A indústria dos média corre para Orlando, e Facebook e Twitter flamejam de orgulho gay, para desagrado dos que não entendem, ou não querem entender, que identidades perseguidas precisam de auto-celebração para se fortalecerem.

O casamento civil entre homossexuais foi legalizado em todo o território dos EUA a 26 de Junho de 2015 – vai fazer um ano. O estado do Massachusetts foi pioneiro da mudança – há 12 anos (ou seja, em 2004, o mesmo ano em que abriu portas o bar Pulse, em Orlando, na Florida).

Na madrugada de 12 de Junho, 49 pessoas são assassinadas no Pulse. Quase todos hispânicos, identificados como lésbicas, gays, bissexuais ou transgénero (LGBT). O mais velho tem 50 anos, Franky Jimmy de Jesus Velazquez; a mais nova, apenas 18, Akyra Monet Murray.

Massacre homofóbico atribuído a um alegado apoiante da “guerra santa” salafista, Omar Mateen, de 29 anos. Acto de “ódio e terrorismo”, dois em um, descreve o presidente Obama.

O “âncora” Anderson Cooper, filho de Gloria Vanderbilt, lacrimeja na CNN ao ler os nomes dos mortos e entra em disputa com a procuradora-geral da Florida, eleita pelo Partido Republicano, acusando-a de interesse adventício pela causa LGBT.

O New York Times estranha o comportamento do jornalista:

“Mr. Cooper, who is gay, has seemed to embrace an advocacy role rarely seen among top network anchors, blending on-the-ground reporting with a distinctly personal and empathetic touch.”

Ao terceiro dia, consta que massacre semelhante acontecera em Maio no México. Bar La Madame, em Xalapa, capital do estado de Veracruz – banhado pelas mesmas águas que a Florida. Mas o “âncora” não esteve lá e o México é um estado falhado.

O jornal que critica Anderson Cooper escreve que os “direitos gay” continuam a dividir o teatro político americano.

Em 2015 foram assassinadas 21 mulheres transexuais nos EUA, pelas contas da revista The Advocate, e também no ano passado 119 trans foram mortas no Brasil, de acordo com a compilação do Grupo Gay da Bahia. Crimes de ódio, como aparenta ser o de Orlando.

O Ocidente vive na crença de que todos os problemas da população LGBT se resolvem com a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou o acesso à parentalidade. São temas que comovem os mass media e a classe média. Uma fé inabalável, provável herança do tempo em que a homossexualidade era criminalizada no Ocidente, sustenta que as leis legislam o íntimo dos seres humanos.

Fiéis de religiões anti-LGBT, famílias conservadoras, minorias étnicas segregadas, pobres sem acesso ao consumo, LGBT que não se aceitam e optam por vidas padronizadas, às vezes por legítimo desejo, outras vezes como fuga possível – um mundo de pessoas não é tocado pelos “direitos” e o “direito”.

Orlando é os fantasmas de cada ser humano. A ideologia vigente não compreende a matança. Nem repara.

Bruno Horta

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