Cerca de 40 mil pessoas viram a retrospectiva do artista plástico José Escada no Museu Calouste Gulbenkian, informou a instituição, o que a torna uma das mais bem-sucedidas exposições dos últimos anos no museu lisboeta.

Eu não evoluo, viajo”, com curadoria de Rita Fabiana, decorreu entre 8 de Julho e 31 de Outubro. Deu a conhecer 170 peças, algumas inéditas, de um artista que “desenvolveu uma obra singular, num vai e vem constante entre abstracção e figuração, e que atravessa a pintura, o desenho, as colagens e os relevos recortados, a ilustração e a realização de murais, pintados e esgrafitados”, referia a folha de sala.

Foi a primeira retrospectiva exaustiva de José Escada, cuja obra tem marcas políticas e íntimas da identidade homossexual. Em 2014, a Galeria de São Roque, em Lisboa, tinha-lhe dedicado uma mostra com quase 100 trabalhos.

Por comparação, em anos recentes, a mostra Sob o Signo de Amadeo. Um Século de Arte acolheu cerca de 70 mil pessoas em 2013 no Centro de Arte Moderna; e Os Czares e o Oriente recebeu 30 mil pessoas no Museu Gulbenkian (desde meados de 2016, o Museu Calouste Gulbenkian e o Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAM) têm a mesma designação: Museu Calouste Gulbenkian).

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“L’homme enchaîné ou As Nossas Amarras”, 1972 (guache sobre papel, 42,2 x 29,1 cm), Colecção Maria Nobre Franco

Filho de um cabeleireiro de Alcântara e de uma costureira dos armazéns Ramiro Leão, no Chiado, José Jorge da Silva Escada nasceu em Lisboa em 26 de Junho de 1934 e morreu na mesma cidade em 22 de Agosto de 1980.

Estudou artes decorativas na Escola António Arroio e seguiu o curso de pintura na Escola de Belas Artes de Lisboa, tendo terminado em 1958. Antes, em 1953, tivera a primeira exposição, uma colectiva na Sociedade Nacional de Belas Artes.

Junto ao mítico café Gelo, no Rossio, partilhou atelier com João Vieira, René Bertholo e Gonçalo Duarte. Foi ilustrador e crítico de arte em várias revistas e jornais.

Católico progressista, partiu para Paris em 1960 com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, envolvendo-se com os artistas plásticos do grupo KWY. As posições políticas que tomou contra a ditadura em Portugal, nomeadamente uma entrevista a uma rádio italiana, remeteram-no ao exílio. Manteve-se fora do país até 1971.

“Os anos de 1970 ficarão ligados à intensificação de uma pesquisa em torno da representação do corpo – acometido, oprimido e, por fim, libertado –, um corpo político que faz corpo com a história de um país que, em 1974, se liberta de um regime ditatorial”, refere a folha de sala da exposição na Gulbenkian.

Meses depois da morte de José Escada, foi organizada na Sociedade Nacional de Belas Artes  uma retrospectiva da sua obra. Em 1981, a RTP exibiu o documentário José Escada – Breve Testemunho duma Sensibilidade (de acesso livre, no site da estação pública, à data de Novembro de 2016).

Vivia num quarto em casa da mãe, na Rua da Aliança Operária, em Alcântara. “Tinha dificuldade em ter uma mão cheia de moedas que lhe desse uma certa dignidade na existência”, escreveu o escultor Lagoa Henriques em 1981 .

“Vivo num quartinho, tenho dois cães e estou a pintar um auto-retrato com os dois. Ora, estou muito aflito porque quase não tenho distância para ver o quadro. E aquilo que me vão pagar pelo quadro não me chega para dar de comer aos cães”, disse Escada numa entrevista à revista Arte-Opinião, citada por Lagoa Henriques.

A retrospectiva na Gulbenkian era composta por cinco núcleos: “Joie de Vivre”, “Iluminações”, “Metamorfoses”, “As Nossas Amarras” e “Da Minha Janela”.

O texto explicativo do núcleo “As Nossas Amarras” destacava o guache sobre papel “L’homme enchaîné ou As Nossas Amarras”, de 1972, que pode ser interpretado como uma representação da homossexualidade reprimida pelo sujeito ou pela sociedade.

Uma vitrine, no mesmo núcleo, mostrava colagens a partir de revistas pornográficas, e desenhos soltos homoeróticos, que Escada fez na década de 70, o que permitirá afirmar que a exposição apresentou, pela primeira vez, uma abordagem à identidade íntima do artista.

Bruno Horta

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