30 filmes de 15 países, exibidos ao longo de seis dias. Será assim a segunda edição do festival Queer Porto, de 4 a 9 de Outubro, com epicentro no Teatro Rivoli.

A secção competitiva do festival é composta por oito filmes, de entre os quais ganha destaque, pela novidade temática, o documentário Kiki, da realizadora sueca Sara Jordenö. Passa na quarta-feira, 5, às 17h00.

Trata-se de um documentário de 2016 descrito como a versão actualizada do mítico Paris is Burning – filme de 1990, de Jennie Livingston, que mostrava negros transgénero de Nova Iorque a praticarem voguing, estilo de dança em que Madonna se inspirou para criar o tema Vogue.

“Uma nova e muito diferente geração de jovens LGBTQ [lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e queer] formaram uma subcultura artística activista chamada kiki scene”, descreve a sinopse (documento em formato PDF). O filme “segue sete figuras desta comunidade ao longo de quatro anos, utilizando os seus ensaios e as suas performances espectaculares”.

Kiki é também um retrato das classes baixas nova-iorquinas numa época de afirmação política das pessoas transgénero e do movimento dos negros contra a violência policial nos EUA.

[trailer de Kiki, de Sara Jordenö]

Interessante poderá ser comparar Kiki com Paris is Burning, este mais artesanal na estética e na narrativa, com personagens desapossadas em busca não de uma afirmação política alargada mas de um reconhecimento pelos pares e pela comunidade mais próxima.

Em contraste, as personagens de Kiki, jovens negros também, exibem uma linguagem politizada e autodeterminada. Explicam que a estilo de dança “kiki” é “um lugar seguro para os jovens que não têm uma rede familiar de suporte” – os jovens transgénero e homossexuais –, o que diz bem de como, nos 25 anos que separam ambos os documentários, a linguagem activista e emancipatória, originária das elites culturais e sociais LGBT, se espalhou e cobre hoje minorias sexuais de muitos quadrantes.

A programação do Queer Porto passa também pelo ciclo “New Queer Cinema”, com seis filmes que recordam os primórdios daquilo a que hoje se chama cinema queer, movimento iniciado na década de 1980, nos EUA, com produções independentes baseadas na vida e cultura de minorias sexuais e de género.

As seis obras a exibir são:

Mala Noche (1986), de Gus van Sant (dia 5, às 19h00),
Go Fish (1994), de Rose Troche (6, às 17h00),
Swoon (1992), de Tom Kalin (7, às 19h00),
The Watermelon Woman (1996), de Cheryl Dunye (8, às 19h00),
The Living End (1992), de Gregg Araki (9, às 17h00),
Poison (1991), de Todd Haynes (9, às 22h00).

O ciclo “New Queer Cinema”, paralelo à competição oficial do Queer Porto, parece demonstrar que os organizadores do festival (a associação cultural Janela Indiscreta) estão ainda em busca de um público portuense alargado para este género cinematográfico, apresentando por isso obras históricas, e consensuais, que sirvam de cartão-de-visita.

Nascido em Lisboa há 20 anos, o festival estreou-se no Porto em 2014 com uma edição-piloto que incluiu uma retrospectiva dedicada ao realizador americano John Waters. A primeira edição oficial decorreu no ano passado, com um programa de quatro dias – desta vez maior, com seis dias.

A edição lisboeta teve lugar entre 16 e 24 de Setembro, no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa. O prémio de Melhor Longa-Metragem, no valor de mil euros, foi atribuído a Antes o Tempo Não Acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, que o júri considerou ter uma “estética cinematográfica muito interessante que combina documentário com ficção de uma forma pouco habitual”.

O prémio de Melhor Documentário, que consiste na compra dos direitos de exibição pela RTP2, foi para Irrawaddy Mon Amour, de Valeria Testagrossa, Nicola Grignani e Andrea Zambelli.

Bruno Horta

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