O comunicado é curto, mas objectivo: “Na semana passada, Chelsea quis pôr termo à vida. A tentativa falhou.”

A equipa de advogados de Chelsea Manning confirma assim a versão que corre há vários dias, alegadamente fornecida por responsáveis da prisão em que a ex-militar americana se encontra desde Agosto de 2013. Manning, que se descreve como mulher transexual, cumpre pena de 35 anos por autoria da maior fuga de informação da história dos EUA.

Em comunicado divulgado na noite de segunda-feira, dia 11, Chase Strangio, Vincent Ward and Nancy Hollander afirmam ter “falado de manhã” com a cliente, presumivelmente por telefone, a qual lhes pediu que divulgassem um comunicado.

Chelsea “preferia manter privado o seu estado clínico” mas receia que o governo americano faça circular informações erradas, argumentam os advogados.

“Ouvir a voz de Chelsea foi uma emoção incrível”, escrevem os juristas. “Ela quer que saibam que continua sob rigorosa observação dos serviços prisionais e prevê manter-se assim nas próximas semanas”, acrescentam.

O comunicado na íntegra, em inglês:

“Last week, Chelsea made a decision to end her life. Her attempt to take her own life was unsuccessful.

She knows that people have questions about how she is doing and she wants everyone to know that she remains under close observation by the prison and expects to remain on this status for the next several weeks.

For us, hearing Chelsea’s voice after learning that she had attempted to take her life last week was incredibly emotional.

She is someone who has fought so hard for so many issues we care about and we are honored to fight for her freedom and medical care.”

No início de Julho, a equipa de advogados terá tentado contactar Chelsea Manning na prisão, sem êxito, tendo emitido um comunicado a 6 de Julho como forma de alertar sobre o paradeiro incerto da detida.

Nesse dia, alguns órgãos de comunicação social norte-americanos, um dos quais a CNN, garantiam que a ex-militar tinha tentado suicidar-se, informação cuja divulgação os advogados de Manning reputaram “humilhante”, por ser do foro íntimo.

Chelsea Manning, de 28 anos, cumpre pena no estabelecimento prisional militar de Fort Leavenworth, no Kansas, EUA. Foi condenada a 20 de Agosto de 2013 e no dia seguinte anunciou através de um advogado, no principal programa da NBC News, o Today Show, que é transexual. A partir daquele momento deixou de se chamar Bradley Manning.

Chelsea Manning entrou para o exército norte-americano em 2007 com o objectivo de completar os estudos. Identificava-se, à época, como homem homossexual.

Em Outubro de 2009, foi enviada para o Iraque, onde as forças americanas estavam estacionadas desde 2003, estabelecendo-se na base militar de Hammer, a 64 quilómetros de Bagdad, com a patente de primeiro cabo (private first class) e funções de analista de informações secretas de nível básico.

Com acesso livre a servidores do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa dos EUA, Manning descarregou 700 mil documentos secretos, entre os quais 250 mil telegramas diplomáticos com revelações de embaixadores; dossiers sobre detidos em Guantánamo; provas da existência de milhares de vítimas civis no Iraque e no Afeganistão; e ainda um vídeo de 2007 em que um helicóptero americano dispara propositadamente contra civis numa rua de Bagdad, matando 12 pessoas, duas delas jornalistas da Reuters.

Autora daquela que é considerada a maior fuga de informação na história dos EUA, Chelsea Manning tornou-se símbolo do poder dos informadores (whistleblowers) e ícone da resistência ao presumível exercício despótico do poder em estados democráticos.

Ao mesmo tempo, emergiu como activista por direitos das pessoas transexuais e transgénero.

Em Maio último, a advogada Nancy Hollander apresentou recurso da pena de 35 anos, argumentando, entre outros aspectos, que Chelsea não teve um julgamento justo e rápido.

Bruno Horta

 

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