“Emergindo de um fundo escuro, acentuado por pinceladas soltas de mau agouro, um homem apreensivo, tenso, quase hostil, com a mão firmemente apoiada na partitura.”

Assim é descrito, pelo crítico Jorge Calado na edição impressa do jornal Expresso de 10 de Junho, um retrato de Tchaikovski pintado em 1893 por Nikolai Kuznetsov. Não é um retrato qualquer, mas uma das mais famosas representações do compositor russo.

A pintura pertence à colecção da Galeria Estatal Tretiakov, em Moscovo, e por estes dias pode ser vista na exposição Russia and the Arts: The Age of Tolstoy and Tchaikovsky, que abriu em Março e termina no próximo domingo, 26, na National Portrait Gallery, em Londres.

Acrescenta o crítico do Expresso, para justificar o semblante de Tchaikovski na referida pintura: “Como homossexual, o compositor vivia uma vida dupla e odiava o foco que a celebridade lhe apontara.”

Vem de há muito a identificação do autor de O Lago dos Cisnes como homossexual (homossexual, não gay, uma vez que este último termo ganhou o significado actual a partir da segunda metade do século XX, sendo anacrónico para descrever pessoas que viveram antes). Piotr Ilitch Tchaikovski (1840-1893) terá escrito cartas que documentam a sua homossexualidade, dizem investigadores.

A nota biográfica que se encontra no site da Antena 2 dá algum contexto, apresentando a narrativa clássica, e discutível, de que Tchaikovski viveu atormentado devido à auto-repressão do desejo:

“Foi um ser inseguro, sujeito a depressões, a maior parte das quais, segundo os seus biógrafos, [devidas] a uma homossexualidade reprimida, e ao medo de se expor. Outro dos seus desastres emocionais foi o casamento. Primeiro, tentado com a soprano belga Désirée Artôt, e depois consumado com a ex-aluna Antonina Miliukova.

Oficialmente, Tchaikovski morreu de cólera devido à ingestão de água contaminada, no entanto alguns biógrafos e musicólogos ingleses teorizam que a sua morte foi suicídio. Morreu em Novembro de 1893 em São Petersburgo, nove dias antes da estreia da sua sexta sinfonia, a Patética.”

Retrato de Tchaikovski por Nikolay Kuznetsov, 1893
O retrato terá sido pintado poucos meses antes do morte de Tchaikovski

No site da National Portrait Gallery, a curadora Rosalind P. Blakesley apresenta uma interpretação do retrato, coincidente com a do crítico do Expresso, excepto que omissa na alegada homossexualidade reprimida:

Em anos recentes, sob a política anti-gay do presidente Putin, a presumível orientação homossexual de Tchaikovski tem sido apagada dos dircursos, em favor da imagem de um homem solitário. E apenas isso.

Há três anos, os autores de um filme biográfico sobre o compositor, o guionista Yuri Arabov e o realizador Kirill Serebrennikov, anunciaram que a sexualidade de Tchaikovski seria deliberadamente ignorada, de acordo com o jornal The Guardian, o que foi interpretado como um atitude de censura. É incerto se o filme chegou a ser realizado.

Na ocasião, o ministro russo da Cultura, Vladimir Medinski, declarou “não existirem provas” de que Tchaikovski fosse homossexual.

Na GLBTQ Encylopedia, fonte de referência nas temáticas queer, pode ler-se (formato PDF) que o debate sobre a influência da identidade homossexual no trabalho do compositor é um debate em aberto:

“The importance of  Tchaikovsky’s sexuality to his music is also a matter of considerable debate. In general, heterosexual musicologists tend to downplay or deny its importance, while queer historians and biographers highlight it in two ways.  They argue that events in the composer’s life are reflected in his music and that specific musical elements found in his scores are typically ‘gay’ .

There is now general agreement that he was in fact homosexual. This itself represents an enormous change in musicological scholarship, which has tended to be cautious and conservative in matters of sexuality, especially when it comes to composers as important as Handel and Tchaikovsky, whose achievements are central to classical music and to the Western cultural tradition.”

Bruno Horta

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