Alberto Neto (1931-19887)
Alberto Neto (1931-19887)

A macabra descoberta é feita na Nacional 5, junto Águas de Moura, a três quilómetros de Setúbal. Um casal de veraneantes pára o carro para usar o mato como casa de banho e descobre o cadáver a cem metros da berma da estrada, sob um sol abrasador, já em decomposição. Avisam os bombeiros, que, por sua vez, chamam a Polícia Judiciária (PJ). É segunda-feira, dia 6 de Julho de 1987.

Ilídio Neves, então director da PJ de Setúbal, decide acompanhar a brigada de homicídios ao local. Encontra um cenário enigmático. O cadáver está de bruços no meio de um matagal pouco denso, apresenta ferimentos de bala na nuca, está vestido com um fato de treino colorido, puxado para baixo, com o rabo à mostra. No mesmo sítio, restos de papel higiénico e uns óculos, que se percebe pertencerem à vítima.

Entre os agentes da PJ a hipótese de o cadáver ser o de Alberto Neto é a primeira a surgir. O padre, que dava aulas de Religião e Moral no Liceu de Queluz, tinha ido passar uns dias a Armação de Pêra, no Algarve. Deveria ter regressado na sexta-feira, 3 de Julho, para celebrar um casamento em Rio de Mouro, Sintra.

A ausência injustificada ao casamento, mais o silêncio de dias, já tinham levado a família dos noivos a avisar a polícia. A 8 de Julho, na morgue do cemitério de Setúbal, o padre Armindo Garcia, então professor da Universidade Católica, e José Alberto Oliveira, sobrinho de Alberto Neto, confirmam o que era mais que certo: o cadáver encontrado pertence ao padre que andava desaparecido.

No mesmo dia, o corpo é trasladado para o Instituto de Medicina Legal, em Lisboa. A autópsia demonstra “sem margem para equívocos”, de acordo com a imprensa da época, que Alberto Neto ingerira uma frugal refeição nos sessenta minutos que antecederam a sua morte e apura que a causa da morte é a bala de calibre 6,35 milímetros que o cadáver apresenta no interior do crânio. E mais não se sabe.

A urna com os restos mortais fica em câmara ardente na igreja de Rio de Mouro, onde Alberto Neto era pároco desde há três anos. “Durante toda a noite o templo manteve-se repleto de gente permanentemente em vigília de oração”, escrevem os jornais. A cerimónia fúnebre é presidida pelo então cardeal-patriarca de Lisboa, que termina mais cedo que o previsto uma visita oficial ao Vaticano. “O regresso a Portugal de D. António Ribeiro é justificado oficialmente como uma simples atitude de solidariedade humana, mas o facto não deixa de ser associado, em certos meios eclesiásticos, a uma homenagem da hierarquia católica ao trabalho pastoral do padre Alberto”, lê-se no Expresso.

Durante as exéquias, António Ribeiro diz “esperar confiadamente que as autoridades competentes consigam apurar toda a verdade dos factos”, e o presidente da República, Mário Soares, num telegrama de condolências à família, diz que a vida e a acção do presbítero são um exemplo de “fraternidade e coragem que não será esquecido”. O funeral termina em Souto da Casa, Fundão, onde o padre nascera havia 56 anos.

O país está em estado de choque. Foi assassinado o homem insubmisso que enfrentara o Estado Novo e clamara a vida toda por liberdade e justiça. A conhecida Vigília da Capela do Rato, em Lisboa, em Dezembro de 1972 –acontecimento importante na oposição à Guerra Colonial e ao salazarismo – terá tido em Alberto Neto um líder espiritual. Até hoje, nunca se soube quais as circunstâncias da morte. O caso tem motivado especulações, enquanto a história de vida do padre vai ganhando foros de mito.

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O “Diário de Notícias” relatou o funeral de Alberto Neto (imagem compósita)

Uma onda de boatos atingiu os jornais naquele Verão de 1987. Que  o padre foi morto por traficantes de automóveis pertencentes a uma rede desmantelada dois meses antes. Que se deslocou a Armação de Pêra para acompanhar toxicodependentes em recuperação. Que foi vítima de um ajuste de contas de barões da droga. Toda a gente pensa ter a chave do mistério.

Os boatos ajudam a redireccionar as investigações. A princípio, a PJ tinha-se concentrado na região de Palmela e depois numa área 60 Km para Sul. Rapidamente percebe é para o Algarve que se deve dirigir.

Em Portimão, a 11 de Julho, é encontrado o carro do padre, um Peugeot 205 cinzento, matrícula JZ-29-34, fechado à chave e sem danos aparentes. No interior, um maço de tabaco, um isqueiro e um boné pertencentes a desconhecidos. O criminoso terá pedido boleia ao padre Alberto, ainda no Algarve. Ter-se-á sentado ao seu lado até Águas de Moura e, depois de o matar, regressado ao Algarve na mesma viatura.

A reconstituição que a PJ faz das últimas horas de vida de Alberto Neto deixam Ilídio Neves convicto de que “o eventual acordo do padre em dar boleia a alguém e a discussão que pode ter levado ao homicídio, aconteceu tudo a partir do Algarve”. Mas o crime foi praticado no local onde o corpo é encontrado, garante o antigo agente da PJ.

Era na sala de canto coral do Liceu de Queluz que Alberto Neto dava aulas de Moral e Religião. Assim foi entre 1977 e a data da sua morte. O liceu chama-se agora Escola Secundária Padre Alberto Neto. Ainda hoje, há funcionários e professores que guardam memórias. José Carvalho, professor de filosofia e ex-presidente do conselho directivo, diz que o padre “era uma referência para todos, não por ser professor de Moral, mas porque era uma pessoa dinâmica, que se envolvia nas actividades da escola”. Tinha as turmas cheias. “Era caso único, pelo menos aqui na linha de Sintra”, garante o professor.

Nas aulas, falava de “amor, liberdade, sexo, droga, paz, deus, Cristo, Igreja”, disse numa entrevista ao jornal da escola, em 1983. Ficou célebre o seu estilo franco e desassombrado. Considerava urgente criar uma escola nova, “aquela onde a professora fez o ponto de filosofia pelo Diário Popular”, dizia.

Alberto Neto tinha sido professor muito antes de chegar a Queluz. Dois anos depois de ordenado sacerdote, em 1957, já dava aulas no Liceu Padre António Vieira. Mais tarde, no Pedro Nunes, ambos em Lisboa. Como alunos tivera os jovens Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Louçã e Guilherme de Oliveira Martins. No ano da morte da sua morte, este último recorda no Diário Popular as conversas que mantinha com o padre nos corredores do Pedro Nunes. Alberto tinha a “capacidade de fixar as balizas da responsabilidade”, sublinhava Guilherme de Oliveira Martins.

Curiosamente, numa homilia em Janeiro de 1971, confessara: “Quando estava no Seminário, todos os meus professores diziam que eu não seria nem um bom pregador nem um bom professor. Comecei a dar aulas e verifiquei que era ali a minha vocação”.

No ano seguinte, deu cobertura a um dos polémicos episódios da oposição ao Estado Novo. A Capela do Rato, em Lisboa, na qual era sacerdote desde 1961, é ocupada a 30 de Dezembro de 1972, véspera do Dia Mundial de Oração pela Paz decretado pelo Papa Paulo VI. Um grupo de católicos reclama o fim da Guerra Colonial e aproveita a data para fazer uma vigília de jejum na Capela. A polícia política prende muitos dos “desordeiros”.

Alberto Neto, que adoecera depois do Natal, não está presente na vigília. No entanto, sem Alberto “nunca alguns dos organizadores da vigília teriam sentido a urgência da sua realização nem teriam tido a coragem de correr riscos”, recorda Jorge Wemans no livro Padre Alberto, Testemunhos de uma voz Incómoda, organizado em 1989 pelo padre Peter Stilwell.

A rebeldia sai-lhe cara. É transferido para uma paróquia mais discreta, a de São João de Brito, em Lisboa. A 6 de Outubro de 1973, anuncia na missa: “O senhor patriarca garantiu-me que eu não saía por razões políticas e eu tenho o dever de acreditar. Acredito até que a minha saída seja uma tentativa dos meus superiores de me livrarem de apuros”. Ainda assim, confessa-se “apanhado de surpresa pela demissão a que chamaram transferência”.

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O padre de Rio de Mouro pode ter sido assassinado depois de um “engate de ocasião”

É no início da década de 70 que Alberto Neto, fervoroso adepto do Sporting, é convidado pelo clube para dirigente do departamento juvenil de futebol, sendo promovido ao departamento sénior, mais tarde, quando João Rocha se torna presidente do clube. No livro de Peter Stilwell, o histórico guarda-redes do Sporting Vítor Damas, amigo íntimo do padre Alberto, refere que ele “era mais um entre os desportistas, ser ou não da igreja não tinha influência”. Não raras vezes, terminado um desafio, o padre acorria ao acesso aos balneários para saudar os jogadores do seu clube. Dessa relação próxima com o futebol, conservava a amizade com o massagista Mário Belo, mais tarde funcionário do Sporting Club Farense.

Na noite anterior ao assassinato, Alberto Neto terá sido visto na estação de comboios de Faro por um familiar do já então falecido massagista. Esse testemunho, recolhido pela PJ, e o facto de aquela estação de comboios ser um conhecido ponto de encontro de homossexuais à procura de sexo colocou a hipótese de o padre Alberto ser homossexual e de uma discussão com motivos sexuais ter desencadeado o crime. A imprensa nota a hipótese.

Ilídio Neves fala num possível “engate de ocasião”, mas sublinha que “não há nada que permita afirmá-lo”. Adianta, porém, que os sinais evidentes de luta que havia em redor do cadáver, com a terra revolvida, o levaram “desde logo a pensar que se tratava de um roubo ou até que havia outro móbil, eventualmente de natureza sexual”. A hipótese do mero assalto que redunda em violência não colhe perante o relógio que o padre conserva no pulso esquerdo e os três mil escudos que tem no bolso no dia em que é encontrado em Águas de Moura.

José Carvalho tem dúvidas. “Nunca o padre Alberto teve qualquer comportamento homossexual. Nunca insinuou o que quer que fosse, enquanto o conheci”, afirma.

Passados 27 anos, esta e outras hipóteses continuam em aberto. Parece certo que houve apenas um assassino – dois ou mais criminosos acabariam por se desentenderem e denunciarem, acredita Ilídio Neves, lamentando que a PJ de Setúbal nunca tenha conseguido deslindar o mistério. “A brigada era altamente eficiente, 90 e tal por cento dos casos eram resolvidos”, assegura.

A 26 de Outubro de 1987, o historiador e jornalista Fernando Piteira Santos escreve no Diário de Lisboa: “A projecção pública que o caso assumiu coloca a PJ numa situação delicada. Alberto Neto era uma figura prestigiada e respeitadíssima no mundo católico e cultural e dificilmente o curso das investigações deixará de ser lembrado. Não é possível deixar de dar uma satisfação à opinião pública. A cortina de silêncio é desprestigiante e é inaceitável”.

Bruno Horta

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