Um realizador que até a imprensa convencional classifica como queer realiza um filme sobre homens e mulheres transformados em animais ou árvores, com base nos mitos da Grécia Antiga e em particular nas Metamorfoses de Ovídio.


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Passando-se isto em 2014, que leitura merece? A sinopse distribuída por festivais de cinema em que o filme foi apresentado dizia que Christophe Honoré, o realizador, quis homenagear a Grécia numa época em que o país tem a imagem desfigurada por conta da crise económica e financeira. À superfície, até pode ser assim. Visto com atenção, Metamorfoses (França, 2014, 102 minutos) pode bem ser um filme sobre a questão transgénero. Estreou-se em Portugal a 20 de Agosto.

Começa com florestas, rios e chuva. Uma torrente de energia telúrica e uma citação de Ovídio sobre formas novas e a metamorfose dos corpos. Aos três minutos, uma mulher transexual, cabelo de fogo, toma banho no bosque quando é surpreendida por um rapazinho loiro que anda à caça de espingarda na mão. Talvez ele seja já um animal como os que andaria a caçar e talvez a mulher seja apenas ilusão. Mas é sob o signo daquela personagem que o filme se desenrola.

Recorrendo a uma plêiade de actores estreantes (ou não-actores), a nona longa-metragem de Honoré é uma fábula imensa que as personagens levam a sério, mesmo se o que fazem e dizem é deslocado, amorfo e anacrónico.

O filme está dividido em três capítulos e Europa é a personagem que os liga. Júpiter, que raptou Europa, é quem relata a história das outras divindades.

Trailer:

Os mitos gregos sempre remeteram para o erotismo, a sexualidade e a transmutação. Honoré não se limita a sublinhar esse adquirido. Reinterpreta-o. A câmara atenta nos corpos e órgãos genitais de homens e mulheres. A animalidade dos humanos não é apresentada como história moral, antes captada sob um ponto de vista queer: não há identidades fixas e os géneros e corpos são fluidos (o filme, quando muito, é queer, não o livro que lhe deu origem; absurdo seria classificar como queer um objecto da Antiguidade Clássica).

Parece, aliás, que estamos perante uma versão daquilo a que os Estudos Transgénero já hoje começam a chamar transnimalidades (“tranimalities”), ou seja, o cruzamento da afirmação social trans com a defesa dos direitos dos animais, ambos muitas vezes encarados pela sociedade em geral como seres menores face aos humanos comuns.

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Cristophe Honoré (foto: Georges Biard/CC)

Descrito pela distribuidora portuguesa Leopardo Filmes como “adaptação contemporânea e arrojada da obra clássica de Ovídio”, o filme é, afinal, uma sucessão de quadros e situações que nos vão contanto a história dos deuses gregos num contexto contemporâneo.

Não há fio narrativo. Na maior parte do tempo, estamos em França, hoje. Júpiter é um rapaz de 30 anos, que usa barba e camisa de ganga. Europa é uma miúda de mochila às costas e curiosidade imensa. Tirésias é um médico de bata branca. Narciso mora num bairro suburbano, joga basquetebol e anda de skate. E assim sucessivamente.

Desconte-se o curso completo de Cultura Clássica que seria preciso para se perceber alguma coisa, mas não o postiço interminável.

Bruno Horta

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