O bailarino e coreógrafo Volmir Cordeiro criou um espectáculo a solo baseado em Inês Brasil, uma celebridade brasileira do You Tube que aparece em vídeos desconcertantes vistos por milhões de pessoas no Brasil e em Portugal.

“Inês”, assim se chama o espectáculo, é apresentado em Lisboa, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), nos dias 27 e 28 de Março.

Encontro-me com ele numa tarde ensaios no CCB e conversamos durante meia hora no camarim. Figura esguia e de gestos tranquilos, o coreógrafo nascido há 28 anos no Sul do Brasil (em Concórdia, estado de Santa Catarina) fala-me do objectivo do espectáculo: servir de base à sua tese de doutoramento na Universidade Paris VIII, cujo tema é “Figuras da Marginalidade na Dança Contemporânea”.

Eventual discípulo da dança butoh, ou talvez do Tanztheater, Volmir Cordeiro quer trazer para o centro do palco os excluídos e os que não têm poder simbólico.


Neste espectáculo há uma personagem real e imaginária, uma espécie de “rainha da sucata”, que quer afirmar-se socialmente e parece não conseguir fazê-lo. Quem é a Inês desta peça?
O processo tem várias etapas. Num primeiro momento, Inês é uma coreógrafa, como eu começo por dizer no texto, que deseja a todo o custo fazer parte de um reality show e vai encontrar as estratégias para o conseguir. Vai criar vídeos, para veicular a sua imagem, uma propaganda de si mesma, para, quem sabe, entrar num reality show. Até aqui, tudo bem, milhões de pessoas fazem o mesmo. O que acontece com Inês é que ela se torna muito conhecida através dos vídeos, muito mais famosa, talvez, do que se tivesse conseguido entrar num reality show. Vi os vídeos dela, que se transformaram num grande fenómeno, e tentei analisar o seguinte…

Estamos a falar de Inês Brasil
Isso. Quando encontrei os vídeos dela estava a trabalhar a noção de exposição e a noção de política como construção da própria aparência, coisa que nos animais não se encontra. O Homem é político porque consegue organizar a sua aparência, consegue apresentar-se diante de outros, diante da sociedade, diante de uma instituição. É esse o caso de Inês. Ela está a reivindicar a sua capacidade de se apresentar, de se auto-enunciar, de se fazer presente.

Inês Brasil é, à partida, uma excluída?
A minha hipótese é a de que quando estamos a reivindicar muito um desejo de pertença é porque há muitas forças, no nosso entorno, que tentam apagar a nossa presença. O caso de Inês é um pouco isso. A partir dela, desenvolvi aquilo a que chamo “paradoxo da exposição”. Por um lado, ela transforma-se numa pessoa visível, afirmada, nacionalmente conhecida; por outro, toda esta visibilidade, a forma como é feita, contribui para o seu próprio desaparecimento. As condições pelas quais ela é visível fazem com que ela apareça simplesmente para ser destruída, para ser ridicularizada, tida como um monstro da sociedade contemporânea.


Ela não terá plena noção disso?
Já não sei.

Estamos ainda a falar do seu espectáculo ou apenas da personagem pública Inês Brasil?
Dos dois, penso eu. Num primeiro momento, esta figura foi simplesmente uma metáfora… A materialização da exposição é um tema que eu já tinha trabalhado num outro solo [“Céu”, 2012], mas ligado a outros corpos: um povo que concebi no meu imaginário, os caipiras, os camponeses, os mendigos, as prostitutas e os imigrantes. Estava a trabalhar este tipo de subjectividades, com a força desta comunidade feita de poucos membros e de corpos excluídos ou esquecidos. Inês é uma figura real, foi o meu ponto de partida, mas à medida que a comecei a trabalhar tive claro que não poderia simplesmente expô-la. Tive de me expor juntamente com ela. E é aqui que existe um jogo político forte: o artista que se associada a uma figura completamente grotesca, na leitura social, completamente condenada ao ridículo, à patologia, ao distúrbio, a tudo o que jamais desejamos. Comecei a cruzar a construção da minha aparência como artista, da minha vida política, com a vida dela.

Nesse sentido, faz uma leitura e uma reconstrução da imagem de Inês Brasil, o que a torna menos ridícula.
Isso.

Significa que, apesar de também ver o grotesco da personagem, consegue entender de onde vem aquela pessoa, onde ela quer chegar e porque é que é importante dar-lhe valor.
É isso.

Há alguma coisa na sua história de vida que o leve a interessar-se por Inês Brasil? Porque é que ela é interessante para si?
O que me interessa, no caso de Inês e da peça, é como é que podemos reconstruir as condições de visibilidade, da nossa visibilidade, da visibilidade de um artista, e da visibilidade do povo, dos anónimos ou dos pobres, que é como eu defino as figuras que estou a pesquisar para o meu trabalho de tese. No caso de Inês Brasil, ela mesma coordena a sua maneira de se expor, ela mesma constrói os seus vídeos. Se compararmos os primeiros vídeos, há sete anos, com aqueles que ela fez no ano passado, há uma progressão estética.

Que é qual?
Os cenários eram favelas ou feiras ou o Maracanã e ela dançava à frente, ou fazia montagens com jogos de computador. O último vídeo, no qual me inspiro, tem um fundo branco, o plano é americano, não há música, ela canta e fala…


Refinou a imagem…
Ou está a adaptar-se aos valores que ela agora considera ideais. Passou de um excesso estético, de um transbordamento de informação, a uma coisa minimal. Ela diz coisas que não têm muito sentido, ousa jogar com uma sintaxe delirante, que ela inventa, mas que se percebe. É uma linguagem muito autónoma, mas rimo-nos disso. Não se diz que ela inventou a própria língua, é muito mais fácil dizer que aquele sujeito está fora da norma.

Que também está.
De facto, sim. Mas é preciso ver se hoje ainda conseguimos definir a norma. Numa sociedade tão heterogénea, que está sempre a trabalhar para ser cada vez mais padronizada, será que se consegue estabilizar uma norma ou a norma não pára de mudar? A norma altera-se a cada minuto. O caso de Inês é um cúmulo de muitas diferenças, de muita singularidade.

Ou seja, o seu interesse é teórico, não se revê propriamente nela. Ou revê?
Houve um momento em que ela desapareceu. Deu-se o entrelaçamento entre eu e ela e nasceu uma terceira figura. No palco está uma figura múltipla que já não sou eu nem Inês Brasil, é uma mistura profana das nossas características, que geraram uma terceira figura que eu encarno. Não é apenas uma referência a Inês Brasil ou a mim, é a alimentação contínua de uma confusão entre nós os dois. Gostava que o público entrasse nesta confusão.

Qual é o seu ponto de chegada? Ao trazer os excluídos para o trabalho coreográfico quer demonstrar o quê?
Não sei se o gesto, na dança, procura uma finalidade. Isso seria uma acção, fazer uma coisa com um objectivo. O gesto, para mim, é sempre um meio, está sempre a activar a nossa capacidade de ficar no meio. Procuro reconstruir o quadro de visibilidade de Inês, como se pudesse competir com o sistema mediático, que é muito mais poderoso que o sistema teatral ou da dança. No fim, quero propor uma outra imagem de um corpo monstruoso ou escandalizado ou ridículo ou fora da norma. E assim jogar também com o preço que os artistas estão dispostos a apagar para se tornarem visíveis, para aparecerem nos jornais e terem boas críticas e serem programado nos teatros. Não me quero rir de Inês Brasil, não quero apropriar-me da linguagem dela para fazer um slogan, quero reconstruir as condições de visibilidade dela e as minhas, as de um jovem artista que está a fazer o seu segundo solo.

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A personagem de Volmir Cordeiro (foto: Margot Videcoq)


Conhece pessoalmente Inês Brasil?

Não.

Gostava?
Sim, já tentei. Não tive resposta, talvez o meu tipo de interesse não seja o interesse dela.

As pessoas que lhe são próximas questionaram o seu interesse por esta personagem?
Sim e eu respondi “por que não?”. Pergunto-me porque é que tenho apenas de ver os filmes de Pasolini para criar uma obra de arte. Porque ele é já um valor seguro no mercado da arte? Os vídeos de Inês não podem ser vistos como obras de arte? Não podemos procurar as questões sociais sérias que estão ali veiculadas, a começar pelo poder da imagem?

Quando é que vai concluir a sua tese? A tese de um coreógrafo é escrita ou dançada?
É as duas coisas. É uma tese que vou terminar daqui a quatro anos. Estou a trabalhar nisto há um ano e meio. Estou inscrito num programa da Paris VIII que se chama Programa de Pesquisa e Criação, é muito recente em França. Tenta estudar as teorias que podem emergir das práticas artísticas.

Bruno Horta

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