É extraordinária a cobertura que a imprensa portuguesa mainstream faz da actualidade política, quer nas notícias quer nos comentários. Um bom exemplo disso encontra-se na edição deste domingo do jornal Público. Nas primeiras páginas, geralmente consagradas à opinião, aparece um texto que mostra o conservadorismo do jornalismo português, a maneira convencional de ler a actualidade, a rejeição teimosa de qualquer ideia que contrarie o sistema que sustenta o próprio jornalismo.

Assinado colectivamente pela direcção do jornal, o texto aparece na terceira página e intitula-se “Marinho Pinto, o despudorado”. Lê-se:

Marinho Pinto, actual líder do PDR, habituou-nos às mais extraordinárias intervenções na esfera pública. Quem não se lembra do dia em que, mal foi eleito deputado do Parlamento Europeu, disse estar chocado com o elevadíssimo salário dos eurodeputados, sendo que não poderia obviamente abdicar dele porque precisava de dinheiro? Esta semana, o advogado mostrou, de forma talvez mais clara do que nunca, o modo irresponsável e despudorado com que usa a palavra pública. Com a leveza de um taxista que comenta o país, acusou Almeida Santos de uma coisa que, afinal, não tinha qualquer base factual.

O episódio referido teve início a 24 de Maio com a entrevista dada ao Público por Marinho Pinto. Afirmava:

“Não estou a dizer isto em off, é em on: o dr. Almeida Santos é um advogado de negócios e é uma das pessoas que mais negócios fizeram em Portugal na sua condição de líder político e de advogado (…) É vergonhoso esse acto que ele praticou contra a essência da democracia, porque permite que a Assembleia se tenha transformado numa plataforma onde circulam interesses absolutamente opacos, muitas vezes ilegítimos, tráficos de influências. Vá ver o que foram os debates sobre a amnistia (…) A última lei de amnistia e perdão de penas de 1999: os advogados até se arranhavam uns aos outros para meter crimes dos seus clientes que pagavam melhor ou que tinham mais poder. A lei foi aprovada em Assembleia e foi alterada na ida para a Presidência para promulgação. A lei aprovada que consta do boletim da Assembleia é diferente da que foi publicada no Diário da República e não é uma diferença só de correcções. Tem crimes diferentes abrangidos.”

Dias depois, o jornal foi investigar as acusações, tendo concluído que “não era bem assim” como Marinho Pinto descrevera, e citava o actual líder do PDR no que parecia um recuo: “Não estou a acusá-lo a ele. Isso não é uma imputação que lhe faço a ele, até porque ele não é advogado criminal”, disse Marinho Pinto sobre Almeida Santos, a 3 de Junho.

Nesse mesmo dia, o diário da Sonae deu à estampa uma carta do acusado: “Passou tanto tempo que não guardo memória de nada”, argumentou Almeida Santos.

Já este domingo, a fechar o caso, o Público escreve, como citei acima, que Marinho Pinto é “irresponsável” e “despudorado” (como se o pudor fosse sempre uma qualidade), e que diz coisas com a “leveza de um taxista” (é especialmente gritante a desconsideração que uma profissão concreta merece à direcção do jornal, o que diz bem dos preconceitos de classe que encharcam o jornalismo português).

Marinho Pinto é um demagogo, na forma. A análise do Público deste domingo diz que também o é no conteúdo. Será? Sinceramente, não fiquei convencido pela investigação do jornal às acusações de Marinho Pinto, mesmo que o próprio tenha, aparentemente, recuado.

A demagogia dele merece constante reparo do jornalismo situacionista. O estilo e conteúdo tornam-no mais sindicável do que outros, porque ele questiona o statu quo e o convencionalismo em que andamos todos a viver. O jornalismo, como mediador e voz mediana, não aceita que alguém ponha em causa aquilo que o jornalismo dá por certo todos os dias. O estilo responsável e púdico do banqueiro Ricardo Salgado nunca tinha merecido sindicância. Até ao dia.

Não me interessa, aqui, concorrer para uma hipotética defesa de Marinho Pinto, mas acho extraordinária a perseguição mediática a que tem sido votado depois de ter ganhado, via Partido da Terra, 7,14% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu em Maio do ano passado, acima de um partido com representação parlamentar como o Bloco de Esquerda.

Interessa-me dizer que o  jornalismo mainstream assenta hoje:

– na ditadura do partidarismo, como se os partidos ainda representassem a sociedade (a abstenção nas últimas legislativas foi a mais alta de sempre: 41,9%);

– nas figuras tutelares, inatacáveis; e nas ideias “responsáveis”, atendíveis;

– no abafamento de pessoas ou propostas que estejam, ou parecem estar, fora de conceitos como “honra”, “respeitabilidade”, “seriedade”, “responsabilidade”, “sentido de Estado”.

Exactamente: “sentido de Estado” é mesmo a expressão acabada do jornalismo a que temos direito.

Bruno Horta

Advertisements