A homossexualidade não deve ser alvo de “tolerância” ou “compaixão” por parte da sociedade, defendia Guilherme de Melo, jornalista e escritor que morreu em Lisboa há precisamente três anos – a 29 de Junho de 2013 – e cuja memória ameaça cair no esquecimento.

“Quem tolera não aceita”, afirmou Guilherme de Melo numa entrevista ao Diário de Notícias, em Julho de 2002. “Detesto a palavra tolerância. Ou sou aceite ou não sou. Tolerado é que não.”

O mesmo ponto de vista aparecera anos antes, em 1982, quando assinou Ser Homossexual em Portugal, uma grande reportagem em livro, provavelmente o melhor retrato das minorias sexuais portuguesas no pós-25 de Abril de 1974, quando o Código Penal da era democrática continuava a tipificar a homossexualidade como crime (até 1982).

Numa comparação velada com o exílio português a que se viu forçado depois de 1974, Guilherme de Melo escreve que as famílias costumam tratar os homossexuais como “estrangeiros”. E rejeita a ideia de tolerância.

A passagem é extensa:

“Os traumas que em muitos casos caracterizam o comportamento do homossexual adulto mergulham, assim, a raiz na família e no comportamento por esta adoptado para a criança que nasceu no seu seio e se está revelando diferente.

Ou, noutros casos, que não adoptou. E isto porque, ao fim e ao cabo, não conseguiu aperceber-se dessa realidade. Ou não quis tomar consciência dessa realidade – ainda que, no subconsciente, algo lhe segredasse que ela existia.

Com efeito, esse é outro dos grandes erros da família portuguesa perante o problema do filho homossexual: apercebe-se da sua realidade; tem a noção exacta do que ele efectivamente é – mas, dos pais aos avós, dos irmãos aos tios, adopta-se tacitamente uma posição de total ignorância dessa realidade. Como se uma cegueira colectiva os houvesse atingido. […] E o homossexual vai crescendo e desenvolvendo a sua personalidade dentro desse mesmo círculo como um exilado. […]

Uma vez homem feito, mulher adulta, o homossexual assim tratado pela família tem uma única preocupação, uma só ideia a dominá-lo: bastar-se a si mesmo, para poder afastar-se e passar a fazer a sua vida independente, sem nunca mais reatar qualquer contacto com os pais e os irmãos. […]

Por culpa de quem? Não, de certo, do homossexual – mas porque a família lhe deu sempre a sensação de o tolerar sem, contudo, o procurar entender. Ou, ao menos, com ele dialogar sobre a sua natural realidade. Ele foi simplesmente o estrangeiro que se suportou em casa – à espera do momento em que pudessem vê-lo pegar no passaporte e atravessar a fronteiro, em busca do seu exacto país.”

Nascido a 20 de Janeiro de 1931 em Lourenço Marques (actual Maputo), Guilherme de Melo tornou-se jornalista profissional aos 18 anos e começou por trabalhar no Notícias de Lourenço Marques. Chegou a casar-se, em 1957, e em 1961 pediu à Santa Sé a anulação do matrimónio por não o ter consumado, lê-se no livro Homossexuais no Estado Novo, da jornalista São José Almeida.

“Estive casado quatro anos, num casamento não consumado. Fizemos um pacto, quando casámos. Não fazíamos vida dupla, era uma relação de fraternidade, mas quando quiséssemos, tínhamos outra pessoa.  Ela era professora, queria refazer a vida e quis anular”, disse Guilherme de Melo a São José Almeida.

Quando deixou Moçambique, em Outubro 1974, era o jornalista “mais influente” do país, segundo o escritor Eduardo Pitta no livro de memórias Um Rapaz a Arder (2013). “Tinha 43 anos e estava de relações cortadas com a maioria dos intelectuais de Lourenço Marques por causa do seu apoio à guerra.”

À época estava “irremediavelmente conotado com o Estado Novo”, acrescenta Pitta, natural de Moçambique, amigo de Guilherme de Melo por mais de 50 anos.

Acompanhe-se a descrição:

“Maria das Neves Rebelo de Sousa [mulher do governador-geral de Moçambique, Baltazar Rebelo de Sousa, mãe do actual presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa] fizera dele o mestre-de-cerimónias do regime, e Kaulza de Arriaga, o comandante-chefe, tinha-o em grande consideração. Não obstante, nos dias turbulentos de Setembro de 1974, foi nas mãos do Guilherme que representantes da Frelimo depositaram o texto integral do Acordo de Lusaca.”

Já em Lisboa, com a mãe, duas irmãs e um sobrinho, passa a viver num pequeno apartamento no Príncipe Real. Ingressa no Diário de Notícias (DN) em Janeiro de1976, depois de breve passagem pelo gabinete de imprensa do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais.

“O Almeida Santos [ministro da Comunicação Social em Portugal, trabalhara como advogado em Moçambique] telefona-me e dá-me duas hipóteses de emprego: ou chefe de redacção da [agência de notícias] ANOP ou redactor do Diário de Notícias. Escolhi ser redactor do Diário de Notícias e ele ficou muito admirado por eu ter decidido recomeçar por baixo”, recordou Guilherme de Melo numa entrevista em 1998, de acordo com o obituário publicado pelo DN.

No jornal da Avenida da Liberdade irá manter-se até à reforma, em 1996, ano em que o então director, Mário Bettencourt Resendes, o promove a redactor principal, categoria profissional de topo para os jornalistas portugueses.

“Todos os que conviveram com ele não lhe esquecerão o profissionalismo exemplar, a coragem desassombrada, a imensa camaradagem, a capacidade de fazer amizades instantaneamente, a boa disposição permanente e aquele rasgado e malicioso sentido de humor que contaminava toda a gente”, escreveu o jornalista Eurico de Barros no obituário.

Em Moçambique publicara dois livros de contos, Menina Elisa (1959) e A Estranha Aventura (1960), bem como o romance As Raízes do Ódio (1962), apreendido pela polícia política, e o ensaio Moçambique, Norte – Guerra e Paz (1969).

Em Portugal, vai lançar o polémico romance autobiográfico A Sombra dos Dias, edição do Círculo de Leitores de 1980, com distribuição nas livrarias no ano seguinte. Tornava-se, assim, “o primeiro a descrever o quotidiano da comunidade homossexual” de Lourenço Marques, no dizer de Eduardo Pitta. “Muita gente não lhe perdoou as indiscrições, mas o livro é exemplar a vários títulos, até por desmontar a mecânica perversa do regime colonial.”

Nos anos 80, tornou-se uma das primeiras figuras públicas em Portugal a assumirem abertamente a homossexualidade, na televisão. Em 1996 foi entrevistado pela SIC, ao lado do companheiro, para a reportagem Entre Iguais, da jornalista Cristina Boavida.

A Raiz da Pele, em 2011, foi o último livro que publicou e o primeiro de poesia. “Possessão” é uma das composições, com possível influência de António Botto:

Abro os olhos
e estás fora de mim.

Fecho os olhos
e estás dentro de mim.

E fico sem saber,
nesta indecisão que nada acalma,
se és muito mais meu
quando te vejo e toco
e entras no meu corpo,
ou se quando, sem te ver,
sem te tocar,
penetras tão somente a minha alma.

Guilherme de Melo morreu há três anos no hospital de São José, em Lisboa, depois de três semanas de internamento devido a um cancro. Foi a enterrar no cemitério de Alto de São João, em cerimónia a que compareceram 20 pessoas.

Bruno Horta

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