Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro estão a ser palco para afirmação de desportistas lésbicas, gays e bissexuais, o que é considerado inédito.

As Olimpíadas têm também sido utilizadas, pela imprensa ou por grupos de pressão, para evidenciar diferenças de tratamento entre homens e mulheres. Ao mesmo tempo, é no Rio 2016 que a despornografia se afirma como língua franca dos atletas masculinos.

O termo despornografia, ou sporno, designa a estética que hoje domina o espaço público, com homens de aspecto cuidado, corpos musculados, tatuados e com roupas reduzidas. Uma linguagem pornográfica e desportiva identificada pela primeira vez há 10 anos pelo ensaísta britânico Mark Simpson.

“O sporno é uma intensificação da metrossexualidade, como se tivéssemos passado de um filme erótico para um filme pornográfico gay”, explicava Mark Simpson numa entrevista em 2011. “É uma forma orgulhosa e ainda mais assertiva de se ser metrossexual”, acrescentava.

Simpson é também o criador do conceito metrosexual, em 1994.

Um artigo recente do Wall Street Journal, intitulado “U.S. Male Gymnasts Want to Be Objectified”, explica que a equipa masculina de ginástica artística dos EUA passou a usar a nudez como ferramenta de promoção e conquista de popularidade, face à enorme projecção das congéneres femininas.

No início do ano, numa visita ao Brasil para um treino de reconhecimento, os jovens atletas tiraram uma fotografia em pose despornográfica e publicaram-na na rede social Instagram.

#squad #meanmuggin

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Na era do culturismo de massas, das redes sociais para encontros sexuais e da pornografia omnipresente em qualquer dispositivo com ligação à internet, as imagens de homens ginastas em óbvia exibição erótica não são estranhas. São parte essencial do jogo.

A questão despornográfica surge quase sempre ligada às minorias sexuais, dado o potencial homoerótico daquelas imagens.

Com efeito, se durante os Jogos Olímpicos de Londres 2012 se apresetava a objectificação das mulheres atletas como sintoma de machismo e sexismo, a grande novidade do Rio 2016 aparenta ser a objectificação dos homens, mas em versão consentida, criada para consumo do público homo ou heterossexual.

A associação americana Human Rights Campaign (HRC) diz que são 41 os atletas assumidamente lésbicas, gays ou bissexuais (ante 23 em Londres 2012).

Atletas abertamente transgénero não existem, mas calcula-se que sejam dois.

Em vésperas da cerimónia de abertura, que decorreu a 5 de Agosto, a HRC publicou a lista dos 41 nomes, cinco dos quais são de desportistas do Brasil. Ficou a faltar Rafaela Silva, medalha de ouro no Judo, que se assumiu como lésbica a 10 de Agosto, numa entrevista à Globo.

Nenhum português consta da lista.

O número varia. Serão 49 no total, de acordo com uma notícia da CNN, ou talvez 43, segundo o site Outsports.com, que faz cobertura intensiva da actualidade desportiva LGBT.

A generalidade da imprensa tende a apresentar como elemento positivo a existência de relações conjugais entre os atletas LGBT, o que seria sinal de normalidade, logo, respeitabilidade.

Por outro lado, tem passado despercebido o facto de os desportistas assumidos (e a maioria fê-lo nos últimos dois ou três anos) já não serem apenas os praticantes de desportos individuais.

Ate há poucos anos, considerava-se  mais fácil um nadador ou praticante de atletismo, no activo e de alta competição, dizer em publico que era homossexual do que um futebolista ou praticante de râguebi. A pressão de adeptos e de colegas no balneário seria mais difícil em modalidades colectivas.

Tendo em conta a referida lista com 41 nomes, o paradigma estará a mudar.

No entender da Human Rights Campaign, a existência de atletas olímpicos que assumem a orientação sexual minoritária não faz esquecer que muitos continuam a ser discriminados e a não poderem assumir-se.

Sinais igualmente considerados positivos no Rio 2016 vieram da cerimónia de abertura, com a modelo transexual brasileira Lea T a liderar o desfile da comitiva do seu país.

Também celebrado por alguns sectores foi pedido de casamento entre Isadora Cerullo, jogadora brasileira de râguebi, e a namorada, Marjorie Eny.

Tema contíguo que tem gerado comentários é o da alegada desigualdade de género nestes Jogos Olímpicos, nomeadamente no que à cobertura mediática diz respeito.

A plataforma AJ+, que pertence ao grupo de média Al Jazeera, publicou um vídeo com uma interpretação sobre o que está mal sob o ponto de vista do tratamento jornalístico dado às mulheres atletas.

Em sentido idêntico vai um artigo de opinião no Guardian, segundo o qual para “evitar gafes” na hora de escrever sobre mulheres atletas os jornalistas devem “escrever sobre a modalidade” e “esquecer a maquilhagem, os calções curtos ou o estado civil”.

Bruno Horta

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