Parece que o conceito gay deixou de estar na moda, em termos estéticos e mediáticos, e já outra ideia veio para o substituir: fluidez. De géneros, de sexualidades, de identidades. O Teatro Praga está a par disso.

A nova criação deste colectivo de actores, formado há 11 anos em Lisboa, parte das Teorias Queer – segundo as quais as identidades são dinâmicas – e ultrapassa-as, na improvável amálgama que consiste em explicar quem foi Fernando Pessoa, qual a relação deste com Portugal e África do Sul, como se vê África da Europa, como o teatro é produto do seu contexto.

Zululuzu, assim se chama o espectáculo, estreou-se em Portugal a 15 de Setembro, no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa. As apresentações decorrem até ao dia 25. A peça segue depois para o Teatro Rivoli, no Porto, de 30 de Setembro e 1 de Outubro.

“Pessoa é conhecido como um escritor com muitos heterónimos e costumamos dizer que não se encontra nada da África do Sul na sua escrita”, explica um dos criadores e intérpretes do espectáculo, André e. Teodósio, de 41 anos.

O escritor nasceu em Lisboa e foi viver para a cidade de Durban em 1896, com oito anos, ali permanecendo até 1905.

“Mas a partir do momento em que as coisas são colocadas nestes termos é porque alguém tem ideia do que é um escritor, do que é a África do Sul ou como um país pode marcar um escritor”, acrescenta Teodósio.

“Ele tem um modernismo que o faz exacerbar a multiplicidade de opiniões, não é um escritor preocupado em definir um trajecto e uma identidade. É monárquico e antimonárquico, racista e não racista, homem e mulher, negro e branco, contemporâneo e antigo. Como diz o Richard Zenith [estudioso da obra de Pessoa], ele é muitas qualidades, mas sem homem”, argumenta o artista.

Com base nesta análise, Zululuzu (título que os criadores grafam em caixa alta) estica-se e põe em causa outros sistemas de pensamento.

“O espectáculo começou com a ideia da vida e obra do Pessoa na África do Sul, mas não é nem sobre isso, nem a confirmação disso”, esclarece Teodósio. “Utilizámos recursos de pensamento do Pessoa para falar de identidade, espaço, género, história e sobre o próprio teatro enquanto disciplina.”

A equipa do Teatro Praga esteve há dias em São Paulo, no Brasil, para apresentar Zululuzu no âmbito do Mirada 2016, Festival Ibero-Americano de Artes Cénicas de Santos. A estreia absoluta tinha sido em Maio, no Festival de Teatro de Istambul.

Prossegue o encenador e autor: “Recorremos a essa lógica múltipla de redefinição de espaço e de subjectividade, como num manifesto, para de alguma forma contrariarmos a narrativa linear que é comum nos espectáculos. Tocamos os Estudos Pós-Coloniais e a perspectiva ‘queerista’ e reflectimos sobre arte e estética, sobre os dispositivos tecnológicos da própria arte, desde logo a ‘caixa preta’, que historicamente é um sítio de emancipação de um só tipo de corpos, logo, tem uma gramática colonial.”

Nos 75 minutos de duração, a peça questiona sistematicamente a “caixa preta”, ou black box, o sítio onde se faz teatro, aqui encarado como símbolo da dramaturgia convencional, à maneira do ocidente.

No fim, um ovo gigante insuflado aparece no meio do palco, um ovo posto pelo “Bichinho do Teatro”, personagem-conceito que se desconstrói.

No mesmo sentido vai a intervenção furiosa, ou falsamente furiosa, de um intérprete: “Rua ‘amor à profissão’, ‘autenticidade’, ‘sótão da avó’. Rua ‘temas da humanidade’, ‘produto cultural’, ‘trabalho com a comunidade’. Rua ‘festivais’, rua ‘teatro infantil para adultos’, rua ‘bichinho do teatro’!”

“A questão não é ser contra qualquer coisa, mas sim tornar a ‘caixa preta’ discursiva”, analisa Teodósio. “Como África, que é uma caixa preta, como se tivesse de ser uma certa coisa. Ou o Pessoa, que é incompreendido, visto como aquele que era alcoólico, que escrevia sobre a sua não-sexualidade, como se não ter sexo não fosse uma sexualidade. Tudo isto são caixas pretas, são incidentes do pensamento”, conclui.

O texto parte de um monólogo que Teodósio criou há alguns anos para Diogo Bento. É assinado, tal como a encenação, pelos habituais três autores do grupo: Pedro Zegre Penim, José Maria Vieira Mendes e André e. Teodósio.

“Trabalhamos com pessoas, que não são substituíveis, escrevemos para elas, por isso a escolha das pessoas é prévia à escrita”, comenta este último.

Refere-se aos intérpretes e também, por exemplo, aos cenógrafos João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, e ao músico Xinobi (Bruno Cardoso).

Merece também menção a performer Jenny Larrue, conhecida pelos espectáculos de transformismo na noite gay de Lisboa, em especial na discoteca Finalmente. São vários os momentos em que esse registo playback é evocado, incluindo com um excerto de uma canção de Whitney Houston.

Jenny Larrue trabalhou com o Teatro Praga em 2014 na revista à portuguesa Tropa Fandanga, estreada no Teatro Nacional D. Maria II.

O novo espectáculo parece aprofundar Tropa Fandanga em alguns aspectos, como na utilização de um tipo de linguagem bairrista, reconhecível em muitos elementos da comunidade artística de Lisboa.

Exemplo disso é fala e a entoação da personagem Nympha Negra, o próprio Teodósio, quando adapta o verso “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, tornando-o “Deus queer, a bicha sonha, o show nasce”.

Mesmo o público que à partida não entende esta subtilezas da linguagem, tem reagido com agrado ao espectáculo, refere Teodósio. “A recepção na Turquia e no Brasil foi absolutamente inaudito”, classifica.

Bruno Horta

[versão de um artigo que escrevi para o jornal Observador, originalmente publicado em 14 de Setembro de 2016]

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