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“The Blue Boy” teve estreia mundial em 2011, no Festival de Teatro de Dublin e passou por Lisboa em Fevereiro de 2015


Foi um escândalo, há sete anos, na Irlanda. O governo publicou um relatório sobre abusos sexuais, castigos físicos e violência psicológica sobre crianças em escolas católicas irlandesas. Ficou conhecido como Relatório Ryan e continha factos ocorridos entre os anos 1930 e 1990. O papa Bento XVI mostrou-se incomodado. Milhares de irlandeses participaram numa marcha de indignação. E a companhia de teatro Brokentalkers, de Dublin, criou um espectáculo baseado naquele horror.

Intitulado “The Blue Boy”, teve estreia mundial em 2011, no Festival de Teatro de Dublin. É um espectáculo de dança, teatro, música e performance. E inclui testemunhos gravados homens e mulheres vítimas de padres e freiras. “Às vezes sinto dor, outras vezes sinto raiva, mas espero que um dia passe”, diz um homem ao recordar as sevícias da infância. “Vivíamos no terror e no medo absolutos, ele fechava a porta, começava a despir-nos, depois batia-nos e só acabava quando caíamos ao chão”, acrescenta outro.

“The Blue Boy” é apresentado no Centro Cultural de Belém. É a primeira vez que a companhia de teatro Brokentalkers está em Portugal. Feidlim Cannon, de 37 anos, actor e co-encenador do espectáculo (o outro encenador é Gary Keegan) explica-me o que o motivou a trabalhar um tema tão perturbante.



Durante décadas, milhares de crianças irlandesas foram vítimas de tortura. “The Blue Boy” foi a forma que encontrou de reagir?

Senti, como artista, que tinha de fazer alguma coisa. O Relatório Ryan abalou a sociedade irlandesa. Eu e o Gary percebemos que teríamos de falar com os vários intervenientes: políticos, padres, jornalistas, sobreviventes e pessoas que fizeram o relatório. Demorámos 14 a construir o espectáculo. Durante a pesquisa, percebemos que é muito difícil para as pessoas falar e ouvir falar sobre este assunto.

Porquê?
Há um sentimento de vergonha, vergonha por termos permitido que isto acontecesse na sociedade irlandesa.

Os abusos eram praticados em escolas de toda a Irlanda?
Sim. Estamos a falar de crianças que eram retiradas às famílias, a maior parte das vezes eram filhos e filhas de mães solteiras. Eram retiradas às mães e enviadas para estas escolas, chamadas escolas profissionais.

Estamos a falar de maus-tratos, abuso sexual, violência psicológica?
Os abusos sexuais era praticados em larga escala. Os maus-tratos eram prática corrente, as crianças eram simplesmente espancadas. E a violência psicológica também existia. Estas histórias podem muito bem aparecer na primeira página dos jornais e ser tratadas com sensacionalismo: “Padre pedófilo violou crianças”. É um tratamento excessivo. Quisemos um pouco mais de complexidade e de abstracção. Quando há muito sensacionalismo, é fácil virarmos as costas aos assuntos, não queremos ser confrontados com histórias de violações. O nosso desafio foi pensar na maneira de captar a atenção do público. Foi por isso que trabalhámos com bailarinos e não com actores, porque eles conseguem pegar na dimensão física deste tema. O movimento é mais eficaz do que actores em cena a fazer de vítimas.

Feidlim Head Shot 2014
O encenador Feidlim Cannon (foto: Quaternaire)

O que é que o moveu a si e ao co-encenador, que ímpeto é que sentiram para pegar nesta temática?
Quando o Relatório Ryan saiu, o Gary tinha tido o primeiro filho. Sentiu que tinha de dizer alguma coisa como pai. No meu caso, o meu avô foi adoptado, nunca soubemos muito sobre o passado dele, e até certa idade estudou numa destas escolas católicas e também era maltratado. Ou seja, o tema estava no nosso DNA. Talvez não tivéssemos conseguido fazer uma peça assim há uns 15 anos, mas hoje, numa época em que a religião perdeu força na sociedade irlandesa, achámos que era altura de olhar o tema e perceber porque é que aquilo aconteceu. Muitas das vítimas foram silenciados, não lhes era permitido falar. Sentimos que o espectáculo poderia ser uma plataforma para estas pessoas se expressarem.

Porque é que as vítimas não podiam falar?
Porque entretanto o governo irlandês criou o chamado The Redress Board, com o objectivo de tentar compensar as pessoas. Ou seja, dá indemnizações aos sobreviventes. Quem aceita o dinheiro, tem de assinar um contrato a dizer que nunca mais volta a falar sobre os abusos. E se falar arrisca pena de prisão. Foi assim que o governo irlandês lidou com isto. E o mecanismo continua em vigor.

É também por isso que os testemunhos gravados, que ouvimos na peça, são de anónimos.
Exactamente.

Como é que chegou a estas pessoas? Através dos responsáveis pelo Relatório Ryan?
Não, foi através de organizações não governamentais que trabalham com vítimas de abusos. Falámos com eles e fomos muito bem recebidos.

A participação das vítimas na peça terá funcionado como uma forma de terapia?
Não sei. Não somos terapeutas, somos artistas, não podemos fazer muito para ajudar as pessoas. O que lhes dizíamos era: ‘Se falarem connosco, é muito provável que o vosso depoimento seja utilizado na peça.’ E as pessoas ficavam felizes. De outra forma, teríamos ouvido o relato e depois criado um texto que seria interpretado por actores. Na nossa peça, todas as vozes que ouvimos são das vítimas, são vozes autênticas.

O espectáculo usa luzes com cores frias, a música gera um ambiente de tensão, o movimento dos intérpretes é muito repetitivo, como se estivéssemos a ver animais nervosos dentro de uma jaula. Explique-nos um pouco as opções de encenação.
São seis intérpretes. O Gary, que co-encenou o espectáculo comigo, é o narrador e está separado dos outros intérpretes por uma parede, uma forma de sublinharmos que o tema esteve fechado entre quatro paredes. Os intérpretes estão vestidos com um uniforme e todos usam máscaras feitas em papel. Têm todos a mesma cara, um rosto de criança. Ao centro do palco, está um grande ecrã de projecção. Há uma secretária, com microfones incorporados. Sempre que alguém bate na secretária, faz eco. Queremos transmitir a frieza daquelas escolas, daqueles edifícios fantasmagóricos. Aliás, o título, “The Blue Boy”, vem de uma história que se conta em Dublin, sobre o fantasma de uma criança que morreu e anda a assombrar um bairro. Neste espectáculo, falamos de fantasmas de crianças, fantasmas de pessoas inocentes. Em termos de instrumentos musicais, temos clarinetes e trompetes, que eram usados por aquelas crianças nas escolas católicas. Aprendiam a tocar e depois actuavam por toda a Irlanda em cerimónias. Por exemplo, quando o presidente Kennedy visitou a Irlanda, nos anos 60, uma destas bandas estava no aeroporto para o receber. Por detrás daquela fachada, estavam histórias de abuso.

O espectáculo traz à memória um filme conhecido, “As Irmãs de Maria Madalena”, sobre raparigas que eram arrancadas às mães e mandadas para um internato…
Mas há uma diferença muito importante na forma. Ou seja, este o espectáculo transmite ambiente, sensações, atmosfera, não é uma recriação realista dos factos. “As Irmãs de Maria Madalena” é um bom filme e falei sobre ele com algumas vítimas. Disseram-me que é difícil verem histórias tão explícitas em termos de violência, sentem-se mais confortáveis se não virem a reconstituição dos abusos.

Além deste espectáculo, os Brokentalkers têm mais duas peças muito conhecidas: “Have I No Mouth”, com a sua mãe e o seu psicoterapeuta em palco. E “Silver Stars”, sobre histórias reais de homossexuais de meia-idade. Diria que o vosso trabalho é uma variação do teatro “in-yer-face”, mais provocador e polémico?
Penso que não. O nosso trabalho não é como é só porque sim. Escolhemos temas que nos atraem. São peças políticas, temas que estão na sombra, que dão voz a pessoas sem voz. Os direitos humanos são uma ideia importante para nós, o que não quer dizer que seja o único tema que nos pode interessar.

A sua companhia procura fugir ao teatro de texto. O que é que não gosta no teatro convencional?
Não me diz muito enquanto artista. Ao contrário de outras companhias de teatro, não produzimos peças, o nosso trabalho é construído de uma maneira fragmentada. O nome Brokentalkers vem de uma tribo ameríndia em que existem vários dialectos, embora todos falem o mesmo idioma. Trabalhamos com não-actores, com várias disciplinas: vídeo, dança, música, teatro. Não nos sentamos numa sala a escrever peças, preferimos um processo de diálogo com vários outros artistas e pessoas de fora do teatro.

Bruno Horta

[uma versão deste artigo foi publicada no jornal Observador em 24 de Fevereiro de 2015]

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