O pedido de demissão apresentado por Hélder Trindade “nada tem a ver” com a nova norma da Direcção-Geral da Saúde (DGS) que autoriza parcialmente a dádiva de sangue por homossexuais.

Em comunicado emitido nesta quinta-feira de manhã, o presidente demissionário do conselho directivo do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (ISPT) desmente a interpretação de que o afastamento teria ficado a dever-se a uma presumível discordância relativamente ao teor daquela norma.

“Nunca seria essa uma razão para decidir terminar a minha missão no IPST”, escreve Hélder Trindade, rejeitando “conexões abusivas e ofensivas” em relação ao que classifica como “acto do exclusivo foro pessoal”. Foram “razões pessoais e familiares”, explica.

A notícia do pedido de demissão começou a circular na tarde de quarta-feira e acabaria por ser confirmada pelo Ministério da Saúde ao início da noite. O comunicado agora emitido, divulgado pelos serviços do IPST, é o primeiro comentário público de Hélder Trindade sobre o assunto.

O ministro Adalberto Campos Fernandes já aceitou a demissão, segundo a assessora de imprensa do ministério Isabel Pereira Santos.

“O pedido de demissão apresentado ao senhor ministro da Saúde pelo presidente do IPST, muito embora só agora se tenha tornado público por motivos externos à sua vontade e ao funcionamento da instituição que dirige, ocorreu algum tempo antes da autorização da DGS para a dádiva de sangue por homossexuais masculinos”, sustenta Hélder Trindade.

Tutelado pelo Ministério da Saúde, o IPST é a autoridade nacional de colheita e processamento de sangue. A DGS controla a qualidade e a segurança do sangue.

Hélder Fernando Branco Trindade foi nomeado pelo Governo de coligação PSD/CDS em Novembro de 2011, sucedendo a Álvaro Beleza. Tem 62 anos, é licenciado em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, doutorou-se em imunologia em 1996 e é professor catedrático naquela faculdade desde 2009.

A sua continuidade à frente do cargo foi questionada devido aos critérios de triagem de dadores de sangue, à semelhança do que aconteceu com outros dirigentes do IPST ao longo dos anos.

Em Abril do ano passado, à saída de uma audição na comissão parlamentar de saúde, Hélder Trindade afirmou que admitia a dádiva de sangue por homo e bissexuais se estes se declarassem abstinentes, o que levou o Bloco de Esquerda a pedir a sua demissão.

A possibilidade de homo e bissexuais serem dadores de sangue, o que passa a verificar-se com a nova norma da DGS, não é uma medida que colha inteiramente a concordância do presidente demissionário do IPST.

Em Junho do ano passado, num debate na Ordem dos Médicos, em Lisboa, Hélder Trindade admitiu ter “medo de mexer” nos critérios de triagem então vigentes, porque isso iria “alterar os valores do risco residual”, ou seja, o risco de colheita de sangue infectado mesmo depois de todos os procedimentos e triagens. “Se mexermos, porque vamos mexer, vamos aumentar o risco residual”, afirmou na ocasião.

Através do comunicado desta quinta-feira, Hélder Trindade parece indicar a sua vontade de permanecer na estrutura do IPST. “Sou um médico que pertence ao mapa de pessoal da instituição”, afirma.

Bruno Horta

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