.

Para antes e depois daquela data – que é a do aniversário do nascimento do poeta-pintor, em 1923 – muitas outras actividades estão pensadas. Desde logo a 25 de Março, Dia Mundial da Poesia. Das 14h00 às 19h00, no CCB, terá lugar a leitura de poesia por alunos da Casa Pia e a execução de peças de Ravel, Händel e Bach. Cesariny tinha forte empatia para com os alunos da Casa Pia e legou em testamento um milhão de euros a esta instituição que apoia crianças e jovens pobres.

No mesmo dia será exibido o documentário biográfico Autografia, de Miguel Gonçalves Mendes; a Orquestra Sinfónica Juvenil irá apresentar pela primeira vez uma composição do maestro Christopher Bochmann feita a partir de versos do poeta; e uma tertúlia sobre ele terá com convidados José Manuel dos Santos, a pintora Ilda David, o editor Manuel Rosa e o presidente do CCB, Elísio Summavielle.

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Uma das obras em exposição no CCB: “General De Gaulle…”, de 1947, colagem sobre papel (53 x 42cm) – Colecção Cupertino de Miranda

A 27 de Abril será inaugurada na livraria Sistema Solar, no Chiado, uma mostra de manuscritos e provas editoriais dos livros que Cesariny publicou pela Assírio & Alvim a partir de 1980. Em Outubro, a mesma editora vai dar à estampa o primeiro volume (ainda não se sabe quantos se seguirão) da edição crítica da obra de Cesariny, Poesia Reunida.

Pela editora Documenta, ainda em Outubro, sairá o volume de inéditos Cartas de Mário Cesariny para Frida e Laurens Vancrevel, poeta e pintor surrealista holandês. Segundo o editor Manuel Rosa, o livro mostra “a constante qualidade literária de Cesariny, fosse numa carta ou num simples postal” e revela “com muito pormenor a situação portuguesa literária e também política” de antes do 25 de Abril.

Livre e pessoal

Quanto à exposição “Mário Cesariny – de Cor e Salteado”, que abriu esta terça, dia 7, e pode ser vista até 16 de abril, reúne 30 dezenas de pinturas, esculturas, colagens e desenhos da autoria de Cesariny, pertencentes à Fundação Cupertino de Miranda, em Famalicão, que detém o espólio do artista.

Apesar de breve, a mostra tenta abarcar as principais técnicas usadas, ou criadas, por Cesariny: as “sismofiguras”, as “soprofiguras” e as composições “aquamoto”. “São termos aplicados pelo próprio para descrever técnicas muitos simples”, disse aos jornalistas António Gonçalves, director artístico da Fundação Cupertino de Miranda.

“A forma como ele usou estas técnicas dá-nos um registo muito precioso. As ‘sismofiguras’ eram feitas por Cesariny quando andava de eléctrico. À medida que o eléctrico andava, o lápis ou a caneta iam fazendo o desenho. As ‘soprofiguras’ eram obtidas pelo sopro na tinta-da-china. E o ‘aquamoto’ resulta também da utilização da tinta-da-china. A água já não a consegue diluir depois da secagem, mas, quando uma parte ainda não estava completamente seca, ele molhava o papel em água e expandia, diluía o desenho, criando figuras do acaso. Este acaso é relevante, porque Cesariny agarra-o, não espera apenas pelo acaso, faz desse acaso um momento poético”, explicou o mesmo responsável.

Mário Cesariny é um dos principais nomes do movimento Surrealista em Portugal e nas últimas décadas tornou-se uma figura pop, símbolo de criatividade e liberdade – em parte pela forma aberta como viveu a sua homossexualidade durante os anos da ditadura.

Mais reconhecido como poeta do que como artista plástico, “tem vindo a ser reavaliado” neste último campo, segundo José Manuel dos Santos. Sobretudo desde 2002, quando venceu o Grande Prémio EDP Artes Plásticas e teve direito a uma grande retrospectiva em 2004 no Museu da Cidade, em Lisboa.

“Passou a ser olhado de outra maneira. Era visto como um poeta que fazia umas coisas como artista plástico. Foi desvalorizado pelo cânone, achava-se que ele não desenhava como desenha o Pomar, por exemplo. Mas o Álvaro Lapa também não e não deixa de ser um grande artista, e nem isso é um indicativo na arte moderna e contemporânea”, defendeu o administrador da Fundação EDP.

“Em termos plásticos, o Cesariny tem uma voz muito livre e pessoal. Nos anos 1940, naquele país completamente fechado, ele que nunca tinha saído daqui estava a fazer coisas absolutamente extraordinárias”, resumiu.

Bruno Horta

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