Cristian Ceresoli não fala sobre si mesmo. Quando lhe perguntámos pelo seu percurso, numa conversa por Skype esta semana, o escritor disse que tem 41 anos, nasceu em Bergamo, no norte de Itália, e vive em Londres, ainda que passe algum tempo em Roma. Pouco mais.

“Sou daqueles autores que consideram mais importante falar daquilo que escrevem do que daquilo que são”, justifica.

A conversa dirige-se imediatamente para a peça La Merda, que Ceresoli escreveu em 2012 e cuja estreia portuguesa aconteceu no sábado, 21, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada.

Monólogo para uma actriz, nua e raivosa em palco, a regurgitar impropérios e gritos de alma, tem título bastante para chamar a atenção, mesmo se para o autor nada ali é gratuito. “Não queremos escandalizar, queremos mostrar alguma inocência”, contrapõe.

“É poesia, quase como se as palavras fossem música, através disso temos uma paisagem mental que é ao mesmo tempo muito física e íntima para público”, descreve Cristian Ceresoli.

“O texto é sobre a condição humana nos dias de hoje, é a história de um ser humano que tenta lutar pela sua identidade, neste caso uma personagem feminina, que poderia ser masculina. Ela luta para se tornar adulta, mas cai num processo de humilhação, humilha-se para poder ser alguém, só que esse alguém é uma ideia corrompida sobre a própria identidade.”

Desde Março de 2012, data da estreia absoluta, em Milão, La Merda percorreu dezenas e dezenas de salas em Itália e foi apresentada em Espanha, na Alemanha, na Suíça, na Lituânia, no Reino Unido, na Dinamarca, no Brasil e na Austrália. O jornal The Guardian classificou-a como “extraordinária, tenebrosa, difícil de ver e de esquecer”.

“Há quem ria, há quem chore, alguns sentem luminosidade outros sentem-se oprimidos”, diz Ceresoli sobre as reacções do público, não se alongando sobre se o espectáculo encaixa na corrente “in-yer-face”, surgida na década de 90 no Reino Unido, consistindo em peças agressivas que chocam os espectadores.

“Cada palavra que acrescente a essa classificação vai fazer com que esteja a colocar a obra em alguma categoria, o que não me interessa, prefiro que cada um decida a sua própria classificação. Pela minha parte, quis criar algo difícil de classificar, foi uma escolha deliberada”, argumenta.

São cerca de 55 minutos, em italiano e com legendagem. A actriz e performer Silvia Gallerano dá voz e corpo a uma torrente imparável de ideias, através de uma personagem sem nome, numa cena sem espaço ou tempo definidos. Agride-se e agride o público com palavras que vão criando um sentido, ainda que as frases sugiram ausência de lógica.

[excerto de La Merda]

“Ela é como uma máscara vocal e física e normalmente as pessoas vêm-na como personagem”, explica Ceresoli. “A Sílvia criou esta máscara há alguns anos, vi-a num espectáculo, fiquei apaixonado pela voz e pelo corpo daquela personagem e como escritor que procura erotismo e sexualidade quis escrever algo para ela”, recorda.

Por vezes entendido como um espectáculo feminista, que também critica a corrupção e os escândalos financeiros e políticos, La Merda foi escrito entre 2010 e 2011. É o primeiro texto de Ceresoli, que antes disso “andava a descobrir” a vocação como escritor, recorrendo a trabalhos temporários.

“É um texto muito íntimo, chorei quando estava a escrever, acho que é a primeira vez na vida que estou a dizer isto. E também me ri”, revela.

Escreveu num velho computador portátil, em casa, bares, cafés, jardins, por vezes sozinho, outras no meio de muita gente. Esteve em mais de 30 cidades durante aquele período e o texto parece reflectir essa fragmentação.

“Naquela altura, eu e a Silvia enfrentámos a censura italiana, não tínhamos sala nem dinheiro para apresentar o nosso espectáculo, chegámos a pensar que nunca se estrearia, mas depois, em 2012, comecei a fazer a tradução para inglês. Queríamos fugir do nosso país e mostrar o nosso trabalho noutros países”, conta.

Finalmente, em Agosto daquele ano, com a apresentação no Festival Fringe de Edimburgo, La Merda deu o salto e recebeu dois prémios: Melhor Texto e Melhor Actriz.

Ceresoli rejeita que La Merda seja uma obra política ou uma crítica à sociedade capitalista. Diz que há muita raiva naquilo que escreve, mas não quer ser considerado um autor político (houve quem o comparasse a Pasolini e Artaud).

“O elemento político é apenas um dos muitos elementos da peça, não quero assumir qualquer posição, quero expressar livremente um ponto de vista poético.”

Ainda assim, concede que a sociedade mediática é apresentada como um alvo a abater. “O texto fala de alguém procura a sua identidade e não a encontra, por isso é forçado a conformar-se às identidades que o poder dos média impõem. Os média são usados pelos poderes para obrigar as pessoas a serem o que não querem”, afirma, antes de apresentar um exemplo.

“Quando tinha 13 anos, pensava que para ser um homem a sério teria de ser como o Sylvester Stallone. Ainda hoje, a ideia de ser alguém, de criar a minha própria identidade, é corrompida pela identidade proposta pelos poderes. E quando se tenta ser alguém que nunca se vai ser, instala-se a frustração.”

Bruno Horta

[versão adaptada da entrevista que escrevi para o jornal Observador]

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