“A sua escrita fala de realidades mundanas e desperta a consciência do público para o que se passa nas relações humanas”, resumia a folha de sala de um espectáculo de Falk Richter que o Teatro da Comuna estreou em 2014.

Nascido em Hamburgo em 1969, activo desde o fim da década de 90, Falk Richter tem sido descrito como um criador preocupado com o lugar dos seres humanos no mundo actual, como no espectáculo Città del Vaticano, que será apresentado na sexta e no sábado, dias 7 e 9 de Julho, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, como parte da programação do 33º Festival de Almada.


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A peça é uma auto-crítica à ideologia do Ocidente, com especial atenção aos acontecimentos recentes na Europa. Os intérpretes debitam frases desconexas que aos poucos formam um sentido.

Refere a sinopse:

“Falk Richter traz ao Festival de Almada a sua última criação, estreada em Maio no Festival de Viena: Città del Vaticano, com a participação de oito jovens actores e performers. Lançando um olhar sobre “o Estado mais pequeno do Mundo, protegido por uns muros enormes, onde a esmagadora maioria dos habitantes são homens e abunda a corrupção”, Richter, a partir de várias sessões de formação na Bienal de Veneza, procurava medir até que ponto a religião é preponderante na formação da identidade europeia. E por “identidade europeia” entende não um conceito abstracto a que se dedique a sociologia contemporânea, mas as vidas de cada um de nós.”

[fotografias do espectáculo abaixo]

Personagens indefinidas rejeitam a extrema-direita e a linguagem sensacionalista dos média, rejeitam as causas e campanhas constantes que dominam a opinião pública,  o pensamento mediano das classes médias, o racismo, o medo dos refugiados, o Vaticano, a religião, a pedofilia. Outras personagens são a voz mediana, a voz racista, anti-gay, ultra-conservadora.

Excerto:

Sou a alta-costura, sou a arte, sou Beethoven, Debussy, Wagner. Sou Shakespeare, Molière, Sartre, sou o Louvre, o Festival de Avignon. Sou Património Mundial. Sou Versace, Armani, Chanel, Dior, Pasolini, Antonioni, Godard, Chabrol. Sou o Ritz-Carlton, Rolls Royce, Rolex e Montblanc, sou um jacto privado que leva o George Clooney a Cannes, a Veneza, quero levar o George Clooney onde ele quiser e passar o fim-de-semana com ele num bom Relais & Châteaux na Côte d’Azur.
[…] Sou tudo o que vós desejais e faço tudo para manter a minha riqueza. Borrifo-me para o clima. Emprego crianças na China e no Bangladesh. Vendo armas a milícias africanas e ditadores árabes. Sou o Anders Breivik que dispara sobre adolescentes na Noruega.
[…] Estou em total confusão. Tenho medo. Não sei quem sou. Não tenho identidade. Há muito medo. O Vaticano é o estado mais pequeno do mundo. Não chega a 500 m². Tem menos de 800 habitantes. Sobretudo homens. Não há crianças. Ninguém nasceu no Vaticano. Uma das instituições mais antigas, que sobreviveu a todas as guerras e crises. Têm guardas, a Guarda Suíça, mas eles não assustam ninguém. Na verdade, até são giros. Como bonecos Playmobil. Como brinquedos.

Città del Vaticano é o típico texto burguês, dir-se-ia, à falta de melhor qualificação. Como muitos no teatro europeu actual, é um texto de denúncia, acutilante mas impressionista, pronto a resvalar para a raiva inconsequente.

Pelo menos dois espectáculos de Richter foram até hoje apresentados em Portugal: Nothing Hurts, em 2006, com encenação de Nuno M. Cardoso no Teatro Taborda, em Lisboa; e Play Loud, em 2014, versão de Álvaro Correia no Teatro da Comuna, em Lisboa.

Bruno Horta

 

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