“Se me visses um só instante como sou na realidade, correrias aterrorizada a chamar um médico ou uma ambulância.” A fala é de uma das personagens da peça Pocilga, de Pier Polo Pasolini, encenada no ano passado por John Romão.

O vídeo da peça foi ontem publicado na Internet.

Pocilga foi apresentada pela primeira vez em Janeiro de 2015, na Culturgest, em Lisboa, tendo passado nos meses seguintes por Coimbra, Torres Novas, Viseu e Porto. É uma criação de John Romão, com os actores Albano Jerónimo, Ana Bustorff, Cláudio da Silva, Guilherme Moura, João Lagarto e Mariana Tengner Barros, entre outros.

Pocilga (Porcile, no original) deu origem a uma ópera, em 1966, assinada por Pasolini. E a um filme, apresentado pelo próprio em 1969 no Festival de Veneza. Obra do “momento mais niilista e pessimista de toda a obra de Pasolini”, escreve John Romão na folha de sala (muito completa) do espectáculo. Um momento em que a “crise, a desordem e o desaparecimento são totais”.

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Pocilga na colecção Livrinhos de Teatro

A folha de sala indica também que o texto foi traduzido pelo encenador, John Romão. Mas em 2006 já tinha sido publicada uma tradução, de Pedro Marques e Olinda Gil, na colecção Livrinhos de Teatro, dos Artistas Unidos/Cotovia.

É uma obra difícil que oferece interpretações diversas. Tem sido lida como uma forma de resistência ao avanço do capitalismo global, o que se reflectiria na passividade revoltada da personagem Julian.

Sendo também uma obra sobre os extremos das sexualidades, neste caso o sadomasoquismo e a bestialidade, Pocilga pode ter hoje uma leitura queer, no que isso remete para identidades minoritárias e vivências à margem do statu quo.

Bruno Horta

[foto ao alto: Rui Palma]

 

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