Se disséssemos que “Moonlight” é sobre homossexualidade estaríamos a reduzir dois temas fundamentais do filme, o racismo e a exclusão social, e sobretudo a fazer de conta que existe uma identidade homossexual com características e preceitos identificáveis.

Acontece que o “homossexual” do filme não cabe numa tal categoria, que aliás não existe, mesmo que andemos a fingir que sim, para facilitar o discurso ou por acreditarmos que os outros vivem as suas identidades como nós vivemos a nossa.

Segunda longa-metragem de Barry Jenkins, chega às salas portuguesas a 2 de Fevereiro, com a boa estrela comercial de estar nomeado para os Óscares em oito categorias, incluindo as de Melhor Filme e Melhor Realizador.

Publicações britânicas e americanas valorizam a película como uma das raras narrativas LGBT sobre “pessoas de cor” (no inglês americano usa-se “people of colour” para falar de pretos e mestiços e ninguém se ri). Muitos negros americanos têm elogiado “Moonlight”, não porque o filme lhes devolva uma imagem propriamente brilhante, mas porque os retrata e recria sem dar lições, o que é um caminho de afirmação. Os homossexuais bem podem dizer o mesmo.

É a história pungente de um miúdo negro num bairro problemático de Miami, repetidamente agredido pelos colegas de escola, que o consideram efeminado. A mãe é toxicodependente (Naomie Harris), o pai está ausente e quem orienta o rapaz é um casal  que vive do tráfico de droga (Mahershala Ali e Janelle Monáe).

O argumento é do próprio realizador, mas o filme baseia-se no texto “Moonlight Black Boys Look Blue”, projecto académico do jovem estudante Tarell Alvin McCraney – que hoje é professor na Universidade de Miami e foi apanhado de surpresa pela êxito repentino da obra.

A narrativa é cronológica e está dividida em três partes bem identificadas que correspondem a fases da vida de Chiron, conhecido pelas alcunhas “Little” e “Black”. Vêmo-lo como criança vulnerável (Alex R. Hibbert), adolescente problemático (Ashton Sanders) e adulto desenquadrado (Trevante Rhodes). Em rigor, nada indica que se trate sempre da mesma personagem, ainda que a mãe seja personificada pela mesma actriz.

A sinopse portuguesa, veiculada pela distribuidora Nos, não refere a questão homossexual, optando por dizer que o filme é um “retrato vital da vida [sic] contemporânea” e uma “meditação intensamente pessoal sobre identidade”.

As alusões oblíquas são muitas vezes utilizadas pelas distribuidoras de cinema para evitarem a colagem à questão homossexual, porque se entende que isso diminui o interesse do grande público (não é homofobia, é economia). Mas calha bem.

Visto sob o insuficiente prisma da sexualidade, é dos poucos filmes recentes de temática queer que não fazem apologia de uma só forma de estar (será por o realizador se identificar como heterossexual?). “Moonlight” não diminui nem enaltece a incerta busca por uma orientação sexual. Deixa que os dilemas se apresentem, evita o discurso das certezas. E ainda bem. Faz falta deixar de prescrever.

Bruno Horta

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