Morreu “serenamente, durante o sono, devido a um ataque cardíaco”, relatava o Diário de Lisboa a 23 de Fevereiro de 1987 – um dia depois do óbito. Andy Warhol não resistiu a uma operação à vesícula biliar e apagou-se numa cama de hospital, em Nova Iorque, presumivelmente aos 58 anos.

Ainda o “Diário de Lisboa”, tentando condensar uma vida: “Homem magro com cabelo prateado e olhos quase sempre escondidos por grandes óculos de sol, era motivado por duas ambições dominantes: destruir a própria noção de arte e ganhar dinheiro.”

Criador em escala múltipla, nas artes plásticas, no cinema, nas revistas, dizia suspeitar que, em vez de viver a vida, estava a ver a própria vida num programa de televisão. Era introvertido e desajeitado, mas hoje apontam-no como precursor da era dos reality shows e das estrelas instantâneas do YouTube e do Instagram.

Evidentemente, só ele poderia ser dado como autor da frase “no futuro, qualquer pessoa terá 15 minutos de fama mundial”, que escreveu em 1968 na folha de sala de uma exposição em Estocolmo – ou talvez não.

No dia seguinte à morte, o New York Times destacava o “talento aguçado” do artista norte-americano para “atrair promoção, enunciar frases inesquecíveis e encontrar a imagem certa que chocasse mas perdurasse”. “O que o tornou um dos artistas mais influentes e estimulantes do seu tempo foi a capacidade de atrair e manter aceso o interesse do público.”

Mas será que esse interesse subsiste, mesmo quando, a avaliar pelo panorama português, a obra plástica e cinematográfica de Warhol tem sido tratada com timidez?

Marta Almeida, curadora do Museu de Serralves, no Porto, faz um rascunho: “Vai ser sempre uma referência na arte contemporânea, é um marco, um pilar da arte pop. A influência da obra dele estendeu-se a muitos outros criadores.” Pedro Lapa, historiador e director do Museu Berardo, em Lisboa, carrega nas cores: “É um dos melhores e dos maiores artistas do mundo.”

“Penso que o trabalho dele, sobretudo o que realizou logo em 1960, manifesta uma percepção muito sensível daquilo que é o estatuto do objecto artístico e de como o estatuto, a produção e o consumo convivem num quadro de profunda alteração cultural e económica no mundo ocidental”, analisa Pedro Lapa. “Essa percepção é absolutamente profética. Ele percebe que, em última instância, a questão da mercantilização do objecto artístico é um dado absoluto e total, que já não existe produção artística fora desse enquadramento.”

Três museus portugueses

Paradoxalmente, trinta anos depois, é difícil descobrir vestígios de Warhol nos museus portugueses de arte contemporânea. Ele não deixou de ser magnético e visto como génio, de estar cotado a preços astronómicos e de atrair a curiosidade. O problema não é o artista. “Os museus portugueses, durante muitos anos, não fizeram aquisições nem coleccionaram artistas internacionais, ao contrário do que foi acontecendo pelos museus europeus”, contextualiza Pedro Lapa. “Este desinteresse, esta ausência de política de aquisições, teve e continua a ter efeitos nefastos.”

Quanto se sabe, só Serralves e Berardo têm obras de Warhol no acervo. “Joseph Beuys in Memoriam”, uma serigrafia sobre papel, sem data, encontra-se no museu portuense. No da capital, constam 26 obras, muitas pertencentes à mesma série. As mais importantes, segundo o director, são três: “Ten Foot Flowers” (1967), “Judy Garland” (1979), “Campbell’s Soup” (1965) e “Brillo Box” (1964-68).

No Museu Gulbenkian, em Lisboa, a colecção moderna inclui uma fotografia de Warhol feita em 1975 por Pepe Diniz, um artista luso-americano. Intitula-se precisamente “Andy Warhol”.

Nenhuma destas obras está exposta, mas todas foram exibidas ao longo dos anos em apresentações temáticas de cada uma das colecções.

A serigrafia de Serralves, por exemplo – que, em rigor, pertence ao Estado português, mas está ali juridicamente depositada desde 1990, mesmo não estando fisicamente no Porto, mas sim no Ministério da Cultura – esteve patente pela primeira vez em 1991 na mostra “Há um Minuto do Mundo que Passa”, comissariada por Bernardo Pinto de Almeida.

“As obras dele que existem em Portugal, nos museus e em colecções particulares, são pequenas”, segundo Pedro Lapa. “Como ele fez uma produção em escala industrial, bastante diferente daquela a que o século XX, e algum XIX, nos habituou, há muitas obras pequenas, pertencentes a longas séries. Noutras épocas eram vendidas a preços relativamente apetecíveis e depois da morte dele começaram a ter outros valores.”

Nesse sentido, as oportunidades de ver Warhol em Portugal têm sido proporcionadas por colecções de fora, como foi o caso de “Andy Warhol: A Factory“, há 17 anos em Serralves, organizada pelo Guggenheim de Nova Iorque.

Da Checoslováquia à lata de sopa

Warhol nasceu a 6 de Agosto de 1928 em Pittsburgh, estado na Pensilvânia – outras versões apontam 1929 ou 1930. Terceiro e último filho de Andrej e Julia Warhola, imigrantes da ex-Checoslováquia, de etnia rutena, cresceu num ambiente relativamente favorecido. Estudou design no Carnegie Institute of Technology, na cidade natal, e terminou em 1949, ano em que foi viver para Nova Iorque e mudou o nome: Andrew Warhola passou a Andy Warhol.

Começou por trabalhar como ilustrador na revista Glamour, com êxito assinalável, ao mesmo tempo que desenhava janelas para a empresa Bonwit Teller. Os primeiros trabalhos artísticos mostrou-os no restaurante da moda Serendipity 3, no Upper East Side. No fim dos anos 50 começou a dedicar-se a sério à pintura.

Depois iniciou a série de 32 telas “Campbell’s Soup”, apropriando-se da imagem de um objecto quotidiano, uma lata de sopa, com o respectivo rótulo comercial. Mostrou-as pela primeira vez em 1962 na Ferus Gallery, em Los Angeles. Daí até fazer os primeiros retratos de celebridades foi um passo. Marilyn Monroe, Elvis Presley e Elizabeth Taylor foram alguns dos primeiros. A arte pop ganhava a voz mais sonora.

“A perseguição e apoteose do lugar-comum, levada a cabo por Warhol, foi um êxito instantâneo junto da crítica e dos coleccionadores, mas depois de levar a ideia ao extremo o artista parece ter-se cansado dos seus próprios quadros, começando então a recortar fotografias de jornais e a reproduzi-las em série, com pequenas variações ocasionais”, descrevia o Diário de Lisboa em 1987.

O jovem artista mexia-se bem no mundo do espectáculo, frequentava as discotecas da moda, entre elas o Studio 54, ainda que a princípio aparecesse rodeado de amigos, como que a proteger-se para não ser visto. Atraiam-no tanto o underground quanto o estrelato. De resto, o estúdio que manteve em Nova Iorque, a partir de 1962, e ao qual chamaria The Factory, sublinhando a ideia de produção em série, como numa fábrica, foi albergue de dandies e desalinhados – alguns dos quais seriam protagonistas dos seus filmes.

Cinema “a partir do nada”

Realizou dezenas e dezenas de películas, dando sequência simbólica à cinematografia que Renoir, Eisenstein ou Buñuel tinham inaugurado na Europa a partir dos anos 20, mas o diálogo directo era com os contemporâneos americanos Kenneth Anger e Jack Smith, pioneiros do cinema experimental homoerótico. Warhol, também homossexual, será o mais famoso de todos eles.

A estética camp, indissociável da linguagem gay e de uma atitude profundamente irónica perante a vida, é marca da obra cinematográfica de Warhol. Foi pioneiro no retratar de uma sexualidade liberal, distante de padrões rígidos de comportamento.

“I, a Man”, de 1967, um desses filmes, tem como protagonista Nico, a célebre cantora alemã Christa Päffgen, que nesse mesmo ano participou no disco de estreia dos Velvet Underground. Outra protagonista é Valerie Solanas, feminista radical que também em 1967 escreveu o panfleto anti-patriarcal SCUM Manifesto e no ano seguinte tentou matar Warhol, disparando contra ele na Factory.

É uma longa-metragem de 97 minutos em que um homem (Tom Baker) mantém sucessivos encontros sexuais com mulheres. Em Portugal, foi exibido na Cinemateca – Museu do Cinema pela primeira vez em 2015, durante o ciclo “Na Factory de Warhol”.

Para Paul Morrissey, e de olhos postos no corpo de Joe Dallessandro, Warhol produziu algumas das mais míticas obras de então, desde logo o tríptico “Flesh” (1968), “Trash” (1970) e “Heat” (1972).

À medida que os anos passam, o interesse pela obra cinematográfica de Warhol “tem tendência a crescer”, defende o crítico e programador da Cinemateca Luís Miguel Oliveira. “Vamos vendo as coisas com maior clareza”, diz, enunciando algumas das características principais da obra: “Filmar quase sem filtro, fazer filmes a partir do nada, do que está à frente da câmara, com um mínimo de encenação, com uma redução ao essencial, com ausência de convenções narrativas mesmo nos filmes mais narrativos.”

No dizer de Luís Miguel Oliveira, a linguagem dos filmes de Warhol é hoje emulada por cineastas como o português Pedro Costa, que o cita como referência, ou francês Philippe Garrel.

Sobretudo, sublinha, “há uma coisa que se nota muito bem na série dos screen tests”, ou seja, os vídeos de dois minutos e meio que filmou em meados de 60 na Factory e que eram projectados em câmara lenta. A saber: “Uma espécie de síntese entre a criação de uma aura, no sentido clássico e mais profundo do termo, e aquela coisa mais moderna da presença física, do filmar essa presença, os movimentos do rosto e do corpo como acontecimento principal do filme.”

Além da exibição de 2015, que consistiu em apenas quatro filmes, a Cinemateca projectou ao longo das décadas várias obras do artista, destacando-se um grande ciclo em 1990. “É um cineasta que valia a pena voltar a trabalhar com profundidade, não está excluída a hipótese de isso acontecer em breve, embora não tenhamos planos definidos”, diz Luís Miguel Oliveira.

“O acesso aos filmes tornou-se difícil, não em termos técnicos, mas de preço”, contrapõe o programador. “A Fundação Andy Warhol, que hoje faz a gestão o património dele, exige compensações muito altas em termos de direitos.”

“Mensageiro” Warhol

Patrono de artistas em ascensão, como Keith Haring ou Jean-Michel Basquiat, Warhol passou a década de 1980 como celebridade estabelecida, no remanso da máxima que um dia fixou: “Ser bom a negociar é a forma de arte mais fascinante que existe.”

Apercebeu-se, como ninguém, do “triunfo absoluto da cultura popular sobre a cultura erudita” e das “massas transformadas em autómatos de consumo”, nas palavras do director do Museu Berardo.

“Não é que as obras dele demonstrem isso de forma simplista, o que elas demonstram é a impossibilidade de um novo entendimento, demonstram que todo o imaginário se condicionou ao consumo. Essa situação profetizada por ele só veio a ganhar corpo e a expandir-se com o passar das décadas. Hoje há muitas perspectivas sobre Warhol, mas penso que será comum a todas elas o reconhecimento de que o seu trabalho teve continuidade nas práticas artísticas que se lhe seguiram. Nesse sentido, ele foi um mensageiro.”

Bruno Horta

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