O cinema sobre minorias sexuais, com personagens ou histórias gay e transgénero, parece viver de tendências mais ou menos indecifráveis, ainda que a crítica precise de encontrar temas comuns e, de tempos a tempos, decrete uma vaga de filmes semelhantes entre si. Para o realizador Ira Sachs, de 50 anos, o que há hoje de comum no cinema queer não é certamente o conteúdo. “Se há uma tendência no cinema é a falta de dinheiro para fazer filmes”, desabafa, numa entrevista a partir de Nova Iorque.

A cidade que Ira Sachs escolheu para viver há quase trinta anos tem servido de cenário a quase todos os seus filmes, com particular incidência na famosa curta-metragem Last Address (2010), em que mostrava, com sons captados nas ruas, fachadas de prédios nova-iorquinos que serviram de última morada a uma legião de artistas vitimados pela sida: o artista plástico Keith Haring, o escritor cubano Reinaldo Arenas, o fotógrafo Robert Mapplethorpe, o activista Vito Russo, entre muitos outros.

O Amor é Uma Coisa Estranha (2014), novo filme de Ira Sachs a chegar às salas portuguesas (ainda que, entretanto, ele tenha realizado um outro já este ano, Little Men), volta ser sobre Nova Iorque. Estreou-se esta semana em Lisboa, Cascais, Coimbra e no Porto.

“É a cidade que melhor conheço, com a qual sinto intimidade, é um sítio extraordinário para viver, ser homossexual e artista, ter uma família”, resume Ira Sachs, que se casou em 2012 com o pintor Boris Torres. Têm dois filhos gémeos e partilham a educação das crianças com a mãe, a também realizadora Kirsten Johnson. “Não adoptámos, estamos a criá-los de uma forma não tradicional”, comenta Ira Sachs. “A mãe vive ao nosso lado, somos uma família de três pais.”
Não é uma questão de possibilidade legal, mas sobretudo da cultura daquela cidade. “O tipo de vida que tenho é muito característico de Nova Iorque”, explica o realizador. “A noção de comunidade é muito importante, uma noção alargada de família, de que fazem parte muitos amigos. De certa forma, é esse o tema do filme: a ideia de família em sentido lato.”

Tal como fizeram muitos homossexuais ao longo dos séculos, e tão bem documentado ficou na literatura dos séculos XIX e XX, também Ira Sachs saiu da cidade em que nasceu (Memphis, no estado do Tennessee), em direcção à grande cidade, na esperança de aí encontrar um espaço de liberdade e autodeterminação. “Aconteceu comigo, mas não sei se estaria consciente disso quando decidi viver numa cidade em que ser gay é parte da norma”, comenta. “Historicamente, muitos fizeram o mesmo antes de mim e foi também isso que levou as personagens do filme, Ben e George, a mudarem-se para Nova Iorque.”

O Amor é Uma Coisa Estranha (Love is Strange) põe em cena um casal idoso que partilha a vida há quase 40 anos – os actores John Lithgow e Alfred Molina. Quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legalizado, decidem casar-se. Mas por causa disso um deles é despedido da escola católica em que é maestro de um coro. Sem rendimentos, ambos perdem a casa em que viviam. Têm de se mudar, em separado, para a casa de familiares e amigos.

[trailer de O Amor é uma coisa Estranha]

“O filme é sobre a tentativa de encontrarem um novo apartamento e sobre o que acontece enquanto estão em casa de outras pessoas do seu círculo”, descreve o realizador. “Nos anos 30, havia muitos filmes chamados remarriage comedies e penso que O Amor é Uma Coisa Estranha se inclui nessa estrutura: um acontecimento leva à separação do casal e durante esse período ambos percebem a profundidade do amor e o grau de compromisso que os une.”

Mas há mais. No contexto da obra de Ira Sachs, o filme integra uma trilogia iniciada em 2012 com Keep The Lights On, que os portugueses puderam ver no festival de cinema Queer Lisboa. A obra foi distinguida com o principal prémio do festival, o de Melhor Longa-Metragem. A trilogia foi entretanto encerrada com Little Men (2016), ainda sem data de estreia em Portugal.

Todos os três “têm uma personalidade própria”, mas “dialogam entre si e mostram relações entre personagens masculinas de diversas gerações”, descreve. “Os meus filmes partem sempre da minha intimidade, de pessoas que conheço ou de experiências por que passei.”

Keep the Lights On foi um filme de transição, feito numa época em que já não estava a sofrer tanto, do ponto de vista pessoal, como nos trinta anos anteriores. É sobre um período muito problemático. Os dois mais recentes não são filmes de introspecção, de desafio pessoal, mostram sim os desafios que vêm de fora para dentro das relações.”

Nome fundamental para a construção da trilogia tem sido o do guionista brasileiro Maurício Zacharias. Conheceram-se através de amigos comuns: o realizador Karim Aïnouz (autor de Madame Satã, 2002; e Praia do Futuro, 2014) e a documentarista Sandra Kogut (Um Passaporte Húngaro, 2001; Mutum, 2007). “Começámos a falar sobre a vida e o cinema e encontrámos enorme coincidência, o que tornou a nossa colaboração muito produtiva e orgânica”, descreve.

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Ira Sachs (CC)

Ainda que fale de cinema com uma linguagem académica (foi professor no departamento de cinema da Universidade de Nova Iorque, mas já deixou o lugar), Ira Sachs usa muitas vezes a expressão “orgânico” para descrever o que faz. “A minha abordagem é instintiva e orgânica, mas tenho um forte sentido de história e de personagem, o que se deve ao estudo do cinema e da literatura. Encontro a minha própria maneira de contar a história, mas atento nas estruturas clássicas do romance e do cinema.”

Um texto recente da revista Vulture comparou-o a Martin Scorsese e Spike Lee, dizendo tratar-se de um “autor essencial da Nova Iorque actual”, com filmes sobre desigualdades socais e relações influenciadas pela vida urbana. “Orgulhoso” daquela descrição, Ira Sachs sente que tem tido “condições para criar uma obra sustentada”, o que por si só “é um marco para qualquer realizador norte-americano”. Ao mesmo tempo, insiste nos obstáculos e volta ao inicio da conversa.

“É difícil encontrar dinheiro para filmes independentes. A maior parte dos realizadores da minha geração passou a trabalhar para a televisão, porque é aí que se pode ganhar dinheiro e fazer carreira. Um realizador de ficção, com 10 ou 15 filmes, é cada vez mais raro. Tenho tido a sorte de me manter mesmo independente, no topo da cadeia, sem depender de decisões de departamentos financeiros.”

Revela que entretanto começou a escrever um filme de ficção sobre o actor Montgomery Clift, para o canal HBO, o que representará a sua estreia televisiva. “Sigo o mesmo processo dos meus filmes, com a diferença de que neste caso não é uma produção independente, porque a HBO faz parte da indústria.”

Ira Sachs tem uma relação estreita com o cinema europeu. Cita Pasolini, Fassbinder, Chéreau e Chantal Akerman como referências. “São a minha família”, garante. “Interessa-me que o meu trabalho tenha um efeito sobre o mundo da cultura. Quero fazer filmes que permitam às pessoas reverem-se e contarem as suas próprias histórias, espero ter esse efeito de contágio, não no sentido de impor, mas de interagir com a experiência dos outros, sejam eles o público, gay ou não, ou outros criadores de cinema.”

A conversa termina com uma rápida digressão pelo trabalho como curador do “Queer/Art/Film”, ciclo mensal sobre arte queer que tem lugar na sala do IFC Center de Nova Iorque. Um dos filmes recentemente exibidos foi O Fantasma (2000), de João Pedro Rodrigues. Não se tratou de uma escolha de Ira Sachs, mas ele considera o português um “realizador extraordinário”. “O filme tem enorme beleza, uma força e um risco tremendos.”

Bruno Horta

[entrevista originalmente publicada no jornal Observador]

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