Porco morto, de cabeça para baixo. Homem na praia de chapéu, meias, sapatos e calções até ao umbigo. Cinco crianças sentadas à porta de uma casa com caraças de mostrengo. Mulher com o filho caído nos braços. Travesti de tronco nu com luvas brancas na mão. Manequins em montras, Pai Natal na rua, artistas de circo, velha de boca aberta em cama de hospital.

É a primeira vez que muitas destas imagens aparecem em público. E as poucas que o museu permite à imprensa reproduzir não são sequer uma justa amostra da exposição.

diane arbus: in the beginning abriu a 12 de Julho no novíssimo Met Breuer, em Nova Iorque, e inclui cerca de 100 fotos a preto e branco, em pequeno formato, tiradas entre 1956 e 1962. Dois terços são inéditas.

Considerada pela ArtNet.com a “exposição blockbuster” deste Verão, parece encaixar na abordagem que Arthur Lubow apresenta na biografia Diane Arbus – Portrait of a Photographer. É como se de repente todos tivessem pensado ao mesmo tempo numa nova forma de contar Arbus.

O trabalho da artista é agora reavaliado para além da mítica fotógrafa de pessoas excêntricas e exóticas, o que corresponde em grande medida, mas não só, à produção artística pós-1962. Esse aspecto está presente mas não é central nem na exposição nem na biografia.

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“Female impersonator holding long gloves, Hempstead, L.I. 1959”, Diane Arbus

Sem ordem cronológica ou temática, várias fotos mostram salas de cinema, o brilho dos projectores, o público e as telas. Pertencem à fase em que Diane se dirigia aos “multiplexes” de Nova Iorque para captar imagens estáticas das imagens em movimento (e em várias ocasiões para masturbar espectadores solitários, de acordo com o livro de Lubow).

A já célebre incapacidade de Arbus para controlar a luz com eficácia dá origem a imagens sobreexpostas, com rostos lívidos e ambientes fantasmagóricos. Nos retratos encenados, até os sujeitos imóveis – até os manequins das montras ou o cadáver aberto que Arbus fotografa em 1959 –, ganham uma aura dinâmica e de vapor, como entes do além.

Diane é descrita no catálogo como “uma das artistas mais provocadoras do século XX”. A solo, começou por procurar temas e pessoas nas zonas  movimentadas ou pobres da cidade em que nasceu e viveu: de Times Square ao Lower East Side, de Coney Island à Quinta Avenida.

Estes primeiros anos “põem em causa ideias-feitas sobre identidade, género, raça e aparência e sobre o que é artificial ou real”, escreve no catálogo  o curador da exposição, Jeff. L. Rosenheim, também responsável pelo departamento de fotografia do Met.

“Muito daquilo que ela queria fotografar não se encontrava à porta de casa, pedia tenacidade e uma pesquisa considerável”, acrescenta, considerando o método de trabalho semelhante ao de um antropólogo. “Em 1958 começou a escrever em blocos de notas coisas que tirava de livros, jornais, incluindo tablóides, da lista telefónica, de entrevistas na rádio, da sua imaginação e até de conversas com amigos e conhecidos”, formando listas de temas que lhe interessariam fotografar.

São os primeiros sete anos da carreira a solo de Diane Arbus, considerada a fase da fotógrafa artística, para diferenciar do período anterior, 46-56, em que se dedicou à fotografia de moda juntamente com o marido, Allan Arbus.

São os sete anos da génese, época em que Diane terá estabelecido o estilo e aperfeiçoado a técnica. “Houve uma evolução: dos retratos resultantes de encontros fortuitos para retratos em que os escolhidos se tornavam participantes activos e com a mesma intervenção da fotógrafa na imagem final”, lê-se na folha de sala. “É isto que distingue Arbus dos seus pares, de Walker Evans a Helen Levitt, de Garry Winogrand a Lee Friedlander. Eles acreditavam que só era válido o registo em que tivessem pouca ou nenhuma intervenção, por oposição a Arbus, que procurava as dificuldades do contacto pessoal e directo.”

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“The Backwards Man in his hotel room, N.Y.C. 1961”, Diane Arbus

Entre 1956 e 1962 as características fundamentais de Arbus já estavam consolidadas, consideram os curadores: enfoque, arrojo, intimismo e aparente simplicidade. Naqueles anos fotografou quase sempre em 35 milímetros, antes de comprar uma Rolleiflex de lente dupla que passará a fazer parte da sua imagem pessoal.

Se a célebre exposição póstuma de 1972 no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), incluía algumas fotos deste período, e o mesmo têm feito livros e exposições ao longo dos anos, elas “sempre foram apresentadas como fotos secundárias ou indícios do trabalho que se seguiu, em vez de serem valorizadas por si mesmas”, defende Jeff. L. Rosenheim.

Para o curador, este é o primeiro capítulo da história de Arbus e o Met Breuer está agora a reescrevê-la. “Pela primeira vez, podemos analisar as origens”, sublinha um comunicado de imprensa.

Note-se que esta divisão não é nova, surge logo em 72, com o curador da exposição no MoMA, John Szarkowski, a estabelecer 1963 como ano de viragem na obra de Arbus. Num depoimento então distribuído à imprensa Szarkowski tinha o dom de resumir a percepção sobre Arbus, em traços gerais a mesma que hoje temos: “Retratos fotográficos de anónimos que ela considerava de excepcional interesse, trabalho mais focado numa coerência psicológica que visual, com o privado a sobrepor-se às realidades sociais, o modelar e o mítico mais do que o actual e o efémero.”

As fotos agora expostas pertencem ao espólio que as filhas de Diane Arbus mantiveram em casa desde o suicídio da mãe, em 1971, e que doaram em 2007 ao Metropolitan Museum of Art, presumivelmente por inteiro.

Estudado desde então por uma equipa de curadores e conservadores, entre os quais merecem destaque Jeff. L. Rosenheim, Karan Rinaldo e Nora Kennedy, o espólio inclui ainda negativos, cartas, agendas e blocos de notas.

À data da morte, muito do trabalho de Arbus estava guardado em caixas num “recanto inacessível da cave” da sua casa, número 29 da Charles Street, em Greenwich Village, informa o catálogo, no qual também se lê que várias fotos impressas permaneceram incógnitas por muitos anos e só começaram a ser inventariadas a partir de 1981.

A exposição mantém-se até 27 de Novembro e está incluída do programa inaugural do Met Breuer, que abriu portas em Março no edifício do Whitney Museum of American Art. A 21 de Janeiro segue para o Museu de Arte Moderna de São Francisco.

Bruno Horta

[notícia originalmente publicada no suplemento Ípsilon, do jornal Público, em 22 de Julho de 2016]

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