“Um dia, quando tinha 20 ou 21 anos, enviei um conto a um crítico italiano. Poucos dias depois, ele respondeu-me a dizer que tinha gostado muito, o que era mentira, e a pedir-me para tentar escrever, sim, mas sobre aquilo que eu via a partir da minha janela. Comecei a escrever e percebi que estava a fazer o mesmo tipo de literatura que os escritores que mais admirava.” A saber: Gay Talese, Hunter S. Thompson, Tom Wolfe, Truman Capote, os fundadores do new journalism americano dos anos 60 e 70.

É assim que à saída da adolescência surge Roberto Saviano tal como conhecemos agora: escritor-jornalista, repórter de investigação, cultor do jornalismo narrativo, romancista não-ficcional ou qualquer termo idêntico que se queira usar.

Nasceu há 35 anos em Nápoles, estudou filosofia e tornou-se famoso em 2006 com o livro Gomorra, êxito mundial que levou a máfia a prometer-lhe a morte. Publicou agora ZeroZeroZero, original italiano de 2013 com subtítulo esclarecedor: “A cocaína governa o mundo.”

Saviano foi ao coração do narcotráfico para explicar como se tornou a cocaína o maior negócio de sempre. Escreve na página 106 da edição portuguesa, traduzida por Vasco Gato:

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“As acções da Apple tiveram uma subida em bolsa de 67% apenas num ano. Uma subida notável para os números da finança. Se tivesses investido mil euros em acções da Apple no início de 2012, terias agora 1670. Nada mau. Mas, se tivesses investido mil euros em coca no início de 2012, terias agora 182 mil.”

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De visita a Lisboa, em Outubro do ano passado, Saviano explicava-me que prefere considerar-se um autor, na acepção inglesa do termo. “Dizer que sou jornalista é pouco, mas nada nos meus livros é ficção, há apenas interpretação. Sei que para algum jornalismo não fica bem descrever o que cheirei ou senti, mas para mim isso é fundamental.”

A entrevista decorre no 13º andar do hotel Altis, na Rua Castilho, em Lisboa. De camisa azul, fechada até ao último botão, o ar franco mas distante que muitos entrevistadores têm descrito, Saviano debita respostas como uma celebridade que todos os dias respondesse às mesmas perguntas. “Nunca consumi cocaína”, diz, em italiano, sob o olhar atento de guarda-costas. “Quando era mais novo não podia consumir, porque a máfia de Nápoles proibia o tráfico, e hoje não me seduz, já li demasiado sobre o assunto.”

Admite que “a necessidade de vingança” é o motor do seu trabalho. “Vingança contra a dor que senti ao crescer rodeado pela máfia, numa terra em que tudo passa por eles, os negócios têm de ser autorizados pela máfia, os jornais só existem se estiverem controlados pela máfia, os políticos só ascendem se forem amigos da máfia”.

Assim nasceu Gomorra, tinha ele 26 anos. Os 10 milhões de exemplares presumivelmente vendidos em todo o mundo e as consequentes ameaças de morte levaram-no a sair de Itália. Vive hoje em Nova Iorque sob escolta policial permanente e por vezes tem de usar identidade falsa para não ser localizado. Em cada país que visita é a polícia local que lhe dá protecção e decide quantos guarda-costas terá. O mesmo se passou em Lisboa.

Tem a vida destruída. A expressão é dele. Em nome de quê: da verdade, do jornalismo, da fama? “Não posso separar a vingança da busca da verdade”, reflecte. “Quero contar a verdade e intervir no mundo, mas o que me move é a vingança. Não é um objectivo nobre, eu sei. O novo livro é uma vingança contra os meus inimigos, os que achavam que poderiam silenciar-me depois do primeiro livro.”

ZeroZeroZero é um retrato cínico e obsessivo. Mostra a cocaína como a forma mais ousada e menos controlada de capitalismo, a droga que prospera por falar a linguagem contemporânea da comunicação, da rapidez, do (i)mediatismo e do sucesso.

Há passagens enciclopédicas sobre os efeitos da cocaína ou a forma como é produzida; períodos na primeira pessoa sobre o que é investigar o mundo do crime; descrições apuradas dos capos mexicanos do narcotráfico, incluindo, como não?, “El Chapo” Guzmán – pseudónimo de guerra de Joaquín Guzmán Loera, rei do narcotráfico e líder do Cartel de Sinaloa, no México, em fuga da prisão desde 11 de Julho.

Em ZeroZeroZero há, enfim, adornos sobre o mal, a injustiça, a verdade. Página 112:

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“O jornalista, o narrador, o realizador gostariam de contar como é o mundo, como é de verdade. Dizer aos seus leitores, aos seus espectadores: não é como pensavam, aqui está como é. Não é como acreditavam que era. Vou abrir-lhes agora a ferida a partir da qual poderão entrever a verdade última. Mas nunca ninguém o consegue completamente. O risco é acreditar que a realidade, a verdadeira, a palpitante, a determinante, está completamente escondida”.

.zerozerozero_savianoÉ uma longa reportagem de 500 páginas, uma lição de jornalismo e literatura que demorou cinco anos a escrever e já está traduzida em dez países (note-se que cada versão é actualizada pelo próprio com dados recentes). Além do trabalho junto de forças policiais na qualidade de “jornalista incorporado”, ou embedded, Saviano diz ter usado como fontes relatórios da polícia, processos judiciais, pesquisas na Internet, visitas a vários países da América Latina, escutas telefónicas e conversas com advogados e criminosos.

“Há quem diga que o trabalho embedded não é sério, porque limita a acção do jornalista e porque ele tem de apresentar previamente os textos à polícia ou aos militares com o quais trabalha. Não é o meu caso. Não escrevo notícias do dia, passam-se anos, por isso não tenho essa pressão”, esclarece.

O autor não dá muitos pormenores sobre a sua situação actual. Trabalha com a Universidade de Princeton, onde dá aulas sobre crime organizado, o que lhe permite estar em território norte-americano com um visto de trabalho. “Não sei se um dia não sei considerado um perigo público e obrigado a deixar os EUA. Essa incerteza perturba-me: não saber até quando vou viver nestes termos.”

É um autor de guerrilha, mas sente-se perseguido. “Dei uma entrevista ao El País e por acaso disse que de vez em quando tomo umas gotas para dormir, porque preciso mesmo, e esta declaração foi usada para se dizer que tenho problemas psiquiátricos. Todas as estratégias têm sido usadas para me descredibilizar: que sou louco, que o meu trabalho não é sério, que estou a plagiar, que sou mentiroso, que não confirmo os factos.”

Diz isto e poderia estar a falar sobre o céu azul de Lisboa. O olhar de Saviano é denso e todo ele, naturalidade ao falar da vida arruinada. “Todos os grandes líderes criminosos têm uma coisa em comum: a vontade de criar um aura de fascínio”, escreve no livro. Lê-se e é impossível não pensar em Saviano.

Bruno Horta

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