Carlo Lavagna tem 38 anos e em criança sonhava que era uma mulher. “Convivi com esses sonhos por muito tempo, não tinha ferramentas para lidar com eles, era um miúdo”, recorda.

“Tinha 9 ou 10 anos e ficava perturbado, sonhava com frequência que era uma mulher de 30 anos e ao acordar não entendia o significado dos sonhos. Foi por causa disso que comecei a ler sobre a identidade sexual e a estudar filosofia. Se não tivesse tido os sonhos, provavelmente não teria feito este filme.”

Arianna é a primeira longa-metragem de ficção de Carlo Lavagna, que até agora apenas tinha realizado documentários. O filme fez parte da secção competitiva da 8 ½ Festa do Cinema Italiano, que decorre em várias salas lisboetas entre 30 de Março e 7 de Abril.

[trailer de Arianna]

Protagonizado pela estreante Ondina Quadri, de 22 anos, Arianna passa-se em cenário bucólico, durante um verão, e narra a descoberta da verdadeira identidade sexual da protagonista.

“Há uma tensão ao longo do filme”, explica o realizador. “Não quis guardar uma grande revelação para o fim, porque criaria um ambiente de thriller. Decidi dar um pouco de informação no início, ao estilo Picnic at Hanging Rock [filme de 1975, realizado por Peter Weir]. Percebe-se logo qual é o tema, mas continuamos com vontade de saber como vai terminar.”

Ora, no início ouvimos a protagonista explicar que nasceu duas vezes, aliás, três. “Primeiro, rapaz; uns anos depois, rapariga” – uma citação do livro Middlesex, de Jeffrey Eugenides, vencedor do prémio Pulitzer em 2003. O terceiro nascimento é o que vamos ver no filme, quando Arianna passa férias numa casa de campo que esconde o seu passado.

Arianna é uma intersexual, nasceu com características femininas e masculinas – aquilo a que comummente se chama hermafroditismo, embora o termo não seja consensual.

Ondina Quadri, presença discreta mas fortíssima no ecrã, foi descoberta por mero acaso pelo realizador. “O filme demorou nove anos a ser feito, foi escrito várias vezes, teve vários produtores interessados, e um dia o director de casting, que é meu amigo, falou-me da filha de um amigo dele”, relata Carlo Lavagna. “Ela apareceu no escritório e percebi que era perfeita para o papel, embora nunca tivesse sido actriz. Confiámos muito um no outro.”

A intersexualidade tem sido abordada várias vezes pelo cinema e pela literatura. Nos últimos anos, tornou-se um tema político, com a crescente visibilidade de grupos e associações de pessoas intersexuais. No ano passado, o comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa publicou um relatório em que aconselha “o fim dos tratamentos médicos desnecessários” em bebés hermafroditas e o “reconhecimento adequado” destas pessoas em documentos oficiais.

Em Portugal, o Bloco de Esquerda e o governo pretendem apresentar, já nas próximas semanas, propostas que visam o reconhecimento legal da realidade intersexo (a palavra “intersexo” é muitas vezes utilizada como sinónimo de “intersexual”, ainda que não esteja dicionarizada).

Carlo Lavagna nasceu e vive em Roma, passou dois anos em Copenhaga e Gotemburgo, depois esteve em Nova Iorque e aí realizou o documentário Hip Hop Diaries (2006), sobre a vida nos guetos.

Durante o mesmo período, começou a interessar-se pela intersexualidade e projectou realizar um documentário. “Estive em contacto com muitas pessoas, recolhi muito material, mas nunca fiz a montagem”, conta. “Isso deu-me tempo para estudar e pesquisar, mas sempre quis fazer um filme de ficção. Não queria limitar-me a um problema médico, senti que corria o risco de me focar demasiado nisso e o que queria era um objecto poético e universal, que apele a todas as pessoas, mesmo a que são heterossexuais, como eu.”

A propósito, note-se que a intersexualidade não está relacionada como a orientação sexual, pois estas pessoas podem ser hetero, homo ou bissexuais.

Prossegue Carlo Lavagna:

Muitas pessoas que conheci diziam-me que antes de existir internet pensavam ser as únicas no mundo com aquele problema. Os médicos e a família escondiam-lhes a verdade. Finalmente, com a internet, puderam comunicar uns com os outros e formar as primeiras associações. Foi assim que começou uma visão mais política da intersexualidade”

Não sendo este um filme político, na verdadeira acepção do termo, serve uma crítica a discursos hegemónicos. “A história mostra um conflito da personagem com os pais e os médicos, ou seja, contra o poder e o contexto cultural”, analisa o realizador. “É um conflito entre o que quiseram que a rapariga fosse e aquilo que ela é na verdade. A luta desta rapariga é para encontrar a sua natureza interior, foi por isso que filmámos num espaço natural.”

Rodado no verão de 2014 em Itália, junto ao Lago de Bolsena e no sul da Toscana, zona em que Carlo Lavagna passou temporadas na infância, o filme estreou-se no ano passado no Festival de Cinema de Veneza e logo a seguir passou para o circuito comercial italiano.

Veneza correu bem, entende o realizador, que chegou a surpreender-se com a reacção posterior nas salas italianas.

“Tínhamos poucas cópias, pouco mais de 20, e apesar de alguma opiniões conservadoras, encontrei grande abertura das pessoas, não estava à espera, tendo em conta o contexto italiano e a presença do Vaticano”, recorda. “Acho que as pessoas individualmente são mais abertas ao diálogo do que a sociedade no seu todo.”

Bruno Horta

 

[versão do artigo que escrevi para o jornal Observador em 31 de Março de 2016]

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