Despida – Reflexões de uma Mulher Transexual, livro de Lara Crespo recém-publicado, é uma colectânea de artigos originalmente escritos para o blogue Lara’s Dreaming, entre Agosto de 2007 e Junho de 2014. São textos confessionais e relatam os fantasmas da autora em torno da sua identidade de género.

“Complexa como qualquer outra pessoa, eu sou a Lara, nascida e criada em Lisboa, que se iniciou no activismo pelos direitos trans/direitos humanos em 2003”, lê-se na introdução. “Sou directa e honesta e nunca deixei de o ser. Logo, não esperem ler nestas páginas uma ode à suposta perfeição humana, de que tudo corre bem, de que basta a nossa força de vontade para conseguir tudo.”

Lido literalmente, é um livro negro. Numa segunda camada, contém momentos cómicos, mesmo se não foi esse o sentido investido. A organização cronológica, como no blogue, foi mantida, e o mesmo acontece com a linguagem familiar.

Os primeiros textos são de quando Lara Crespo tinha 36 anos. Não poder ser mãe biológica era a “frustração número um”. “Nunca estarei satisfeita”, escreveu, ao reflectir sobre a transição de género, a colocação de implantes e o ser transexual. “Sou mesmo assim, demasiado perfeccionista, (…) deveria ter nascido num corpo biologicamente feminino, não masculino.” Adiante, sublinha: “Sempre fui pessimista e negativa. Acho que faz parte de mim. É inerente à minha pele. Mas vou sobrevivendo como posso, apesar de desejar ou já não estar cá, ou de nunca ter nascido.”

A má relação com a família é uma preocupação constante. Os homens heterossexuais também: como eles a olham, objectificam ou usam, a vergonha que sentem por manterem relações com mulheres trans. Uma personagem que atravessa o livro é “Jorge, de Odivelas”, com quem Lara Crespo manteve um relacionamento. A história de ambos, à beira de se tornar um fio condutor, parece pedir narrativa autónoma, sob a forma de romance, talvez.

Na tentativa de ser didáctica e esclarecer quem a lê, o desespero da autora torna-se irónico:

“Eu nasci com um corpo biologicamente masculino, mas a minha identidade de género é feminina – daí o MTF (Male to Female). Logo, sou uma mulher Transexual heterossexual porque me sinto sexualmente atraída pelo género oposto: leia-se homens. Entendido? (Não acredito muito, mas a malta vai-se esforçando).
Agora vem a estória do ‘travesty’. Meus caros, ‘travesty’ não existe. O que existe é ‘travesti’ sem Y no final, que nada tem a ver com Transexualidade, mas que estão constantemente a confundir (mais uma vez). Que uma esmagadora maioria das brasileiras transgénero que vivem em Portugal e mesmo no Brasil se identifiquem como tal é lá com elas, mas isso nem aqui nem na China faz sentido.”

Ao apresentar a experiência pessoal desta mulher, talvez o livro possa ser visto como exemplo de muitas outras vidas trans (note-se, a propósito, que Lara Crespo não utiliza no título a palavra “transgénero”, termo que abrange diversas identidades não normativas, incluindo a transexual).

Neste aspecto, é preciso perguntar: será Despida… um testemunho de âmbito político, isto é, que permite entender a vida das outras mulheres transexuais portuguesas? Ou será que as reflexões da autora descortinam apenas a sua vida e dificilmente se estendem a outras vidas?

“Este meu primeiro livro reflecte quem sou, abrange vários anos da minha vida e reflecte muito do que se passou comigo durante a minha transição”, escreve a autora na sinopse. “Pretende desmistificar muitos dos preconceitos e pré-conceitos no que se refere à transexualidade e, inerentemente, às identidades trans.”

Alguns textos repetem ideias, experiências e frustrações, o que, por vezes, é exaustivo. Noutros momentos, a luz permite à autora encontrar o tom certo:

“Relacionamentos falhados, noites que poderiam ser dias e nunca foram, paixões nunca correspondidas apenas porque sou quem sou, humilhação, agressão verbal e física, assédio ordinário e vulgar, perda total de auto-estima e o fechar-me dentro da minha concha, reduzindo-me à minha insignificância.
Este podia, e se calhar devia, ser um post alegre, feliz, mas não é. Andei demasiados anos a tapar o sol com a peneira para agora dourar a pílula. […]. Cabe a cada uma de nós tomar consciência disso cedo, e aprender a viver com este handicap […] [As] coisas são como são, e mesmo que eu me descabele toda, não as vou mudar em relação a mim.”

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“Despida”, livro de memórias e reflexões de Lara Crespo

Dizer que se trata de uma obra surpreendente é um lugar-comum, mas faz  sentido. Não é o primeiro livro em Portugal que conta a transexualidade na primeira pessoa. Vem à memória Ontem Homem, Hoje Mulher (2014), de Patrícia Ribeiro, e Obviamente, Mulher (2010), de Filipa Gonçalves. Ao contrário daqueles, este não é uma autobiografia, ainda que seja autobiográfico. E tem características particulares. Desde logo, a auto-publicação, via plataforma de acesso livre na internet (Kobo).

Um livro sem intermediário ou editora tradicional deve ter uma leitura. Ou duas. Pela negativa: nenhum editor se interessou pelo tema ou conteúdo, fosse pela qualidade do texto, ou pela viabilidade económica, se é que esse caminho chegou a ser tentado pela autora. Pela positiva: evidencia autonomia de criação e divulgação, afastamento do “sistema” ou vontade de comunicar sem outro juiz que não seja o público. Tudo indica que Lara Crespo encaixa nesta segunda hipótese.

Outra característica que merece destaque é a abordagem não engajada, o que não quer dizer despolitizada. De resto, Lara Crespo é activista desde há muito e dedica o livro a outros activistas, cujo nome vale a pena registar: Eduarda Alice Santos, Sérgio Vitorino e Jó Bernardo.

Sendo textos intimistas e políticos, não se alinham com convenções ou agendas de grupos de pressão, como se a autora quisesse dizer que aos desapossados pouco importam discursos ideológicos organizados. É isso que faz desta colectânea um documento valioso.

Bruno Horta

 

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