No ano passado, entrevistei o realizador alemão Jan Soldat e perguntei-lhe sobre a sensação de desconforto que os filmes dele provocam nos espectadores.

Ele respondeu assim:

“Diria que as práticas que mostro não são fora do comum, são diferentes daquilo que existe na sociedade convencional e heteronormativa. Daí que talvez possam ser consideradas fora do comum. A maioria das pessoas pensa que se deve viver desta e daquela forma e não consegue aceitar outras formas de expressão da sexualidade.”

A explicação continua a fazer sentido para o novo filme de Soldat, a curta-metragem Coming of Age, que o festival de cinema IndieLisboa exibe na terça-feira, 26 de Abril, às 18h45, no Cinema São Jorge  (depois de uma primeira projecção a 21 de Abril).

Coming of Age é um documentário de 16 minutos, com data de 2016, em que um casal alemão de meia-idade fala sobre as suas práticas de infantilismo – o fetiche de se ser tratado como um bebé e usar fraldas em contexto sexual.

jan soldat coming of age
Uma das poucas imagens disponíveis de “Coming of Age”

 

Soldat tem 32 anos e vive em Berlim. Nasceu na antiga RDA (em Karl-Marx-Stadt, actual Chemnitz), e estudou cinema e televisão na Escola de Cinema Konrad Wolf, em Potsdam.

Nos últimos anos, tem  filmado práticas que a psiquiatria classifica como parafilias: zoofilia, sadismo, masoquismo, infantilismo. São documentários com um ponto de vista assumido, que é o de mostrar sem questionar, deixando o espectador praticamente sozinho com a sua própria interpretação.

“Filmo sempre pessoas reais, não há actores”, disse-me o realizador, acrescentando que descobre na internet as pessoas que filma.

O IndieLisboa mostrou o trabalho de Soldat pela primeira vez em 2014 (Der Unfertige) e em 2015 dedicou-lhe uma retrospectiva.

Bruno Horta

[foto: Miguel Bueno]

 

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