A editora Bertrand está a promover a nova versão de Mulherzinhas como um “grande clássico da literatura juvenil” em que “o amor e a coragem se revelam mais fortes do que todas as dificuldades”. É uma interpretação possível. O livro da norte-americana Louisa May Alcott, publicado em 1868 com o título Little Women, também pode ser visto como proposta de emancipação feminina, causa e consequência da vaga feminista do século XIX.

A história é a das irmãs March, quatro adolescentes da classe média que vivem com a mãe e uma criada. O pai é capelão e partiu para a Guerra Civil Americana. Há quem anteveja uma orientação lésbica em Jo, a personagem principal, maria-rapaz de 15 anos, mais que provável alter-ego da autora, inconformada com as normas sociais impostas às mulheres.

“Ombros arredondados, mãos e pés grandes, um modo de vestir desmazelado e a aparência incomodada de uma rapariga que se estava rapidamente a tornar numa mulher, o que lhe desagradava”, descreve a narradora. “Não posso ficar parada o dia inteiro e, como não sou um gato, não gosto de dormir à lareira. Adoro aventuras e vou ver se encontro alguma”, afirma Jo.

Leitura habitual de várias gerações de adolescentes, quase sempre encarado como literatura ligeira, foi reavaliado pelo mundo académico à luz dos Estudos Feministas, sobretudo a partir de 1970, escreve Celeste Simões na tese de doutoramento em Estudos de Tradução pela Universidade de Coimbra em 2013.

Mulherzinhas representa “uma nova forma de olhar as mulheres e as possibilidades que se abrem para as elas na segunda metade do século XIX” nos EUA, diz a escritora Ana Luísa Amaral, professora de literatura inglesa e americana na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

“É a época das esferas separadas: o feminino ocupa o espaço doméstico, a mulher usa espartilho e deve ser recatada, enquanto o masculino ocupa o espaço público e político. Mas começa aí uma nova ideologia que defende uma mulher mais livre, aquilo a que se vai chamar new woman. Nesse sentido, o livro é causa e consequência da mudança”, reflecte Ana Luísa Amaral, cuja tese de doutoramento foi sobre Emily Dickinson, escritora contemporânea de Louisa May Alcott, nascida no estado Massachusetts, onde Alcott também viveu.

“A personagem Jo quer ser escritora, desafia a ideologia que confina as mulheres ao lar e à educação dos filhos. A irmã Meg é o exemplo acabado da antiga mulher, a que tem como objectivo ser bela e casar. Neste sentido, Alcott é ambivalente, ou talvez mais reformista que revolucionária”, explica Ana Luísa Amaral.

“Apresenta uma mulher que desempenha determinadas funções do ponto da maternidade e do casamento, mas dá-lhe protagonismo. Noutro livro que escreveu mais tarde, Oito Primos, mostra que as mulheres não devem sujeitar-se a uma série preceitos, até do ponto de vista fisiológico, e estou a pensar nos espartilhos e outros ideais de beleza da época, podendo fazer amizade com rapazes, o que não era muito comum”, acrescenta.

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Capa da mais recente edição de “Mulherzinhas”, com desenho de Ana Monteiro (imagem: Bertrand)

Muito provavelmente, Louisa May Alcott tinha um programa. A escritora “não nega a sua condição de mulher, mas recusa a feminilidade tal como ela é definida pela sociedade em que vive”, regista Celeste Simões na tese. “Desde sempre defensora do direito das mulheres à sua independência, preocupava-se com questões como a educação e a saúde das mulheres, a igualdade salarial e de oportunidades, o direito de voto.”

Nascida em Germantown, estado da Pensilvânia, Louisa May Alcott (1832-1888) cresce em Boston e Concord, no Massachusetts. É filha de dois intelectuais, Bronson Alcott e Abby May, e cresce com três irmãs numa casa pobre. Leitora de Dante, Goethe, Dikens ou George Sand, começa muito cedo a escrever poesia e aos 22 anos publica o livro de contos Flower Fables.

Mulherzinhas sai em 1868 e o êxito inesperado leva a escritora a criar a sequela Boas Esposas (Good Wives), no ano seguinte. Os dois volumes costumam ser publicados em conjunto, mas esta versão da Bertrand é apenas a da obra de 1868.

A obra conheceu várias traduções e versões em Portugal ao longo do século XX, a primeira das quais em 1916 sob o título Quatro Raparigas, assinada por Maria Paula de Azevedo, pseudónimo de Joana de Távora Folque do Souto. Era uma forma muito adaptada do original, sem referência ao nome de Louisa May Alcott, afirma Celeste Simões.

A tradução mais conhecida é provavelmente a de 1943, assinada por Maria da Graça Moura Brás, republicada diversas vezes com adaptações, incluindo em 1995, com revisão de Cristina Lourença. O volume da Bertrand parte daquela versão de 1995, mas foi integralmente revisto por Gabriela Varino e Rita Duarte.

As revisoras confrontaram o texto de Maria da Graça Moura Brás com o original inglês de Louisa May Alcott editado pela Penguin Books. Alteraram a linguagem para a tornar mais actual, incluíram elementos suprimidos em 1943, mudaram os nomes portugueses das personagens para os nomes originais (Meg, Amy, Jo e Beth, por exemplo) e utilizaram o Acordo Ortográfico de 1990.

Gabriela Varino e Rita Duarte também consultaram a tese de doutoramento de Celeste Simões, na qual se explica as alterações que a cultura e a censura do Estado Novo impuseram às traduções portuguesas de Mulherzinhas.

No cinema foram feitas diversas adaptações, como a de George Cukor, em 1933, que lhe valeu nomeação para os Óscares como Melhor Realizador. O filme homónimo de 1994, de Gillian Armstrong, com Susan Sarandon, Winona Ryder, Kirsten Dunst e Samantha Mathis, será dos mais conhecidos.

[versão de um artigo que escrevi para o jornal Observador, originalmente publicado em 28 de Julho de 2016]

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