Continua por traduzir em Portugal, mas não por exibir. O primeiro filme do escritor e realizador marroquino Abdellah Taïa foi projectado em 2014 no festival Queer Lisboa e já em 2016 numa mostra de cinema no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

Trata-se de L’Armée du Salut (2013), história autobiográfica de um miúdo marroquino rejeitado pela família e pela sociedade, à procura de uma vida nova em França, para tanto recorrendo à mentira e à prostituição.

Os oito livros que até agora assinou como autor principal não estão vertidos para português, mas o nome de Abdellah Taïa começa a ganhar importância em Portugal. Exemplo disso é a entrevista que o autor concedeu à jornalista Isabel Lucas, publicada a 8 de Julho no suplemento Ípsilon do jornal Público.

Intelectual engajado e revoltado, crítico do islão mas também do estilo de vida ocidental, Taïa, com o massacre gay de Orlando em mente, declarou ao Ípsilon que a homossexualidade está a ser instrumentalizada pelos poderes e pelas religiões, quaisquer que sejam:

“É verdade que a religião continua a ser muito importante no mundo árabe e muçulmano porque é usada politicamente pelos dirigentes desses países. Se o islão é contra a homossexualidade, o cristianismo e o judaísmo também são. Mas é muito mais do que isso. Hoje na América há padres evangelistas e políticos republicanos a dizer coisas odiosas contra os homossexuais. Não estou a defender o islão. Estou a tentar pensar com alguma clareza. Não é por causa do islão enquanto religião. O islão é como outra religião. É por causa de quem usa a religião para permanecer no poder e dominar o outro. Não devemos esquecer do que não está assim tão distante – no início do século XX a homossexualidade era considerada uma doença no Ocidente. E também não estou aqui a proteger o mundo islâmico. O mundo islâmico tem de ter fazer autocrítica e de mudar. O que está a acontecer agora aos homossexuais é uma espécie de armadilha.”

Taïa tem 42 anos e assumiu publicamente a sua orientação sexual em 2007, numa entrevista à revista marroquina Tel Quel. O tema da homossexualidade, aparentemente central na identidade do autor, aparece com frequência em entrevistas e artigos de opinião.

“Não gosto da tranquilidade. O poeta português Fernando Pessoa é o meu poeta preferido”, escreveu em Setembro de 2009 num famoso artigo, “L’homosexualité expliquée à ma mère”, dado à estampa pela Tel Quel.

No ano passado, interveio no Oslo Freedom Forum, uma conferência anual sobre direitos humanos. Falou dos abusos sexuais de que foi vítima em Marrocos, de como se sentiu aprisionado na tentativa de esconder a sua identidade e da importância do cinema egípcio que via em criança no despertar da sua consciência política.

De origem pobre, Taïa nasceu em Salé, Marrocos, e exilou-se em Paris em 1999. É um dos poucos intelectuais marroquinos a assumirem-se homossexuais. Rachid O., escritor marroquino também exilado em França, é outro exemplo.

Bruno Horta

 

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