Do ponto de vista simbólico, a versão portuguesa de Manifesto Contrassexual, de Beatriz Precido, editado pela associação lisboeta Unipop há poucas semanas, pode ser considerado um acontecimento importante. O original tem 13 anos, circulava há muito nos meios académicos e activistas, mas até hoje não tinha sido vertido para português.

A autora, que há um ano iniciou o processo de mudança de género, chamando-se agora Paul B. Preciado, tornou-se figura central do pensamento queer (sexualidades, géneros e identidades que escapam à norma).

Em Manifesto Contrassexual, defende que as pessoas não heterossexuais devem reconhecer os seus corpos “não como homens ou mulheres, mas como corpos falantes”, que renunciam a uma “identidade sexual fechada e determinada naturalmente”.

Inspirada em Karl Marx e Michel Foucault, Preciado proclama a criação de um movimento contra-sexual. “A contrassexualidade é também uma teoria do corpo que se situa fora das oposições homem/mulher, masculino/feminino, heterossexualidade /homossexualidade”, escreve.

A sexualidade seria assim vista como uma tecnologia, e as identidades e práticas sexuais como “produtos, aparatos, próteses”. O esplendor da abordagem pós-estruturalista: tudo é construção cultural, nada é natural.

Acrescenta o autor: para resistir à disciplina imposta pelos discursos hegemónicos sobre a sexualidade não basta a luta contra a proibição, é necessária a “produção de formas de prazer-saber alternativas à sexualidade moderna”.

Paul B. Preciado, de 45 anos, natural de Burgos, no Norte de Espanha, era descrito há alguns anos no El País como “alta, andrógina, alternativa, experimental”. Professor na universidade Paris VIII, doutorado em Teoria da Arquitectura e teórico do movimento queer, “vive como pensa e pensa como vive”, acrescentava o jornal espanhol. Nunca como agora isso foi tão verdade.

Em entrevista publicada em Junho último no diário progressista argentino Página/12, exclamou que “excepcional é a imobilidade de género das outras pessoas”.

manifesto contrassexual
Capa da edição portuguesa

Autor de três livros de referência, Manifesto Contrassexual (2002), Testo Yonqui (2008) e Pornotopía (2010), escreve como quem quer espevitar a todo o tempo as concepções vigentes, aqui e ali com recurso à linguagem chula e tendo conceitos da filosofia como ponto de partida.

O dildo é o dispositivo argumentativo deste manifesto, signo do sexo como prótese. “O dildo não é o falo e não representa o falo, porque o falo, digamo-lo de uma vez por todas, não existe. O falo não passa de uma hipóstase do pénis.”

Na nota introdutória, de Pedro Feijó – um dos tradutores, ao lado de Helena Lopes Braga e Daniel Lourenço, com revisão de Salomé Coelho e contributo de João Manuel Oliveira e João Carlos Louçã (vale a pena esta lista exaustiva de nomes, todos conhecidos no universo académico e activista queer de Lisboa) –, lê-se que a tradução “não surge de uma canonização ou possível autoridade” de Preciado, antes de “uma necessidade e de um afecto”.

Quanto à demora de uma tradução portuguesa, e note-se a opção de não se usar o acordo ortográfico de 1990, o que, por incoerência, não está reflectido no título, Pedro Feijó vinca que Portugal está atrasado na vivência da problemática queer, pelo que o manifesto de Preciado “não perdeu actualidade”. Os leitores dirão.

Bruno Horta

.

Anúncios