Persistente e teimoso, com um objectivo de vida muito claro. É assim que que o actor Sérgio Praia vê António Variações e foi com base nestas características que compôs a personagem. “Quando uma pessoa tem um objectivo muito claro na vida deve abandonar rapidamente a mãe e o pai, toda essa gente que nos protege, hão-de proteger-nos de outras formas”, explica Sérgio Praia. “A nível artístico temos de fazer o nosso caminho. O António tinha esse foco, acreditou muito na sua figura e naquilo que queria fazer, não naquilo que queriam fazer dele.”

A visão coincide com a de Vicente Alves do Ó, que escreveu o texto e encenou a peça. “Eu, o Sérgio e o António somos uma espécie de trindade, três variações da mesma história”, sustenta.

“Viemos os três da província para Lisboa e temos um contexto familiar intenso. De alguma forma, aquilo que sonhámos ser foi uma forma de fugir àquilo que a gente vivia. Estávamos obcecados com a ideia de vir para Lisboa e ser aquilo que sonhávamos ser.”

Assim nasceu o monólogo Variações, de António, que o Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, apresenta entre 24 de Junho e 10 de Julho. É mais uma das criações artísticas que nos últimos anos têm mantido viva a memória do cantor que nasceu em 1944 e morreu em 1984. A peça surge como sequência lógica da tentativa frustrada de se fazer um filme sobre António Variações, projecto que o realizador e argumentista João Maia persegue desde 2003, no qual Sérgio Praia seria protagonista.

O filme deveria ter começado a rodagem em 2009, mas conheceu disputas em tribunal sobre os direitos de autor do guião e até hoje não conseguiu ganhar um subsídio à produção do Instituto do Cinema e do Audiovisual. “O filme é outra coisa, mas na impossibilidade de ser feito senti que tinha de terminar este tema e fechar este personagem, que estava só na cabeça, queria experimentá-lo em palco”, conta Sérgio Praia.

Contactou Vicente Alves do Ó para que este fosse autor do texto (é também realizador do filme biográfico Florbela, de 2012, sobre Florbela Espanca, e a partir de Outubro inicia a rodagem de um filme sobre o poeta Al Berto). O actor queria trabalhar com “alguém humilde que tenha no coração a simplicidade do António”.

Com duração de cerca de 70 minutos, a peça contém elementos biográficos recriados, fazendo uma “interpretação emocional e artística”, no dizer do encenador. “É aproximação a uma verdade, não faço um relato cronológico, porque os dados da vida de uma pessoa não nos contam nada, são apenas dados, dentro da cabeça e do coração é que se passa muita coisa”, reflecte.

É composta por duas partes. Primeiro cenário: a Aula Magna, em Lisboa, na noite em que Variações está muito ansioso por ir fazer a primeira parte de um concerto de Amália Rodrigues, o que de facto aconteceu em 1983 e constituiu “o pico da carreira dele”, intui Vicente Alves do Ó. Segundo cenário: a vida interior do cantor, os seus pensamentos e as memórias de infância e juventude.

Sem músicas gravadas, com o actor à capela em vários temas, o espectáculo retrata um homem solitário, com poucos amigos, inseguro como artista, mas cheio de determinação. É essa a imagem que fica do breve ensaio de imprensa que decorreu esta semana. “Rala-me pouco o que dizem de mim. Deve ser por isso que tenho poucos amigos: a Rosa Maria, a Teresa, o meu Ataíde”, diz a personagem. “O resto são fantasmas que habitam os bares, as noites, gente que anda por aí perdida, nasceram na cidade e não sabem nada, nem onde fica o Norte e o Sul.”

A opção pelo monólogo não foi uma contingência orçamental ou técnica, mas uma opção deliberada de Sérgio Praia.

“Queria muito perceber esta coisa da solidão, senti que precisava de estar sozinho no palco e gostava de escavar este lado, saber como é ele sozinho em casa, como se deita, como faz abdominais, coisas básicas que são um mundo inteiro.”

António Variações, nome artístico de António Joaquim Rodrigues Ribeiro, nasceu em Fiscal, concelho de Amares, distrito de Braga. Teve uma carreira breve a que corresponderam dois álbuns: Anjo da Guarda, de 1983, com temas célebres como “O Corpo é Que Paga”, “É P’ra Amanhã” ou “Estou Além”; e Dar & Receber, no ano seguinte, do qual se destaca “Canção de Engate”.

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António Variações teve uma carreira meteórica de dois anos e dois álbuns, entre 1982 e 1984 (foto: Rui Renato/Valentim de Carvalho)

Apesar da carreira meteórica, é hoje ser considerado a primeira estrela pop portuguesa. Influenciou outros artistas, que fizeram inúmeras versões dos seus temas, caso dos Delfins (“Canção de Engate”, 1987) e Lena d’Água (“Estou Além”, 1987; “Já Não Sou Quem Era”, 1989).

Em 1994 saiu o álbum Variações, As Canções de António, com Isabel Silvestre, Mão Morta, Sitiados, entre muitos outros, a interpretarem temas do cantor. Dez anos mais tarde, foi publicado o disco de inéditos Humanos, com Manuela Azevedo, Camané e David Fonseca. E em 2014 a banda OqueStrada incluiu no álbum Atlantic Beat Mad’ in Portugal um tema inédito de Variações: “Parei na Madrugada / Não me Deixaste Gostar de ti”.

Variações será também o mais importante ícone gay do século XX português. A homossexualidade surge como parte integrante da personagem e elemento essencial para a entender, mesmo se o cantor parecia desvalorizar o tema. “É apenas uma opção sexual. Deve ser assumida por quem pratica e respeitada pelos outros”, disse em Março de 1983 em entrevista ao jornal Se7e.

Este elemento está largamente ausente do espectáculo, que parece funcionar como tributo a uma imagem mais popular do cantor. O irmão de Variações, o advogado Jaime Ribeiro, leu o texto e autorizou-o. Vai estar presente na noite de estreia.

Bruno Horta

[versão de um artigo que escrevi para o jornal Observador, originalmente publicado em 23 de Junho de 2016]

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