Um encontro de sexo fugaz numa praia, desentendimento, agressões. Depois a luta e a morte. Naquela noite de 2 de Novembro de 1975, Pier Paolo Pasolini terá sido assassinado, perto de Roma, pelo prostituto Pino Pelosi, de 17 anos, primeiro à paulada, depois esmagado pelo próprio carro. O crime silencia um dos mais importantes intelectuais do século XX, uma “inteligência combativa e aguçada”, como os editores escreverão mais tarde nos seus livros. Um homossexual controverso, comunista militante, que rejeitou incensar a homossexualidade nos seus livros e filmes, mas não não se cansou de vociferar contra o estatuto de mero “tolerado”.

É sobre aquele dia, o último dia da vida de Pasolini, que Abel Ferrara constrói o filme homónimo. “O sexo é político?”, pergunta um jornalista a Pasolini (interpretado por Willem Dafoe) no início do filme. “Claro, nada há que não seja político”, responde o realizador nascido em Bolonha a 5 de Março de 1922, filho de um tenente de infantaria e de uma professora primária.

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Abel Ferrara – cuja carreira começou pela pornografia, em 1976, com 9 Lives of a Wet Pussy, e que em 2014 apresentou Welcome to New York, sobre o caso de alegado abuso sexual de Dominique Strauss-Kahn sobre uma mulher – não será propriamente um moralista. Ainda assim, não se espere do filme quaisquer contemplações para com Pasolini e o seu trágico fim de vida.

Sobre Pino Pelosi, logo em Novembro de 1975, no “Requiem para Pier Paolo Pasolini”, o poeta Eugénio de Andrade escrevia: “As putas desta espécie confundem moral com o próprio cu.” Ferrara não só não vai tão longe como não procura culpados ou inocentes.

De cores e ambientes tétricos, o filme mostra uma versão dos factos e não esconde as contradições do escritor e realizador italiano. A vida confortável e cómoda e as preocupações intelectuais de Pasolini aparecem em contraste com o mundo frágil e indigno dos ragazzi di vita que o atraíam.

Pasolini estreou-se em Setembro de 2014 no Festival de Veneza e foi mostrado aos portugueses em Novembro de 2014, durante o Lisbon & Estoril Film Festival. Para além do que os críticos de cinema nos possam ajudar a entender, o filme parece, sobretudo, dar forma artística a duas realidades reconhecíveis por muitos homossexuais.

Por um lado, os encontros sexuais fugazes (os engates), com prostitutos ou não, em zonas sombrias, o que pode ficar a dever-se ao estatuto de ilegalidade que a homossexualidade conheceu até tarde (1981 em Portugal, por exemplo).

Por outro lado, a violência física que desponta em relações sexuais que aparentam grandes desvantagens simbólicas para um dos parceiros. Nisso há dois óbvios exemplos portugueses: o homicídio de Artur Esteves, proprietário da discoteca Trumps, em Setembro de 2004; e o homicídio de Carlos Castro, cronista social, em Janeiro de 2011.

Bruno Horta

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