“Tão poderoso, tão magnífico, tão trágico, tão desgarrado, tão tremendo, a desmesura”, escreveu sobre Copi o jornalista argentino José Tcherkaski. Pioneiro da arte queer, dramaturgo, actor, romancista, cartoonista, com muitas dúvidas se pode classificar como “activista LGBT”. Enorme desconhecido dos portugueses, pese embora a dezena de vezes que já foi apresentado nos nossos palcos, hoje vedeta para alguma esquerda francesa, personagem enorme da transfiguração.

Raúl Damonte Botana, nascido em Buenos Aires em 1939, exilado em Paris a partir de 1962, vítima da sida em 1987, volta a ser falado por estes dias, a propósito de “A Noite da Dona Luciana”, encenado por Ricardo Neves-Neves, com produção do Teatro do Eléctrico, em cena no Teatro da Politécnica, em Lisboa, (estreou-se a 24 de Fevereiro e fica até 19 de Março).

[vídeo de promoção de “A Noite da Dona Luciana”, pelo Teatro do Eléctrico, 2016]

Ao que explica a escritora argentina María Moreno no prólogo de Obras – Tomo I (Anagrama, 2010), Raúl  assinava como Copi porque adoptou o apodo que a avó materna lhe dispensava em pequeno, como forma de censura aos modos pouco varonis do neto. Salvadora Onrubia, essa avó, escritora e militante anarquista, mulher fria e brutal, virá a ser parcialmente responsável pela heterodoxia de Copi, pelo seu desejo de flutuar entre identidades sem se agarrar a nenhuma. O que aliás conseguiu com grande eficácia.

A transexualidade e comportamentos sexuais e sociais minoritários são temas omnipresentes em tudo quanto fez. Mais: ia além disso, ou usava isso, para falar do humano distorcido.

“Tinha uma obsessão temática pela figura do ‘freak'”, nota o crítico literário Daniel Link, citado no texto de Laura Vázquez. “O teatro de Copi, como os seus desenhos, sempre foi terrível”, analisa o filósofo e escritor francês Guy Hocquenghem (1946-88), num testemunho incluído na versão portuguesa de Uma Visita Inoportuna. Prossegue: “Os assassinatos repetidos em As Quatro Gémeas, o infanticídio em A Torre de Lá Défense, o monstro desfigurado que se tornou assassino em A Noite da Senhora Luciana: tantos pesadelos em palco. Mas pesadelos onde a angústia é repentinamente corroída por uma gargalhada, pela alegria do gag.”

Criador nas margens, reconhecido pelas elites intelectuais, nunca familiar para o grande público.

“Uma das razões da grandeza de Copi, e do desdém com que, até agora, a sua obra tem sido tratada entre nós [argentinos], tem seguramente a ver com a violência com que irrompe na cena mundial para propor uma ética e uma estética trans: transexual, pós-nacional, pós-linguística”, explicava o crítico literário Daniel Link, em 2008, no blogue “Linkillo (Cosas Mías)”.

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Copi na peça “O Frigorífico”, em 1983 (foto: Jorge Damont/Libération)

Viveu em Montmartre, com um irmão, numa “casa semi-destruída, com garrafas pelo chão”, descreve José Tcherkaski, em Habla Copi: Homosexualidad y Creación (1998). “Bebia até não poder mais, não respeitava nenhum código.” O vício da marijuana era constante, de manhã à noite. À hora das refeições, mal se viam os pratos, tal a fumarada em casa, conta alguém que o conheceu de perto: Jorge Herralde, director da Anagrama, no livro Opiniones Mohicanas (2001).

Viveu vários exílios. Primeiro, no Uruguai, para onde a família se mudou em 1945, fugindo ao regime de Perón. O pai, Raúl Damonte Taborda, pintor e político, foi homem de confiança do general antes de se tornar anti-peronista e alvo a abater. De Montevideu a família foi para Paris, no início dos anos 50. Em 1955, com Perón apeado, regressaram a Buenos Aires. Copi, prometido à nascença como sucessor político do pai (até o nome era igual), tinha outro caminho a fazer. O pai fundou o jornal Tribuna Popular e ele, ainda adolescente, começou aí como cartoonista. A partir de 1962, novo e último exílio, em Paris. Tinha 22 anos, fora à capital do mundo passear e ver teatro quando o pai pediu asilo político à embaixada do Uruguai em Reims.

Começou por vender desenhos na Pont des Arts, embora tivesse suporte financeiro da família. Por via da amizade com um maquetista, passa a colaborar com a revista de esquerda Le Nouvel Observateur, onde assina a tira La Femme Assise (A Mulher Sentada), espalhados depois ao resto da Europa através, por exemplo, da revista Hara Kiri.

O teatro vem a seguir, quando o fotógrafo Martine Barrat para aí o puxa. Adere ao grupo teatral Pánico, onde pontuava a boémia artística: o espanhol Fernando Arrabal, o chileno Alejandro Jodorowsky, o francês Roland Topor, o argentino Victor García. Torna-se actor e traveste-se em peças absurdas de circuitos alternativos. Como dramaturgo, dá nas vistas em 1969, com Eva Perón, onde a querida Evita dos argentinos é interpretada por um homem em travesti. Recebida como um insulto à memória de Evita, a peça impede Copi, mais por medo do que por proibição, de regressar à Argentina até aos anos 80.

De resto, não foi só em Paris que Eva Perón causou problemas. Também em Portugal, quando Filipe La Féria e Mário Viegas tentaram montar o texto, em 1975, uma ordem do Governo provisório de Vasco Gonçalves, alegadamente pressionado pela embaixada da Argentina, obrigou-os a recuar. Só em 1984 é que La Féria conseguiu apresentar a sua encenação, com Teresa Roby a fazer de Eva Perón, em vez de Mário Viegas.

Bruno Horta

 

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